Que temos com a Grécia?

0

A Grécia está em crise. Crise econômica, diga-se logo, porque já de há muito nada vem dali senão atraso cultural. Tornou-se um dos países mais pobres da Europa. Sobra-lhe ruína e história. Uma coisa terrível, porque em seu solo vingou a ciência nutrida na racionalidade humana, e os homens ali exercitavam a democracia como método de convivência sem traumas ou em tentativas de dignidade recíproca.

 

Pelo menos é assim que idealizamos a democracia quando ensejamos que na praça a polis melhor resolvia suas pendências e dificuldades.

 

Na verdade, este conceito idealista e romântico de nivelar desiguais, entendendo-os como merecedores do mando e do comando, deixou as cidades gregas vulneráveis entre si e seus vizinhos, e o resultado foi uma grande diáspora do pensamento helênico que se espraiou bem alem das aperturas de Corinto, das securas das terras Jônias e dos mares ensolarados de Egeu.

 

E a Grécia foi repartida e retalhada por séculos e séculos. Até os seus deuses, tão humanamente queridos foram banidos pela pregação Paulina que restou em dissenso, disputada e aviltada por Roma e Bizâncio, sem falar do Islã que por ali também esteve deixando marcas e feridas ainda sentidas e mal sanadas.

 

Fraturas que as águas de Nereu e do Pireu foram incapazes de unir em imitação às centenas de ilhas Cícladas, pobres e atrasadas. Porque a Grécia que deveria ser um exemplo na cultura, na ciência e nas artes, hoje exibe apenas um cenário devastado do que foi e não mais é.

 

Parece que os deuses ao sumirem do Olimpo abandonaram a esperança no seio dos homens ali resistentes em meio à aridez do solo e a excessiva dispersão de pedras.

 

Mas eis a Grécia no noticiário. Está economicamente quebrada!

 

Pelo menos é assim que repete a mídia internacional. Há um déficit publico enorme. Gasta-se mais do que se pode, e a dívida se tornou tão perigosa que está sendo verdadeira ameaça à estabilidade econômica européia.

 

Segundo estes mesmos especialistas, o caos grego representa o primeiro estágio de débâcle dos chamados PIGS, uma reunião das letras iniciais de Portugal, Irlanda, Grécia e Espanha (Spain), arrumadas depreciativamente como pigs (ou porcos), países cujo desempenho parece evidenciar um chafurdamento na lama que solapa qualquer perspectiva de desenvolvimento em médio prazo.

Mas, em continuidade desta análise, dizem os entendidos que aos PIGS se deveria incluir mais um I, virando PIIGS, tornando a sigla anódina e politicamente correta com a introdução da Itália nesse contexto de pouca solvência.

 

Concretamente, sabe-se que a fragilidade desses países representa uma crise esperada por muitos que viam com desconfiança a criação de um pujante Estados Unidos da Europa, concebido para enfrentar não só a América, como a Rússia, a China e o Japão, grandes colossos econômicos que se postavam ameaçadores no terceiro milênio.

 

Porque a criação da comunidade européia foi imaginada de forma mais tosca e pouco abrangente.

No princípio, talvez por excessivo cansaço de hemorragias inúteis os povos às margens do Rio Reno entenderam que chegara um momento de pacificação de ódios ancestrais entre a Gália e a Germânia.

 

Neste contexto um 1º Ministro da 4ª República Francesa, Robert Schuman, idealizou uma Comunidade Européia de Carvão e Aço, como germe de futura configuração de unidade ampliada.

Proferida em 9 de maio de 1950, a Declaração Schuman como assim ficou chamada, referia-se basicamente à França e à Alemanha Ocidental. O objetivo era centralizar administrativamente a produção energética em uso comum, por meio de uma comunidade onde seria livre o ingresso de outros países vizinhos, afinal o Governo francês se propunha a “subordinar o conjunto da produção franco-alemã de carvão e de aço a uma Alta Autoridade, numa organização aberta à participação dos outros países da Europa”.

 

Imaginada para o livre uso e produção do carvão e do aço sem embargos aduaneiros, a Comunidade evoluiu e alargou fronteiras.

 

No princípio críticos e estimuladores a queriam mais restritas. O próprio General Charles de Gaulle nunca a vira ampliada com bons olhos. Chegara inclusive a vetar o ingresso da Inglaterra, mesmo porque os ingleses, escudando-se no seu já declinante império a desprezara por início.

 

Depois, a perspectiva de um desenvolvimento rápido, aliado à queda do muro de Berlim, virou tábua salvadora para vários estados europeus como a própria Inglaterra.

 

E a União Européia cresceu. A moeda foi unificada, surgindo o Euro, mais forte que o Dólar. Foram unificadas algumas legislações, os limites aduaneiros apagados, um parlamento vem sendo eleito desde 1979 e até uma bandeira azulada com estrelas foi criada.

 

Nesta bandeira, as estrelas não representam Estados membros como acontece no lábaro brasileiro e no pendão americano. A bandeira européia possui doze estrelas embora hoje já existam 27 estados membros e mais 20 em perspectiva.

 

Na bandeira européia o número de estrelas é fruto de uma escolha tão cabalística quanto desprovida de melhor justificativa, só porque o número Doze possui uma característica especial nas várias culturas e tradições européias, como: 12 signos do Zodíaco; 12 horas num relógio; 12 meses num ano; 12 apóstolos; 12 deuses olímpicos; 12 tábuas da Lei Romana, etc.

 

Da União Européia participam atualmente: Áustria, Bélgica, Bulgária, Chipre, Dinamarca, Eslováquia, Eslovênia, Espanha, Estônia, Finlândia, França, Grécia, Hungria, Irlanda, Itália, Letônia, Lituânia, Luxemburgo, Malta, Países Baixos, Polônia, Portugal, Reino Unido, República Checa, Romênia e Suécia.

 

Há um Parlamento com 750 membros com sede em Estrasburgo e em Bruxelas cuja composição é assim rateada: Alemanha, 96 deputados; Áustria, 19; Bélgica, 22; Bulgária, 18; Chipre, 6; Dinamarca, 13; Eslováquia, 13; Eslovênia, 8; Espanha, 54; Estônia, 6; Finlândia, 13; França, 74; Grécia, 22; Hungria, 22; Irlanda, 12; Itália, 73; Letônia, 9; Lituânia, 12; Luxemburgo, 6; Malta, 6; Países Baixos, 26; Polônia, 51; Portugal, 22; Reino Unido, 73; República Tcheca, 22; Romênia, 33 e Suécia, 20.

 

Da União Européia dois fatos a consignar: O primeiro é a ausência da Suíça. Por que a República Helvética não desejou fazer parte da nova nação, restando insularmente isolada em pleno centro europeu?

 

O segundo é a presença mitigada da Inglaterra. Por que a Grã Bretanha preferiu não adotar o Euro como moeda e manteve sua Libra valorizada?

 

Há um dito popular que afirma: “Seguro morreu de velho e Desconfiado ainda vive!”

 

Agora com a insolvência da Grécia, prevista, mas desprezada, estaria a União Européia revelando uma fragilidade impeditiva de consignar um verdadeiro federalismo com autodeterminação dos estados membros? E a presença dos PIGS ou PIIGS como bolas da vez na sequência de desconsertos não seria um prenúncio da inviabilidade de uma moeda comum? 

 

Das federações mais próximas, a americana, por exemplo, sabe-se que após a inserção não houve retorno. O Norte desenvolvido impediu a ferro e fogo a separação do então atrasado Sul, com Abraham Lincoln re-cerzindo o tecido americano que se rasgava.

 

Já a Federação Russa, bem mais recente, passa periodicamente por insatisfações e lutas separatistas

 

Quanto à Federação brasileira, pouca virtude tem a destacar. Se no Sul há sempre uma romântica tentativa de reedição farroupilha e a Amazônia é bem distante, o Nordeste prefere abastecer São Paulo com mão de obra barata. Na nossa Federação quem lucra mais é São Paulo, embora sempre o diga diferente. Enquanto isso as discrepâncias econômicas se acentuam.

 

Na nossa Federação já tivemos a Belíndia, uma mistura da riqueza belga e da miséria indiana nos dois Brasis, o do Sul e o do Nordeste, de Josué de Castro e Celso Furtado.

 

Nestes novos tempos, falar em Belíndia é uma temeridade. A Índia está em franco progresso, pelo menos é assim que decantam a sua eficiência, incluindo-a nos BRIC, sigla que surge em contraponto aos PIGS.

 

Nos BRIC estão o Brasil, a Rússia, a Índia e a China, países cujos índices de crescimento emergem o terceiro milênio em perspectiva de potência econômica.

 

Mas a crise da Grécia revela um dado importantíssimo a destacar. Pelo regime vigente de economia de mercado, os estados ou conglomerados precisam ter controle sobre a emissão monetária, ser eficientes na produção e moderados nos gastos, sobretudo naquelas despesas públicas inerentes à massa salarial de ativos e inativos.

 

Não faltam então os amargos remédios para suprir a imprevidência; redução salarial e adiamento de aposentadorias. Tratamento iniciado no Brasil com a Lei da Responsabilidade Fiscal, as regras para aposentadoria e o Fator Previdenciário.

 

E é por isso que a Grécia se inflama, virando pesadelo para as bolsas e se firma como razão para alertar o Brasil, hoje gozando de alto respeito internacional. Não estaria a Grécia nos dizendo; “eu sou você amanhã”?

 

Porque o Brasil como Narciso às avessas já está se incomodando com a sua atual fama de sucesso. Parece que nos anima a saudade modorra do gigante letárgico em braços esplêndidos.

 

Durante esta semana, por exemplo, o nosso parlamento deu uma demonstração de preferência pelo caos grego. Com discursos patrióticos e em grande aplauso, decidiu-se por engrenar uma marcha ré em busca do atraso perdido, aprovando um aumento inusitado das aposentadorias e extinguindo o fator previdenciário, medidas impensáveis quando se procura viabilizar uma economia saudável.

 

Quem não tem vocação para BRIC, sempre pode ser PIG, eis o nosso eterno retorno à Proust. Eis também o supremo alcalóide anestesiante e frustrante como questão colocada. O aumento irresponsável foi sobreposto na mão do Presidente Lula como uma bomba eleitoreira. Vetá-lo ou não, eis a questão que não lhe tirará o sono!

 

Se a conta será paga por outrem, deve o presidente evitar uma derrocada eleitoral e contribuir para o caos? 

 

Torço para que o veto seja firmado com vigor e firmeza, sobretudo para inserir um pouco de vergonha em nossos congressistas que estão a despedir-se.

 

Infelizmente o Brasil ainda não se vacinou contra a sua demagogia endêmica, moléstia indômita e traiçoeira, pior que a dengue, porque ninguém conhece os seus vetores, nem como preveni-la.

 

Isso, porém, não é importante, diante do Flamengo vencendo o Corinthians nesta mesma semana que restará mais famosa porque o Santos derrotou o Atlético mineiro.

 

Se a Copa do Mundo vem aí e podemos trazer um novo título, para que continuar a ser tijolo (bric) se é o porco (pig) que nos mais convém?

 

Se a Grécia de hoje não é a de ontem, por que o Brasil de amanhã não poderá ser pior que o dos Perós em antropofagia e atraso?

 

É verdade! É tão difícil um jerico ser ginete, quanto uma lagartixa virar jacaré.

 

Assim, que temos com a Grécia, se o importante é discutir a seleção do Dunga?

 

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
Comentários