Que venha 2008!

0

Ensandecidos pela tortura da pobreza, do não ter com quem contar, de esperanças e amigos mortos pelo bope, pelo ibope, pela bosta que é estar na terra, por esta série de amigos imprestáveis, empresários mesquinhos e pobres, que não nos mandam uma cesta, nos chamam de ladrão pelas costas, nos submetem a todo tipo de tortura psicológica e espiritual, por todas estas misérias ditas, assessorias que nos mandam blocos, papéis ofícios e calendários – apêndices de suas derrotas, fraquezas, inanições da alma que invadem meu bureau de revolta, de lágrimas. Desses seres porcos, suas mulas de ouro rotas, seus vasos indianos falsos, suas poças de sangue, seus olhos rotos. Ensandecidos por este Brasil de torturas, de páginas vendidas que só servem para embrulhar o peixe de incompaixão e da fedentina da escama dos homens. Cansados destas hora perdida na porta dos que têm milhões de notas((falsas) e que não levantam a mão, não nos telefonam, não sabem o valor de um texto, de uma palavra, de uma música, de uma porta. Cansados da voz que não agradece, desses jornais falsos, desse boletim de polícia nos jornais da Tv, dessas redações sujas, pobres, sem aumento, sem vidraça para ver o mar. Ensandecidos com estas conversas de não ter dinheiro para melhorar a saúde, para realizar concurso público, para mudar a paisagem, a arquitetura, a poluição dos painéis dos camelôs que viraram as lojas, dos bancos que viraram joalherias do dinheiro do povo, sustentados em juros , em fábulas, dando créditos a quem tem contra-cheque para que  fique refém dois anos no desconto certo e sem escapatória. Ensandecidos por estas escolas particulares que ficam bilhardárias, não têm um projeto social, cultural e ainda posam de premiadas com artistas da Globo, mas que caçoam, mangam quanto alguém vai lhes vender um livro. Ensandecidos de ódio, pavor de gente de espírito pequeno, travado no próprio destino, do próprio dinheiro – dando descarga depois de utilizar o banheiro por mais de duas vezes para economizar água. Cansados da miséria da absoluta falta de não ter com quem conversar, do exato momento de explodir, virar fera, jaula de assombrosas palavras no ouvido da morte que não cala. Cansado da falta de visão de pessoas que podem mudar, mas continuam nos seus ternos, termos, cheios de preconceitos e vícios, acuados na própria cisterna de água podre que os conduzem ao mesmo canal fétido para onde iremos todos. Cansados desta hora, de todas as horas, dos homens, das mulheres que se acovardam, dos que dão o tiro e pedem desculpas, dos que mandam presentes baratos dizendo que é lembrança. Cansado de Freud, de Young, de Lacan, de Rose Marie Muraro, de Eduardo Gianotti,  de Gore Vidal, de Susan Sontag,de  tudo que faz pensar, conduzir algo que não seja está aqui trapaceado pelo dinheiro, vendidos por 10 tostões, enfiados na caverna da indiferença ao nosso sentimento de povo brasileiro sofrido, argüido a cada manhã com o lombo ao sol, o celular na orelha, fechando contratos, em pé nas lojas, como mulas nos cartórios, nos condomínios de um apartamento por andar mas sem água mineral na guarita, de nossas crianças saqueadas no seu corpo por dez reais e um prato de sopa, nossos índios invadidos, destronados falando até inglês. Cansados desta cena nos pontos dos ônibus, do povo em pé, dos médicos em greve, da caterva ignara sabotada por um poder político esquiso, vendido a Bush, corrompido . Cansados desta mentira de sermos nós mesmos, das pessoas que vendem Deus e Jesus Cristo, das portas que se abrem para o inferno das negociações fraudulentas, mas não resolvem o problema das penitenciárias, das mulheres grávidas do estupro, das crianças com asma, morrendo ainda de penumonia e dengue, das malárias da educação, da ausência do outro, do poder público, da faca amolada, do pixote que tornamos todos nós, ricos e pobres, baleados a cada esquina, a cada abrir e fechar de garagem à espera do tiro. Que venha 2008! Venha mesmo. Amparado nesta dor veloz, no vôo mecanizado como diria Núbia Marques. Que venha, enquanto debruçamos sobre o peru que sobrou do natal.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
Comentários