Que vergonha, senadores!

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A foto estampada na primeira página deste JC na sexta-feira, um dia depois da hipócrita sessão do Senado que absolveu Renan Calheiros, resume o sentimento do brasileiro diante de tamanha ignomínia. Dois manifestantes, vestindo roupas listradas de presidiários (por que será que, no imaginário popular, a roupa de prisioneiro é listrada?), cada um identificado como “senador”, seguram uma faixa amarela com a seguinte frase escrita em letras azuis e vermelhas: “Que vergonha, senadores!”.

Numa sessão tão secreta que até os microfones foram desligados, 40 senadores votaram pela absolvição do rei do gado de Alagoas, enquanto outros seis, sorrateiramente, garantiram-lhe a vitória abstendo-se de votar. Dentre estes se revelou logo depois, mais dissimulado que os primeiros e para surpresa de muitos, o senador Aloizio Mercadante (PT-SP). O homem que no ano passado foi indiciado pela Polícia Federal por suposto envolvimento no Escândalo do Dossiê, mas que acabou sendo inocentado pelo Supremo Tribunal Federal, volta assim a manchar um currículo político que já foi digno de referência.

Mas houve quem fizesse pior. Mercadante pelo menos admitiu que se absteve, embora, talvez contaminado pelo verborrágico Almeida Lima (PMDB), tenha justificado tanto que não conseguiu explicar. Na saída do plenário, a Folha Online fez uma enquete com os senadores que revelou mais um pouco da personalidade daqueles senhores: 43 disseram que votaram pela cassação de Renan. Mas como, se o painel revelou que apenas 35 tenham de fato votado contra ele? Ou seja, são mais oito cínicos, que não têm coragem de assumir publicamente os próprios atos.

Na representação de Sergipe, embora somente o empolgado Almeida admita ter votado no ex-amante de Mônica Veloso, é certo que tenha havido um consenso pró-réu. Maria do Carmo (DEM) diz que votou pela cassação, mas, diante das afinidades entre os Alves e Calheiros, ninguém acredita nisso. Já Antônio Carlos Valadares (PSB) sequer consegue revelar o que fez na tarde de quinta-feira. Quando é perguntado sobre o assunto, gagueja, diz que agora vai lutar pelo fim do voto secreto, vaticina que o Senado cometeu um equívoco e pagará por isso, mas não diz que sim nem que não. É a nossa representação na Câmara Alta. Nota baixa.

Quanto a Almeida Lima. Bem, Almeida é um capítulo à parte. Um capítulo para se esquecer. Tendo realizado o sonho de ficar exposto na mídia nacional, seja porque foi chamado de boneca, de pitbull ou outro bicho qualquer, seja porque fez uma defesa estapafúrdia e não convincente do agora aliado de primeira hora, ele acha que se tornou um pop star e o responsável pela momentânea salvação de Renan Calheiros. Almeida sente-se o pai da coisa. O próprio pizzaiolo.

Mas até as baratas do Senado sabem que aquela votação foi decidida por baixo do pano, à custa do clientelismo e da chantagem. Renan é especialista nesse tipo de “argumento” e, com a ajuda do governo Lula e de senadores petistas, soube usar dessa arma muitíssimo bem.

O que Almeida Lima não enxerga é que o povo sergipano reagiu mal à exposição exagerada da sua imagem — exibição ao mesmo tempo vazia de conteúdo — na defesa de práticas condenáveis e que a sociedade tem abominado com veemência crescente. Renan não é acusado de “apenas” ferir a ética, mas, e sobretudo, de cometer crimes.

O presidente do Senado foi julgado pelos pares porque teve despesas pagas por um lobista da empreiteira Mendes Júnior. O amigo lobista pagava pensão e aluguel para a jornalista Mônica Veloso, com quem Renan tem uma filha fora do casamento. A situação se complicou quando ele tentou se defender apresentando documentos sob suspeita. Tráfico de influência e estelionato.

Há outras três acusações e ele ainda enfrenta dois processos no Conselho de Ética por quebra do decoro parlamentar. Ele teria intercedido no INSS e na Receita Federal em nome da Schincariol, para impedir a cobrança de uma dívida de R$ 100 milhões, numa retribuição à cervejaria pela aquisição, por R$ 27 milhões, de uma fábrica de refrigerantes de sua família em Alagoas. A fábrica estava prestes a ser fechada e valia bem menos.

Também há suspeita de que Renan seria sócio oculto de duas emissoras de rádio e de um jornal em Alagoas, onde laranjas teriam participado do negócio de R$ 2,5 milhões em nome dele. O negócio foi confirmado pelo ex-aliado do senador, o empresário e candidato derrotado ao governo João Lyra.

E há ainda uma acusação feita pelo ex-marido de uma assessora do presidente do Senado, segundo a qual um empresário operava um esquema de arrecadação para Renan em ministérios comandados pelo PMDB. O banco BMG — aquele do escândalo do “valerioduto” e do mensalão — seria beneficiado com a concessão de crédito consignado e, em troca, teria pagado propina ao senador.

Por tudo isso já há pedido de abertura de inquérito no Supremo Tribunal Federal contra Renan e o procurador-geral da República, Antônio Fernando de Souza, está encaminhado ao STF o que se investigou contra ele no Senado.

Em resumo: tudo isso que o Brasil está vesgo de saber não passa de mentira, uma invenção da imprensa, nas palavras do nobilíssimo senador Almeida Lima. Segundo suas sábias palavras, o resultado representa o “fortalecimento do Senado Federal”, que “decidiu se baseando na sua consciência”, não aceitando a “pressão da imprensa e da sociedade”. Infelizmente, porque estão na contramão da história. Que vergonha, senadores!

 

Isto é Almeida Lima

“Tenho consciência da minha estatura ético-moral, consciência do que represento politicamente, e da minha estatura intelectual diante dele. A quem considero um homem despreparado para o exercício do mandato, e até mesmo para a vida pública” (sobre o bate-boca com o senador Tasso Jereissati (PSDB-CE), que perdeu as estribeiras e o chamou de boneca).

 

“Quem me conhece sabe que eu não tomaria a decisão de promover a defesa do senador Renan Calheiros publicamente se não tivesse motivado e inspirado em pressupostos éticos, morais, de respeito ao direito, que deve preservar, acima de tudo, o mandato de um senador da República, que conquistou, legitimamente, diante de uma população de um estado como Alagoas” (sobre por que colocar a sua atitude ética, moral e republicana a serviço de Renan).

 

“Como eu não faço política apenas pensando no dia seguinte, ou como alguém já disse, pensando na próxima eleição, mas nas próximas gerações, não me preocupo com as circunstâncias do momento” (realmente ele não se preocupa).

 

“Sairei desse episódio fortalecido em minhas convicções e conquistando um rico e diversificado manancial que será captado sempre que desejar ampliar e aprofundar as reflexões que faço acerca da natureza do Homem — a sua diversidade de caráter, as distorções de personalidade (virtudes e fraquezas), seus valores morais e até mesmo a ética, entendida como a apreciação que se faz da conduta humana, e que hoje procura considerar ‘virtudes’ todas as suas debilidades, desde que sirvam de instrumentos para alcançar o sucesso. É desta forma que o oportunismo, a demagogia, a leviandade, a deslealdade, a simulação, a dissimulação, a hipocrisia e tantas outras nulidades têm sido consideradas comportamentos normais, aceitos por essa ‘ética de conveniência’ e, automaticamente, incorporados à vida moral dessa ‘sociedade’ abominável” (texto incompreensível, carente de tradução).

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