Quem vence uma discussão nem sempre ganha a causa, e – é

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Lá no Cantodoamaistempo, aldeia onde nasci, no interior do Ceará, havia um ditado popular que dizia. “Se quiseres pegar uma galinha, não diga ‘xô!”. Claro, se você a enxotar, ela, por medo ou susto, vai correr para o mais distante possível de você e, se a intenção é pegá-la, o seu trabalho será, certamente, muito mais dificultado.

Devo afirmar também que a metáfora é apenas um exemplo, não se refere a nenhum caso existente; não é para humilhar nem elogiar ninguém. Ela só serve para esclarecer que se você pretende ganhar a simpatia ou algo de alguém não o “afugente”.

Lembro aqui de um caso, este verdadeiro, em que perdi um grande negócio por dar uma resposta irrefletida. Foi no início da década de 90, eu, recém-chegado do Ceará, era um misto de advogado e negociante de bicicletas. Como era notório, naquela época, havia duas grandes marcas de bicicletas no Brasil: a Caloi e a Monark, as duas polarizavam e competiam entre si para conquistar mais mercado, vender mais e se tornar cada vez mais conhecidas, como era e é natural. A Caloi era uma bicicleta mais esportiva, a Monark, mais profissional. Porém, ambas muito boas.
Veio a Aracaju, o então Presidente da República, Fernando Collor de Melo, para a inauguração do calçadão e do Parque dos Cajueiros. Desportista como era, fez um passeio de bicicleta pelo calçadão da avenida Beira Mar, juntamente o governador do Estado e outras autoridades sergipanas.

Foi um evento muito bem divulgado, pois estavam aqui alguns canais de televisão e um grande número de jornalistas de vários lugares. As imagens ganharam o Brasil de norte a sul. Nos jornais da noite e do outro dia, só deu Sergipe e este passeio do presidente Collor de Melo pela nossa Avenida Beira Mar, que, na verdade, é Beira Rio.

Na época, a nossa Loja Sportciclo já era uma “autorizada” da marca Caloi e, claro, queríamos muito conquistar, também, a Monark. Se isso acontecesse nos tornaríamos a primeira e única loja do ramo bicicleteiro a representar, tecnicamente, as duas maiores fábricas de bicicletas do Brasil em Sergipe e, isso nos traria prestígio e, também, mais dinheiro, pois venderíamos mais. Nós já vínhamos trabalhando há mais de um ano nessa busca. Mas, não era fácil, outros também queriam, havia a dificuldade de acesso a quem, de fato, decidia lá em São Paulo, tínhamos que passar por um processo de avaliação e, os supervisores quase não viajavam para o nordeste… Havia a possibilidade e, por isso não parávamos as tentativas, empreendemos algumas viagens a são Paulo, visitando a fábrica, mas, não passávamos dos vendedores e gerentes de vendas. Chegar aos encarregados da área nordeste era muito difícil. Conseguíamos promessas meio sem fundamento e nem garantia…

No entanto, precisamente naqueles dias, logo após a visita do Presidente, por coincidência, acredito, deram-nos um sinal verde, os supervisores de área estariam nos visitando em breve, foi o que lemos num breve comunicado recebido via correio. Ah, ficamos na maior expectativa, ansiosos para que eles aparecessem logo para que pudéssemos mostrar que tínhamos condições e éramos os melhores para representá-los, tecnicamente, em Sergipe.

Os supervisores chegaram, ficamos felizes. A expectativa era muito boa, já fazíamos planos para divulgar a conquista e, com isto, trazermos para a Sportciclo mais uma marca de peso e, com certeza, mais clientes, negócios e fama. Seríamos a única em Sergipe a atender as duas maiores fabricantes de bicicletas do Brasil… Seria, sem dúvida, uma grande jogada de marketing, e um grande negócio…

O nosso escritório funcionava no andar de cima da Sporticiclo, a loja para a qual queríamos conquistar a concessão daquela marca. Recebi-os em nosso escritório, com cafezinho, água e, até uísque, água de coco e tira gosto – o uísque eles não aceitaram, é claro, estavam trabalhando. Todos devidamente acomodados, a conversa fluía muito bem, o negócio próximo de se realizar, senti que havia todas as possibilidades de dar certo, pedi cafezinho, água e aqueles agradinhos, para dizer que sabia receber bem, o assunto rolou de cá pra lá, de lá pra cá, quando, de repente, vem à baila a tal passagem do Presidente da República por Aracaju. E eu, para dar mais ênfase ao nosso negócio, disse:

– Vocês viram? O presidente pedalou aqui na nossa orla de Aracaju.

– E foi na nossa bicicleta Monark, não foi? Afirmou orgulhoso, um dos supervisores…

Foi aí onde eu falei a verdade não omiti, na tergiversei, não menti. Disse o que realmente aconteceu. Com três palavras apenas eu estraguei tudo, foram-se todos os esforços, tentativas, viagens, visitas, pedidos de interferências, etc. Tudo rolou diante destas três palavras:

– Não, era Caloi!

Falei a verdade, de fato as bicicletas eram Caloi. Inclusive, para provar a minha afirmação, saquei, triunfalmente, da gaveta testemunhas inquestionáveis, fotos que não deixavam nenhuma dúvida, estavam ali o presidente Collor, o Governador e várias outras pessoas pedalando bicicletas com marcas bem aparentes, dava para se ler “Caloi”. Ironicamente, nenhuma era Monark. Porém, a minha sinceridade custou muito caro. Falei a verdade, ganhei a discussão, e perdi o negócio. 

Se, ao contrário, eu não tivesse respondido nada, ou apenas concordado com aquilo que ele disse e mudado de assunto, não teria perdido o que tão ansiosamente buscava. Para mim e para a minha loja, aquela conquista ia representar um ganho muito grande.  Todavia, mesmo ganhando discussão e, até provando que estava certo, perdi o negócio.

Pense nisso, às vezes a aceitação ou o silêncio falam mais alto e rendem melhores resultados.

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