Qu”est-ce que c”est?

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A notícia me perturbou. A Direção do Hospital João Alves, também conhecido como HUSE, em denominação dos novos tempos, está a requerer uma “intervenção ética” por parte do Conselho Regional dos Médicos e do Ministério Público. Pelo menos foi assim que eu entendi a partir da matéria publicada no Jornal do Dia da quarta-feira, 21 de novembro, e dos noticiários televisivos.

No Jornal do Dia, a manchete principal dizia em letras garrafais: « A pedido da própria direção, Huse passará por intervenção ».

Que intervenção? Perguntava-me sem entender. E o jornal esclarecia que a intervenção não era verdadeiramente uma intervenção. E explicitava: ‘Em reunião com MP, OAB, e CRM, direção de hospital pede uma «intervenção ética» do Conselho Federal de Medicina’.

Ou seja: a intervenção não é uma intervenção de verdade. É uma «intervenção ética!”

E o que é isso? Qu'est-ce que c'est? Poder-se-ia perguntar em francês, alemão, javanês, juridiquês e até burocratês, ou outro qualquer jargão inerente às decisões protelatórias das discussões inúteis.

Daí o título em francês: “Qu'est-ce que c'est?” (Que é isso?). Como poderia vir em outro idioma, afinal até no Google, o melhor desburrecedor atual, o verbete fala pouco ou quase nada.

“Τι ε?ναι αυτ?;” Perguntaria Hipócrates. “Quid hoc? » Ecoaria Galenus. Was ist das? Questionaria Kant, entre razão prática e lesa-razão pura.

Que é, e como se faz uma « intervenção ética » num hospital de alta rotatividade de atendimento, onde tudo falta, em carências e deficiências, sem falar de cediças falências e de suas enfermiças incongruências ?

E a pergunta me atinge, porque se a bola foi levantada para variado chute ou cabeçada, eu me sinto desafiado também a dar a minha patada, antes porém lamentando a fragilidade do Senhor Governador, que nunca mereceu isso, pelo seu agir afirmativo em correção e altivez, e lhe chega também agora, entre tantos males, essa ‘notável’ « intervenção ética », que todos aplaudem como se fora um novo sol esclarecedor das trevas.

E eu que não vejo nada a aplaudir, estou à espera de soluções. Estou em expectativa, diante do aconselhamento da OAB, a entidade que devia só cuidar dos advogados, segundo meu opinar herético anglo-teutônico, assaz franco por sinal, mas que não se satisfaz assim somente, o MP que acha fácil acionar o poder público em demandas rápidas eficientes e nunca proteladas, e até o CRM, bem pressionado pelo aviltamento salarial do profissional médico.

Por que penso assim? Porque o problema do Huse se estende, salvo engano, em todo hospital público do Brasil, uma falência que os Conselhos Federais dos esculápios, dos advogados e até dos promotores não irão solucionar a contento. Ou pertence a esses senhores a responsabilidade regimental de gerenciar hospitais?

Afora isso, ninguém inseriu nesta « intervenção ética » a entidade dos enfermeiros, o sindicato dos atendentes, dos faxineiros, dos almoxarifes, dos farmacêuticos, laboratoristas, etc, etc, todos com a sua reinvindicação, senão ética, mas com um plano de cargos e salários como tréplica.

Jornal do Dia  de 22 de novembro de 2012

E tanto é assim que em matéria do mesmo Jornal do Dia, edição do dia subsequente, quinta-feira 22 de novembro, as manchetes não solfejavam dissonantes: A primeira: “Servidores da Saúde fazem assembleia”. A segunda: “CRM vai esclarecer como será a intervenção”. E a terceira: “Secretário apoia pedido de intervenção ética no Huse”.

O curioso é que a primeira notícia vem ilustrada com uma foto em que “Servidores fazem assembleia na porta do Huse”. Ou seja; invoca-se a compreensão do leitor porque, pasme-se com a desatenção do hospital dito sem ética: a assembleia fora realizada na sarjeta, no meio fio da calçada do hospital porque “o local interno estava sendo utilizado para a realização de um curso”.

E continua a notícia como se fora um descalabro do próprio hospital, por opinião da superior direção daquela, mais que potente categoria sindical: “Já havíamos requisitado o espaço há muito tempo, e estava devidamente reservado para essa assembleia, mas tentaram prejudicar nossa atividade com a realização de um curso que só tem dois integrantes (grifos meus). Como não podemos parar, debatemos as mobilizações aqui na frente mesmo”.

Pois é! O Hospital pode parar, cursos devem ser adiados, sobretudo se for ministrado algo desimportante como ética, a quem são relegadas as classes vazias. Só não pode esperar a fervente algaravia das assembleias e categorias. Isto é: ética que se preze tem que se submeter à claque de todas as categorias, este parasitismo só nutrido no serviço público.

Jornal do Dia de 22 de novembro de 2012

Ou seja, e ainda; quando há tantos a falar, a requerer, a reivindicar, pouco resta em termos de ordem, de eficiência, de vontade. E o resultado é a falência, a insolvência, e até a insolência que é a própria ausência de consciência e ética.

É como aquele brocardo costumeiro : « Em casa aonde falta pão, todos gritam e nenhum tem razão ».

Dito assim, confesso a minha total desesperança de que o Conselho Nacional dos Médicos possa curar o Huse de tantos males com uma sua « intervenção ética ».

Se eu estiver errado, perdoem a minha senilidade. Um desafio desde Diógenes de Sínope, Aristóteles e até a Erasmo elogiando a loucura, os homens são ou não; éticos: com conselhos, nos concelhos, e bem acima dos Conselhos Profissionais, que às vezes fazem besteiras piores, porque se creem verdadeiros por decisão coletiva.

Quanto ao conceito de ética, o relativismo dos interesses o comanda e bem degrada.

Não fora assim não existiriam as câmaras de extermínio e com elas a incomensurável banalidade do mal, um testemunho veraz aonde pode chegar à ruindade e a irresponsabilidade do agir humano.

Banalidades à parte, vejo mais ingerência que cogerência, nesta inserção de tantos agentes bem intencionados.

Não seria uma espécie de trivialização da gerência, onde quem deveria administrar teme fazê-lo melhor, e quem não devia discursar tanto, nem reivindicar quanto, no desencanto de ganhar melhor com o pior, abusa do tema e da cena para lustro impróprio?

Se tenho esta visão perturbada e turva, tão senil, quão descrente, que meu errar e desconfiar restem como imprecisa imprecação para a provocação dos espíritos, para que nunca se lhes apequene a alma, nem seja desprezado o tema.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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