Questão de ética

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O deputado estadual Gilmar Carvalho (PV), que será submetido à Comissão de Ética, não demonstra receio. Mas nota-se que ele já mudou o relacionamento com os seus companheiros. Pode-se dizer que Gilmar não integra mais a bancada do Governo. Também não está na oposição. Está solto e sem ponto de apoio, embora continue votando normalmente em tudo que vem do Executivo. Trata-se de um parlamentar que tem dificuldade em se relacionar com os seus colegas. Como toda a instituição, a Assembléia Legislativa também é corporativista. Quando um dos seus membros consegue a indiferença de todo o corpo parlamentar, fatalmente será carta fora do baralho. É bom se frisar bem: está na cabeça de todos os deputados, neste momento, ver Gilmar pelas costas, porque ele se transformou em um incômodo para os próprios colegas. Um deputado da oposição, que preferiu omitir o nome, revelou que o bloco só está esperando o processo descer para o plenário, para que todos votem contra. Já alguns deputados da situação não pensam em cassá-lo: seria melhor entregá-lo a tantos inimigos perigosos que fez em sua corajosa trajetória de radialista. Dariam uma suspensão de 60 dias, para que o Judiciário o julgasse nos processos que se acumulam nas varas cíveis e criminais. Outros defendem deixar para o final do ano o julgamento, com o objetivo de manter o parlamentar rebelde sobre controle. Entretanto, na opinião da maioria, a cassação seria a única forma de controlar os excessos do deputado, porque, caso ele tenha outra punição, vai se fazer de vítima e levar a opinião pública para o seu lado. Ninguém pode deixar de reconhecer que Gilmar Carvalho é uma representação do povo, como os mais deputados o são. Mas, os seus pronunciamentos e sua ação como radialista, lhe dão a impressão que tem a força e o poder de decidir tudo, dentro do seu estilo, passando por cima de quaisquer conseqüências.É bom lembrar que Gilmar Carvalho chegou ao legislativo levado por uma prisão arbitrária. O povo foi tira-lo da cadeia e o fez deputado. Situações de aparente constrangimento podem levar a esse tipo de reação popular e, de forma inteligente, com certeza o deputado vai à busca dessa manifestação, porque, no inconsciente de uma maioria desprotegia, ele passou a ser a voz que o defende. O paladino da justiça e do direito, mesmo que tenha de pisar em colegas que possam fazer exatamente o que estão fazendo neste momento. Evidente que Gilmar Carvalho é assistido por uma assessoria jurídica extremamente competente. Será um embate jurídico, dentro da comissão de ética, de alto nível, mas a decisão é política e quem julga é exatamente um plenário, onde não se encontra um único deputado que não tenha queixas dele. Além disso, a nenhum dos “jurados” pode ser argüida suspeição para votar, porque isso foge ao regimento. Para Gilmar se sair imune dessa, seria necessário que o julgamento não fosse feito na Assembléia Legislativa, onde ele coleciona adversários. O deputado é um homem isolado, porque o bloco do Governo não o quer e nem a oposição o deseja. É difícil, dentro desse quadro, sair sem uma punição, onde a maioria se expressa pela cassação. A partir de agora Gilmar tem que trabalhar politicamente. Conversar, retroagir, se entender e até se calar. Em outras palavras: será preciso se enquadrar. Tanto na Assembléia, quanto no radio. Quem conhece o parlamentar, sabe que ele pode até começar a atuar mais politicamente, mas será difícil enquadra-lo dentro de um comportamento que exija o sacrifício da renuncia ao direito da denuncia, do contraditório e de toda essa movimentação que consegue um alto índice de audiência e que o mantém parlamentar. De qualquer forma, alguma coisa Gilmar terá que fazer, porque se para os deputados não é bom tê-lo como aliado, não se sabe o que pensa o Governo sobre tê-lo do outro lado. Entretanto, sem mandato e mesmo que tenha outro microfone de rádio, as condições de Gilmar serão bem diferentes. ORIENTAÇÃO O deputado federal Jackson Barreto (PTB) foi aconselhado a colocar o “pé no freio” em relação ao senador José Almeida Lima (PDT). Os seus aliados acham que não é simpático aproveitar um momento como esse para criticar forte o seu mais ferrenho adversário. PAIXÃO O ex-prefeito Wellington Paixão mantém um bom relacionamento pessoal com Almeida Lima e lamenta que isso esteja acontecendo. Paixão não é mais seu assessor parlamentar, foi exonerado, mas acredita nas boas intenções do senador pedetista. VIRGÍLIO O líder do PSDB, senador Arthur Virgílio, disse que faltou ao seu colega Almeida Lima disposição para conversar sobre a denuncia que iria fazer. Acha que ele deveria ter mostrado ao líder do PDT, o experiente senador Jefferson Perez, para ver como conduziria o pronunciamento. DESVIO Arthur Virgílio (AM) acha que o Governo está incentivando todo esse linchamento do senador Almeida Lima, para desviar a instalação da CPI sobre o escândalo Waldomiro. Segundo Arthur Virgílio, as denuncias de Almeida Lima devem ser levadas em consideração, porque mostram a influência de José Dirceu para salvar seu ex-assessor. AGORA É 15 Com esse slogan, o PMDB pretende lançar candidatos a prefeito, em todas as capitais. A decisão é do Diretório Nacional, que se reuniu ontem em São Paulo. O presidente regional do partido em Sergipe, Benedito Figueiredo, disse que com certeza o PMDB terá candidato à Prefeitura de Aracaju. ABERTO Dentro do partido, em Sergipe, fala-se no nome do deputado federal Jorge Alberto para disputar a Prefeitura da Capital. Tem quem não veja disposição do parlamentar para isso, mas Benedito Figueiredo pode ser o candidato, caso Alberto não aceite a disputa. CONVERSA O deputado João Fontes (sem partido) conversou, em Brasília, com o senador Almeida Lima (PDT) e mostrou que ele foi usado e que todo esse processo faz parte de um desgaste. Fontes disse que deu algumas dicas para ele que saia da crise. Admitiu que o senador não esperava essa reação contra ele. COMISSÃO João Fontes está integrando a Comissão Externa da Câmara, que avalia a situação do Nordeste depois de devastado por fortes chuvas. Pela manhã esteve em Salvador e à tarde em Aracaju. Ouviu prefeitos de cidades atingidas pelas enchentes. Em Sergipe a Comissão foi recebida pela vice, Marília Mandarino. COM LULA Depois de concluir as viagens pelo Nordeste, a Comissão fará uma avaliação da situação e dos gastos para recuperar os estragos, principalmente no setor de infraestrutura. Logo depois será pedida uma audiência com o presidente Lula, com o objetivo de pedir recursos e até sugerir aonde ir busca-los. QUEDA Neste cinco dias de problemas provocados pelas fortes chuvas que caíram na região Centro Sul de Sergipe, teve uma queda de 30% de caminhões que vinham para o Estado. Isso vai provocar uma perda grande na receita, que só será suprida em razão das medidas que o Governo vem adotando para reduzir os gastos. BRASÍLIA O governador João Alves Filho (PFL) teve uma reunião agitada com o ministro da Integração Nacional, para cobrar ações do Governo Federal. Da bancada federal estavam presentes o senador Valadares (PSB), Cleonâncio Fonseca (PP), Heleno Silva e Jackson Barreto (saiu mais cedo porque tinha audiências). TUBERCULOSE O advogado Antônio Correia Matos denunciou ontem a existência de um surto de tuberculose nos presídios de Sergipe, principalmente o de São Cristóvão. O detento Marcos Aurélio dos Santos contraiu a doença e foi submetido a uma cirurgia para a reespansão pulmonar. PROLIFERAÇÃO Como presidente da Associação de Advogados Criminalistas (Asacrim), Antônio Correia Matos, esteve com o secretário da Justiça. Manuel Cacho, e pediu providências. Segundo o advogado, se não houver providências e com a superlotação dos presídios, haverá a proliferação da doença. Notas AUDIÊNCIA I Foi cordial e tensa a audiência que o governador João Alves Filho teve com o ministro da Integração Nacional, Ciro Gomes. Após expor a situação do Estado, João disse a Ciro que em nenhum momento o agrediu, mas falou da coordenação da Defesa Civil e sempre fez crítica citando o Governo Federal. O ministro reconheceu que a Defesa Civil Nacional está sem estrutura para atender a todo o país, mas em momento algum houve discriminação ao Nordeste. Reconheceu que a parte burocrática também atrapalha. AUDIÊNCIA II Ciro Gomes disse que mandou 5.156 bolsas de alimentação para Sergipe e o governador discordou. O ministrou somou: 3.410 pela Petrobrás; 700 do Natal Sem Fome e 1038 de outro programa. Além disso, foram enviados 17 kits de remédio e cada um dá para atender três mil famílias. João insistiu que o Governo do Estado não recebeu nada disso e o ministro revelou que tudo isso foi feito através da direção do Sesc e até elogiou: “que o fez muito bem, diga-se de passagem”. AUDIÊNCIA III Depois dos esclarecimentos, o ministro Ciro Gomes disse que os municípios agora podem reconhecer estado de calamidade, comunicando diretamente ao Governo Federal para as providências. Mas, para receber qualquer assistência tem que enviar o Plano de Trabalho, relatando tudo que aconteceu. Até o momento apenas seis municípios sergipanos enviaram o Plano de Trabalho e o Ministério está esperando o restante deles, para as providências. Em Sergipe, quem cuida do Plano é a Codevasf. É fogo O ministro da Integração, Ciro Gomes, disse que o Governo Federal foi quem construiu a ponte que liga Poço Redondo a Canindé do São Francisco. O governador João Alves Filho reagiu à informação do ministro e disse que foi o Estado, inclusive com o pagamento da obras. Mais uma vez o ministro Ciro Gomes interferiu e garantiu que o pagamento feito pelo Estado será ressarcido pelo Governo Federal. O ministro Ciro Gomes disse, também, que não aceita a acusação de que está devagar, porque nenhum Governo anterior agilizava socorro a vítimas antes de sete meses. O governador João Alves Filho retrucou: “quando fui ministro do interior não era assim”. Ciro ponderou: “eu não analisei a época do senhor”. O pessoal em Cargo em Comissão do Governo só vai receber salário na próxima segunda-feira, por determinação do governador João Alves Filho. Os prefeitos cujos municípios estão em estado de calamidade, devem preparar urgentemente o Plano de Trabalho. O senador José Almeida Lima (PDT) avisa que ainda vai responder aos ataques que sofreu de alguns colegas no plenário do Senado. Em editorial, o Estado de São Paulo diz que ao contrário daqueles que festejam o discurso de Almeida Lima como uma vitória do Governo, o episódio não melhora em nada sua situação. Na realidade há algo de podre por trás dessa manobra do Governo em querer abafar uma CPI para apurar o caso Waldomiro. O Planalto sabe que uma CPI sobre o caso Waldomiro vai acabar explodindo nas mãos do chefe da Casa Civil, José Dirceu. Já estão começando as apostas sobre o resultado da Comissão de Ética que avaliará o procedimento do deputado Gilmar Carvalho. Por Diógenes Brayner brayner@infonet.com.br

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