Racionamento, que vergonha!

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É revoltante que o cidadão que paga sua cota de sobrevivência e seus impostos em dia tenha que pagar mais essa conta, a do racionamento de água. Não é mole ter que passar dois dias ou mais tendo que aproveitar cada gota cuidadosamente armazenada para garantir o consumo necessário e a higiene mínima. Agora, pior do que isso, é ser tripudiado.

 

É, por exemplo, estar de manhã cedo em casa se virando para fazer o asseio e preparar a ração diária e ouvir um radialista cínico berrar que é uma vergonha que em pleno século 21 ainda tenhamos que fazer racionamento de água. Não um radialista qualquer, mas um que não tem autoridade para fazer esse tipo de crítica.

 

Vergonha, caro radialista, é você sentir prazer com o sacrifício de cidadãos honestos que estão pagando porque governos passados — nos palácios nos quais você circulava serelepe e se locupletava —, roubaram o dinheiro da duplicação da Adutora do São Francisco e por isso a obra nunca foi concluída. Vergonha é você deturpar a informação e esconder dos seus ouvintes os verdadeiros nomes de quem roubou o dinheiro da barragem do rio Poxim e por isso a obra só está sendo realizada agora. Vergonha é você fazer de conta que não assaltaram a Deso, que deixou de ser uma empresa exemplar e tornou-se relapsa porque foi sucateada.

 

Lembra-se das malandragens com a Construtora Gautama flagradas pela Operação Navalha da Polícia Federal? Pois é, tem tudo a ver.

Tenha coragem, seja sincero, faça um jornalismo honesto e mostre para a população a verdadeira história desse vergonhoso racionamento de água a que o cidadão aracajuano está sendo submetido. E, no mais, reze para São Pedro, peça para ele mandar um pouco de chuva para as cabeceiras do rio Poxim.

 

Correio

 

“Como leitor assíduo do Jornal da Cidade, não passou desapercebido por mim o comentário feito pelo senhor sobre a greve dos médicos, publicado na edição do último domingo.

 

O trabalho médico é muito singular. Exige atenção redobrada, além de organização e boa relação interpessoal. Além disso, não acaba quando volta pra casa. O médico deve estar sempre se atualizando e, para isso, livros, congressos e revistas médicas especializadas não são baratos.

O objetivo do trabalho do médico é a vida. É afastar a morte, diminuir sofrimentos, reabilitar doentes. Nossa profissão não é mais nobre, nem mais elevada que nenhuma outra. Tampouco o médico é um sacerdote, como se costuma ouvir. Trata-se de um trabalhador como qualquer outro, porém cujo sujeito do trabalho, esse sim, é bem nobre. Não acredito, por exemplo, ser menor a responsabilidade de um médico em sua lide diária em relação a de um juiz de direito, de quem ninguém questiona os vencimentos. E o senhor, se prefere simplificar o problema, acha que prescrever medicamentos se equivale a assinar sentenças?

 

A formação médica também não é fácil. Seis anos de estudo árduo numa faculdade completam um ciclo que se iniciou muito tempo antes, com vários anos de privações pessoais com a finalidade de se passar num vestibular concorridíssimo. Àqueles seis anos de estudo universitário muitas vezes se sucedem outros de residência, de mestrado e doutorado.

 

Ao médico não se admite o erro. Exige-se dele, ao invés, grande atenção, esmero nos detalhes e tempo para se dedicar a cada caso individualmente. Do médico não se tolera falta de dedicação. Ao contrário, espera-se dele – em todas as esferas – que não ganhe o fim de semana com a família, o futebol com os amigos, o cinema com a namorada, a festa de bloco na praia ou o concerto da ORSSE em detrimento da sua continuada formação ou de estar cuidando de um doente à beira do leito.

 

Infelizmente, Sr. Marcos Cardoso, as faturas são implacáveis. Ao contrário do que acontece no mundo maravilhoso do imaginário popular, também nos afetam cartões de crédito, financiamento do carro, pagamento de funcionários, escola das crianças, condomínio, supermercado, aluguel, plano de saúde (sim, médicos adoecem!), como qualquer outro mortal. E afetam nosso trabalho, que perde qualidade, porque nos vence o cansaço.

 

O grande debate que a sociedade deveria estar travando era de que maneira assegurar à classe médica um salário justo, menos tempo de trabalho e mais tempo de dedicação ao estudo e à atualização, livrando-o de ir ao serviço desiludido e desmotivado. Só aos médicos? Não, a eles, a policiais, a professores…

 

Ao reivindicar um salário justo, os médicos de Aracaju não estão procurando cometer uma injustiça. O que queremos é reparar erros. Um erro de décadas de suave submissão aos desmandos do poder público na área de saúde e um erro de omissão de ver nossa classe gradativa, lenta e inexoravelmente humilhada ao longo de anos e anos.

 

E o senhor, Sr. Marcos Cardoso, se lhe fosse dado apenas um critério de escolha, numa hora de extrema angústia e urgência, preferiria ser cuidado por um médico que recebesse R$ 2.500,00 ou por outro que recebesse R$ 8.000,00?”

 

Paulo Marcelo Santos Sobral

Médico emergencista adulto do Hospital Municipal Nestor Piva

 

Contra-réplica

Será que o paciente corre mais risco se for atendido por um médico que ganha pouco? Será que precisa discriminar os médicos que ganham menos? Não, da mesma forma que os médicos não podem discriminar os pacientes pelo poder aquisitivo deles. Mas, infelizmente para todos — porque ninguém sai ganhando com isso —, o habitual nos postos e hospitais públicos, onde a maioria atendida é pobre, é a discriminação.

Os médicos fazem jus aos salários que recebem. E se você, caro médico, concordar com isso estará admitindo sua culpa.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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