Relembrando um tempo de Hugo Chaves

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Republico, a título de memória do Presidente Hugo Chaves, o texto "Heroi ou vilão", retirado de meu livro "Despercebido,… mas não indiferente", fls 329.

Herói ou Vilão?

O presidente Hugo Chaves da Venezuela vem sofrendo uma campanha acirrada da oposição. Uma greve que já se prolonga por mais de 50 dias vem ameaçando a República Bolivariana, nome assumido após a última constituição, quando a Venezuela tentou dar uma borrachada generalizada, apagando tudo, afastando políticos e juízes compromissados com a corrupção e o descalabro do regime anterior e criando uma república nova.

Foi justamente o regime anterior, acusado de ineficiente e corrupto que levou Chaves ao poder, quando Carlos Andrés Perez, um bom Presidente de outrora, num novo mandato decepcionou, e por isso foi derrubado sem lamentações, em nome de uma nova República, uma República popular, ressurgida do ideal revolucionário de Simon Bolívar, “O Libertador”.

Quando Simon Bolívar saiu expulsando os espanhóis por quase toda a América do Sul, tornando-se o verdadeiro herói do Novo Continente, era seu desejo fazer dos, até então Vice Reinados do Peru, de Nova Granada e do Prata, uma grande nação.

O plano bolivariana de Pátria Grande, tão sensato e promissor como aquele das treze colônias que fez nascer e crescer os Estados Unidos da América, não vingou nas mentes tacanhas dos latino americanos. O congresso pan-americano do Panamá, especialmente convocado em 1826, para estabelecer as bases desta grande nação latino-americana resultou num estrondoso fracasso.

O sonho de Bolívar morria minado pelas tendências centrífugas, estimuladas pelos Estados Unidos e Inglaterra, e sobretudo pelos sonhos ditatoriais de tiranetes e caudilhos, tão paroquiais quanto medíocres, verdadeiros construtores do nada, que no lugar do sonho da Grande Pátria, fez surgir republiquetas pobres, miseráveis e sem futuro, cujas instituições não se sedimentam e se prestam a sucessivas marés de barbárie e totalitarismo.

O culpado porém fora o povo, pois sempre é ele quem se engana e se deixará enganar. Ser enganado é da essência do povo. Quanto menos o povo opina, mais o país cresce. Que digam as grandes nações que possuem instituições sólidas, centenárias, algumas milenares e que não oscilam ao sabor de discursos histriônicos, do multipartidarismo descabeçado, dos clubes de beletristas ou zabumbistas de todos gingados.

O povo, a grande massa que fracassa e não progride, é o mesmo em qualquer idioma. Veja-se a própria Alemanha, país mais jovem que o Brasil, quando deu muita voz ao povo, este colocou no poder um pintor, quase um pintor de parede. Nada contra o pintor, nem a parede do quarto de Kant, muito menos o quarto canto coral, de Bach ou natural, pois o problema não é de grama, mas de histograma, de Gauss, um outro alemão como Goethe, que no lugar de dialogar com o diabo, fez uma curva que é o diabo, denuncia, envolve e cobre, qual manto suave em forma de sino, contendo a imensa maioria dos que se nivelam, badalando-se na mediocridade da média. Esta diabólica e gaussiana maioria, aqui e em qualquer lugar, na terra de Hegel e sob o aplauso de Heidegger, enquanto ser daquele tempo, fez de um pintor o seu guia maior, o seu führer, e Germânia, seio farto, por um parto de clister, deu ao mundo por insânia um insano Chanceler.

Sem chancelaria importante, a Venezuela está a padecer desta periódica insensatez coletiva em que a sociedade dividida se bate nas ruas, destruindo o país. Quando o mais correto seria que as partes aceitassem uma negociação sem radicalismo nem salvacionismo, sobram os inflamados discursos latino-americanos, velhos, eivados de mofo e desatualizados. Esquecem a economia universal onde se evidencia, sobremodo, a constatação de que os bens terrenos são escassos e limitados, ao lado de uma total descrença do espírito de solidariedade entre os povos. Sim, porque cada povo está ocupado em resolver o seu problema e prevalece a máxima egoística, mas unânime: “com farinha pouca, meu pirão primeiro”.

O pirão, porém, ainda é pouco.

O Presidente Hugo Chaves

Embora o Presidente Chaves venha tentado mudar a Venezuela, lutando para reduzir as diferenças econômicas, combatendo os sonegadores, aproveitadores de todos os setores e fazendo inimigos vários, a farinha não tem dado pirão suficiente para saciar as bocas rotineiramente abertas e esfomeadas.

Dos pobres e da pobreza, falou-nos Jesus, nosso Deus: “Pobres sempre os tereis”.

No entanto Chaves e Lula vão acabar a pobreza, este tema de ensaios e poemas.

Poucos plantam, raros colhem, de pá e enxada, raríssimos entendem. Entendidos são os que têm seu método de alimentar os famintos.

O grande problema talvez seja um defeito de fabricação humana; os homens deviam sonham pouco, alimentar-se de silício e matar a sede no oceano.

Como não nascemos assim, não há almoço gratuito e o pão é suado, o homem, inclusive por castigo no Gênesis, é a única criatura que trabalha pela sua subsistência.

Todos, porém, têm uma maneira de saciar a fome do povo. A fome tornou-se o grande tema de debate dos saciados. Todos sabem uma maneira para ajudar o Presidente Lula no combate a fome. 

Enquanto a primeira colherada não chega ao “faminto” da esquina, o pastorador de carro, o flanelinha e o pedinte de carteirinha, a fome já gera discórdia. Um bem saciado prelado da nossa Igreja, ulcerado pela fome do povo, magro de muitos jejuns, mostra-se verdadeiro jejuno na avidez do poder. Já está descrente no “Fome Zero” do Lula. “Negociata é o grande negócio do qual não fomos convidados”, sábia lição de outro tempo. Nestes novos tempos da fome se traduz:  “bom programa é aquele que é discutido comigo”

A aspereza do prelado que devia amar sem condições, exemplificar-se em santidade e tolerância, abespinha-me o ouvido como estivesse a dizer: “Eu sou o povo, a sociedade, a comunidade, e sem mim tudo é imposição, é goela abaixo, e de goela abaixo, até estrogonofe de filet mignon eu vomito”.

O povo, faminto ou não, sem nada para vomitar continua a bater palma, porque é da sua essência, como também é da essência da esquerda ser pródiga em criar mitos para sua própria frustração.

Não fora Fernando Henrique o grande guru da esquerda, sobretudo da esquerda burra preconceituosa e patrulhadora, frustrada e frustrante, para quem o lema maior é “não li e não gostei” ou “adoro o que não preciso ler”, não fora FHC, repito, o "grande sábio, a unanimidade da intelligentsia nacional",e não teríamos nem seu governo, muito menos seus mandatos de senador eleito por um povo com o qual nunca se identificou nem pensou.

Isto porém é uma história que passou, e não podemos viver lamentando os fatos, sobretudo porque lamentáveis mesmo, são os fatos da Venezuela.

Na Venezuela a história de Hugo Chaves não é muito diferente. Oriundo do povo como Lula, Chaves fez uma revolução popular e reduziu privilégios. É histriônico, parece um palhaço algumas vezes. Será um herói, será um bufão?

Herói, bufão ou vilão, Chaves por vias transversas está conclamando a unidade do povo latino americano explorado e sem futuro, relançando o sonho de Simon Bolívar de uma grande nação.

A constituição de um bloco latino envolvendo Espanha, Portugal, incluindo França, Alemanha e Itália. Um bloco de países amigos que possa se contrapor ao poder ameaçador e perigoso dos Estados Unidos, cada vez mais belicoso e irresponsável pelos seus atos, é talvez o fato mais importante neste momento de apreensões, e é de Chaves a idéia.

Chaves, porém, não terá futuro, como não teve Bolívar, e Lula quem sabe talvez.

Uma pena com certeza, pois a Venezuela sem Chaves continuará a ser o que tem sido; uma mera venezuela, ou seja um Veneza pequena.

Gazeta de Sergipe
25 de janeiro de 2003.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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