República do Galinhão?

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Chamou-se “República do Galeão”, o inquérito conduzido por oficiais da Aeronáutica, nos idos de Agosto de 1954, para apurar o assassinato do Major Rubem Vaz, tombado no dia cinco daquele mês, na Rua Toneleros, em Copacabana, no Rio de Janeiro, cidade bem mais maravilhosa então, por ser antiga sede da corte, e viver nos estertores de antiga Capital Federal.

Nesse tempo, não existia Brasília, embora já se falasse numa mudança da capital da República, localizando-a mais ao centro desse país continente, por segurança inclusive, já que o Rio era vulnerável a bombardeio marítimo, como acontecera algumas vezes por ameaças em Revolta da nossa Armada, com Floriano prometendo recebe-la “a bala”, isso em arroubos de outra centúria, numa disúria que perdurou e durou, permanecendo até depois, por insurreição de marinheiros, contra espanques de chicotes e manguais, quando a indisciplina plantou o heroísmo de um “Almirante Negro”, essa coisa que bem cabe numa cantiga, e bem menos numa briga, restando melhor, no rebolo de uma rinha de galos rebaixados, ou de times em repescagem, ou no simples e puro rebolado, por melhor valia, num bom samba em devaneio, e enredo arrodeado, porque se aqui não houve uma vitória de Encouraçado Russo Potemquim, digna de um Eisenstein filmar em 1926, bem dava tempo de se queimar filme igual ou parecido, sobre a “Revolta da Chibata”, desfeito da República Velha, em prenúncio de seu fim.

Caricatura do Marechal Hermes da Fonseca e fotografia de sua jovem esposa Nair de Teffé

Digo assim porque a “Revolta da Chibata” acontecida em 1910 no governo do Marechal-Presidente, Hermes da Fonseca, daria tempo para que um cineasta pátrio tudo descrevesse no cinematógrafo, inclusive com vasta encenação cômica, porque a revolta acontecera em meio a festa de posse do Presidente, feio, careca e baixinho, que vencera outro baixinho, também feio e careca, e bigodudo igual, o baiano Rui Barbosa, o “Águia de Haia”, por gênio da raça para alguns doutos, e “agúia de Iaiá”, para outros menos doutos, grafado ou gracejado, com, boa ou má, vontade de rir do agá e de acento, e dos bigodes do Marechal.

Porque risada mesmo, a crônica melhor desfazia em folhetim, do Hermes, Marechal, e do seu espadim, já em prévias de senectude, enamorado de uma jovem mulher, bem formosa e em belas curvas portentosas e fornidas, vivamente percebidas e comentadas, mesmo debaixo de muitos panos e sobre panos, em anáguas de calçolas e camisolas, recheios por sobre cames de anquinhas, de calcinhas e culotes, califons e outros chiffons, muitos laços de cadarços, em bicos, rendas e babados, tudo aquilo que era fina moda em Paris, para disfarçar ou realçar as curvaturas femininas, e no caso bem se percebia o desejo e a motivação: realçar e suscitar o ferormônio e a testosterona, em marés vazantes no velho marechal, que em ocaso de valentia, ousava casar-se com “mulher nova bonita e carinhosa”, expondo-se por igual à canção que Zé Ramalho, bem além o cantaria: “faz o homem gemer sem sentir dor”.

Como a dor da chibatada só sente quem a recebe, os marujos em rebeldia miraram o canhão no Catete e seu Palácio, acertando pobres mocambos na refrega prometida e ameaçada, por apuro de pontaria da marujada rebelada, até com a festa brega da posse não convidada.

E os convites foram muitos, afinal o Marechal queria mesmo era não fazer com a moça nova o que deveria e ela assim o desejava, afinal era bastante cantada, em mil desejos e euforias, o que por certo não conseguiria, em provas e comprovas, percebidas e não comentadas, diante de um consórcio feliz, principesco, enquanto republicano, e em dúvidas consumado, o que ninguém duvidaria, mas que sobreviria uma fertilidade, sem filhos!, o que bem aquilata um superior regalo de gala rala, a que ninguém invejaria.

Infeliz ou risonhamente em tal rala gala relembrada, sobraram devaneios e    imprecisos e desnecessários, porque o Rio em sua história veria tantas revoltas a conferir-lhe vulnerabilidade, que bem logo iria perder a sua aura maravilhosa de Capital de nosso país, derrubando Presidentes e erigindo um Ditador; Getúlio Vargas, vindo dos pampas, longínquos, estacionando suas bestas no obelisco, um pecado, mais que exaltado de novos tempos conquistados de Avenida Central.

De repente, em muitas revoltas à sinistra e à destra, uma ambidestra tirania vingou por quinze anos, com um Getúlio, o “Gegê”, bom de rasteira, folgazão e sorridente, sempre com um Havana ao dente, vitorioso até, contra as potências do Eixo, os pracinhas virando e retornando heróis nos montes de Pistóia.

Vitória que seria uma pinoia, em tramoia de boca em boca, porque logo surgiria vasta campanha popular, pedindo ampla anistia e suscitando um queremismo popular, e perigoso, de uma constituinte, só mais uma; com Getúlio.

O povo daquele tempo bem repetia de Getúlio que  “as Constituições são iguais às mulheres, só se fertilizam quando violadas”.

E antes que o violador vingasse o fato, “Gegê” foi banido do Catete e seu palácio, vingando uma nova democracia, aquela que nasceria sob a espada de um General, o Dutra Eurico Gaspar, tido como tolo e ameno, e desprovido de maiores eloquências e almejos, por cinco anos em mandato.

Cinco anos, todavia, passam rápido: muito rápido!

E quando o povo foi chamado para novo pleito, eis que Getúlio, “pai dos pobres”, para os descamisados e “tirano ditador”, para os bem abonados, voltou pelas forças das urnas, atraindo para si amplo descontentamento verboso, daqueles que falam bastante e conquistam do povo pouco voto.

Fotografia do esquife do Major Vaz conduzido pelo Brigadeiro Eduardo Gomes e uma manifestação de militares com faixa alusiva ao crime da rua Toneleros em Copacabana, Rio de Janeiro 1954 (Arquivo Nacional / Agência Nacional)

Assim, eis que aconteceu “o crime da Rua Toneleros”, em Copacabana, onde foi abatido a tiros o Major Rubem Vaz, aparando uma bala que fora mal apontada no tribuno Carlos Lacerda, maior tenor entre aqueles que elegiam funestas falas contra o Presidente Constitucional, mas “que regia imperante no Catete, em meio a um imenso  ‘mar-de-lama’”

E haja lama a ser revolvida, depurada e perquirida, nos discursos inflamados em tintas de sangue.

Discursos que provocaram a tentativa de homicídio do corvo tribuno, assim chamado, sem que houvesse mando e comando do Presidente Getúlio Vargas, embora fosse disso o acusado.

Jonais da época (1954) quase iguais aos de hoje em manchetes justiceiras.

Como a bala endereçada ao “corvo” só lhe arranhara um dedo, assestando o major aviador, que lhe servia de amparo, a aeronáutica resolveu, em superior náutica e melhor “solucionáutica”, apurar o assassinato do colega, assumindo instrução e apuração policial, por entender-se mais isenta e imparcial, afastando qualquer vã delegacia, e/ou, promotoria, porque tudo ficara emocional, em excesso de parcialidade e desconfianças, sem falar de ampla fofoca, patuscada comum, por carioca.

De bom confio açulava Lacerda ao microfone das rádios difusoras, restando aos aviadores apenas, apuração e acusação, liderados por um Brigadeiro, o “bonito e solteiro”, Eduardo Gomes, como fora bem cantado na última refrega eleitoral, quando este brigante, perdera a dita votação perante um “Gegê”, que acuado resistia, bravamente, embora calado, cercado por amplo assédio de más palavras, em difamo e injúria, junto, mas  quase abandonado, por um Ministério medroso, ansioso para fugir da batalha e render-se perante a abandalha, que se auto erigira, enquanto Republica.

Assim, eis a chamada “República do Galeão”, aquela que não se vitoriou, mas fugiu de medo em diarreias, quando tudo acabou, seus heróis se escafedendo, tomando punga num navio requisitado na Armada, pra fugir sem epopeia e sem prosopopeia com medo do povão e sua patuleia.

Porque nessa menorreia abundante, Getúlio com uma bala no peito, saíra da vida para entrar na História, fulminando tantos quantos restaram menores e piores, no final do seu enredo.

Agora, em novos enredos e renovadas escaramuças, estamos a viver uma nova República do Galeão, ou uma sua reedição farsesca.

Falsada que bem cabe aqui, só para repetir a tolice ditada por Karl Marx, em seu “Dezoito Brumário de Luís Bonaparte 1852”, mais lido e referido que o “Das Kapital”, sua obra fundamental, de difícil leitura e compreensão.

Porque dissera Marx em vasta reprodução, que a História se repetia em engulhos frequentes, por Tragédia e Farsa.

E se a República do Galeão se dejetou numa tragédia, a República da CPI da Cloroquina, se impõe como farsa, enquanto República do Galião ou simples Galinhão, não por lhe desmerecer insinuando-lhe desatenção, mas em tantos voos rasos de perus, ali alçados e tentados, faltando-lhe um “corvo” em rapina precisa, sobram sobrevoos rasteiros de Chester, aquele frangão, muita coxa, sobrecoxa e titela, só bem-vindo no Natal, por absoluta ausência de excepcional cabeça, para lhe ilustrar o pensar.

Porque nessa ausência audaz cerebrina, ali há de tudo, menos seriedade e brilho; do Presidente ao Relator, deste ao Vice, compondo um G7, que ninguém sabe o que é; se o G é grupo ou gang, ou simples galhofa de gafanhotos que bem roem o legume, cantando rouco em desafino, já que cantores ali há muitos, em vozes de soprano, de barítono, e em falsete, devaneios de pouco enleio, num concerto sem conserto, um sinfonia ou cantatas tão ruins, que de ouvir, resta pior: o comentar.

De contamino há melenas de broxuras assinaladas, porque haja floreios e devaneios com o sexo frágil de outrora.

Quando a mulher, qualquer mulher, muito mais vale pelo que ela é, e assim se faz respeitar, só por conduta exemplar, firmeza constante e postura, e nunca por sua genitália, enquanto “bancada feminina”!

E aí eu retorno ao Hermes Marechal, se derramando em demasia para uma moça nova, galante e carinhosa, sendo repetido por outros seus iguais a ele na CPI, em brochantes mesuras, coisa de impotência mal declarada, mas implícita, em lhes valendo pior apodo.

Afinal, como dissera o Coronel De Gaulle, de seu superior Philippe Pétain, um Marechal de França e herói: “La viellesse est un naufrage”. Igual a tantos na CPI, sem contemplação de seu naufrágio, enquanto barco sem leme nem bolina.

Bolinando feitos e fatos, volto à República do Galeão, porque ao cadáver de Getúlio sobraram seus algozes fugindo em desabalo para um navio aliado, o Cruzador Tamandaré, em cantos de cisne branco, rumando para Santos, no Estado de São Paulo.

Pica-paus outros, e em gafanhotos de muitos arrotos digestos, não foi este o último golpe ensaiado que terminou infeliz, em pior epílogo.

A Republica ainda seria muitas vezes assacada com outros Presidentes retirados do poder, agora não mais no Rio de Janeiro sufocante e sulfuroso, mas na “solidão infinita” que bem descrevia o Planalto Central.

E ali onde sobra muitos poderes, bem falta faz um Galeão em arroubos de derribada contra a República, daí sete galinhões, se apoleirando por cima dos mortos da Covid, essa doença que mata a todos no mundo inteiro, querendo fulminar o Presidente Bolsonaro, logo ele, que, segundo as pesquisas, não se elege novamente.

Mas, o que fazer se entre as águias e as galinhas, não há méritos nem deméritos, diferenciando-as apenas porque uma voa bem alto e a outra cisca baixo, só porque lhe falta melhor aerodinâmica e argúcia.

Se nos falta um “corvo” eloquente na CPI da Cloroquina, sobram-nos bacharéis em excesso de gafanhotos, em alusão a Tobias, o nosso Barreto, que bem escrevia melhor e falava, mesmo em mangas de camisas.

Se ninguém vê nada assim, que me desculpem pelo meu olhar.

Antiga retorta, aparelho onde alquimistas pesquisavam a busca da verdade, quiçá, da felicidade e a longevidade da vida.

Como o uso do cachimbo denúncia a boca torta, na CPI tudo se entorta, em retorta de delegacia, onde se destila o que instila, gota a gota, o encenado e vivido entre quatro paredes de uma masmorra ou chefatura policial, ali onde tudo se confessa e confirma, sem o uso de palmadas e vergastes, por proibido, mas sobra mil ofensas ao acusado ou testemunha, em excessos de covardias e contundências denunciadas e assacadas contra a sua má hombridade, desfiadas e na cara denunciadas, em bofetadas desferidas sem defesa, no canto corner, contra ele, depoente, só porque lhe é conferido o direito constitucional, e legal, de se calar, e enfim, de assim permanecer: em silêncio!

Como no Senado é permitido, por discurso e expectoro, ofender a testemunha, o interrogado e o suspeito de ser suspeito, sem ser condenado por julgado: “Se non è vero, è ben trovado e può essere dimostrato su vt”.

Em novas razões para rever o VT.

Rever porque que eu bem gostaria de elogiar alguém entre os doutos Senadores, sobretudo entre aqueles G7.

Porque o país, em tanta pronúncia de propina, ou assim pronunciada, bem gostaria que o asar dali fosse o de um condor ou falcão, de um gavião rapinante, aceitando até o sortilégio funesto de uma coruja sinistrorsa e o mal digesto de um urubu crocitante, desde que plainassem bem no alto, na altanaria de canoras asas, e mesmo que ali estivessem em funesta rapinaria.

Mas galinhões? Voos de galos? Cantos de galos? Isso ninguém merece!

Nem o das trevas!

Trevas de negruras excedentes, em tanta ausência de ternuras, dizem que em pouco merecimento, o Senado, com sua cuia de queijo, geometricamente invertida por convexa, é a casa de Rui Barbosa, o “Águia de Haia”.

Se assim o é, a CPI da cloroquina dignifica melhor “o ‘agúia’ de Iaiá” da piada.

Uma piada de mal gosto, salvo melhor juízo, porque a cada dia e em cada hora com sua agonia, sinto-me angustiado e decepcionado, com o que dali ouço e constato, em dois meses e três dias de debate, e agora requerendo mais três meses por renovação, uma sobrevida risível diante dos vinte dias que vingou a famosa, por decantada; “República do Galeão”.

Felizmente, lavrando a honra do Senado, há um Senador diligente e inteligente na CPI , único que dá gosto ouvir: chama-se Marcos Rogério, que não é de Sergipe, infelizmente, mas de Roraima!

Só para dizer que há voos de águia na Serra de Pacaraima!

 

 

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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