Réveillon

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O início do ano foi decretado festa por Augusto, o César, o primeiro imperador romano, excluído o tio, considerado honorificamente imperador, mas que em verdade nunca fora tanto, apeado a fio de faca por notáveis republicanos só porque assim o pretendia.

 

Mas se Julio findou em trágica hemorragia, Augusto herdou-lhe a glória e a primazia. Reformou o calendário, dando-lhe doze meses, homenageando o tio com o mês de Julho e a si com o mês de Agosto, ambos com trinta e um dias.

Janus, do Museu do Vaticano. O deus romano olhando para o passado e para o futuro. Símbolo e origem do mês de Janeiro, início de cada novo ano.

Augusto decretou o início de um novo ano com uma festa em homenagem ao deus Janus, o deus com duas faces em perfil, como se fora uma reflexão de espelho.Uma face encarando o futuro e outra contemplando o passado.

 

Uma realidade de réveillon, festa francesa que em brindes de champanha comemora-se o “despertar” de um novo ano.

 

Réveillon deriva do verbo réveiller, que quer dizer despertar, acordar, reanimar, etc. Tudo tendo a ver com o novo ano que se renova e a Janus que olhando para o passado e para o futuro, prende a humanidade ao contexto da vida.

 

E por que ano, por que início do ano, por que começo do ano novo e final de um velho ano? Porque somos filhos da Terra e do Sol e estamos presos aos seus ciclos temporais.

 

E a Terra e o Sol possuem uma relação de movimentos soberanamente recursivos, repetitivos em periodicidade harmônica, ciclos perfeitamente previsíveis, matematicamente falando.

 

Algo que se poderia externar por uma máxima inexorável; “o que foi é o que será”, embora saiba-se que a humanidade na sua pequenez da criação ao presente, jamais tenha presenciado um ciclo completo do sol no contexto galáctico.

 

O Sol gravita também em torno de uma constelação longínqua e seu período é extremamente longo; tão extenso quanto impossível pensar ousar a nossa vã filosofia.

 

Mas a relação de dependência da Terra com o Sol, em movimentos elípticos, com o astro num dos focos já não nos causa dissensão.

 

Mas ensejou mistérios, preconceitos, perseguições e misérias, tudo o que a imperfeição e a intolerância humanas promoveram e ainda o podem fazer, quando se cerceia a liberdade de pensar e escolher.

 

Primeiro a Terra era o centro do universo. Deus era antropomórfico, o mundo antropocêntrico, e o universo era centrado no homem, como criação suprema de Deus. E por tal supremacia entre as espécies Deus dera ao homem (e à mulher(?)) a própria imagem e semelhança. Imagem e semelhança tão fortes que os homens diferentes em cor, o eram inferiores e só destinados à servidão de párias.

 

Remover a Terra do centro do universo fora um desafio digno de santidade por martírio. Quantos alquimistas, acusados de feitiçaria foram churrasqueados na fogueira nas escuras noites medievais?

 

Por acaso tal negritude jaz em orfandade, olvidada no imaginário doloroso de uma era perdida, ou não pode sempre retornar num recorrente “ricorso” de barbarização de costumes?

Hieronymus Bosch – 1500. “As tentações de Santo Antônio”. Um pouco do imaginário de uma era de muitos medos belzebus. Hoje o homem faz mais medo ao próprio homem

 

Quantos holocaustos serão ainda recorridos pelos homens insensatos, atingindo quem não nos agrada, nos enoja, ou nos amedronta, só por pensarem diferente, professarem uma descrença no onipotente, por exemplo? 

 

Uma vez alguém expressou esta tolice: “Não se morre por uma verdade científica; só se morre por uma verdade de fé”. Que grande besteira! A história humana é repleta de intolerâncias contra os que professam a ciência, promovendo pogrons, labaredas de fogueiras, decretos de maldição, banimento, excomunhão, tudo que a crueldade humana impõe a quem nos desagrada ou a quem tememos.

 

E os mártires existem, e os kamikazes suicidas também, uns morrendo por uma tese, outros tentando impor uma antítese. Ambos só fruto da miséria do homem que não consegue conviver com o seu semelhante.

 

E ainda nos dizem que somos semelhantes a Deus.

 

Menos no pecado! Grita o fanático cheio de certeza, afinal ele já vira Deus e brindara conSigo um gole do Seu néctar, conhecendo-Lhe mais a ciência que Dona Eva e sua cobra.

 

E é por essa e outras ainda, que as noites de cristais se repetem, reais; hoje transmitidas ao vivo e em todas as cores, sem precisar de efeitos especiais avatares.

 

Porque o Avatar, só para usar o filme da moda que ainda não assisti; o Avatar é sempre o outro, o que nos ameaça, real ou virtualmente.

 

E nada pior que uma intimidação irreal, por virtual e inusual, tornada real no púlpito ou no palanque.

 

Eis o cenário não esquecido por Janus, que deve olhar para frente, tentando não repetir o passado, seja como tragédia ou farsa.

 

Uma reflexão necessária porque nos feitos e desfeitos, o homem pode sempre se copiar por remissão de seus erros. Uma remissão necessária, mas terrível, porque a sua maldade pode sempre retornar como ganga, em sujeira sempre maior, e de um inusitado crudelíssimo.

 

E tudo pode ser festejado com fogos e luzes, num reveillon desabrido, sem pruridos de consumismos.

 

Assim, porque se teme o desconhecido e ainda vige a pedagogia dogmática a suscitar terroristas suicidas, se não é possível jogar o que nos desagrada às feras famintas no circo, como no coliseu romano, com a massa ignara em aplauso, culpe-se o império da lei que se laicizou sanguinolenta e racionalmente com os racionalistas e enciclopedistas, sofrendo todas as blasfêmias e danações satânicas.

 

Não fosse assim, as bombas atômicas estariam já explodindo nas nossas cabeças.

 

E o deus Janus presencia tudo, passado e futuro, sem se perder jamais.

 

Dizendo com o olhar de infinito a infinito, ou melhor, a perder de vista em intemporal tendência matemática de -∞ a +∞, que o homem é o mesmo em sonhos e medos, alegrias e tormentos, lembranças e angústias; hoje não temendo tanto a sua orfandade libertadora.

 

E por absoluta ausência de dogma, sabe-se hoje que o Sol recomeça um novo ciclo. Não um interminável ciclo, porque o Sol também teve nascimento, uma vida que seguirá para morte; igual a qualquer estrela.

 

Ele nada mais é que uma grande bola de fogo, massa se consumindo em energia, dissipando-se e esvaindo-se em raios radiais divergentes, morrendo-se em demanda à exaustão. Raios estes que nos atingem, em fração exígua, pequeníssima; uma infinitésima razão da vida, esta vida conforme a conhecemos.

 

E ainda nos falam de aquecimento solar, de acréscimos de temperatura, só porque dormimos muito, malhamos demais e os bovinos arrotam e ruminam.

 

E há neste réveillon de 2010 muitos iniciados cientistas professando esta nova fé, alarmista e ameaçadora como tantas que ameaçaram Galileu, o Galilei.

 

Mas o réveillon nos convida apenas a festejar a vida. Esta vida que se nos esvai como seres limitados e provisórios. Que se extingue com o passar dos réveillons em alegrias, risos, dores e sofrimentos.

 

Que Janus nos inspire como símbolo, rumando ao porvir sem perder o fio de Adriadne que nos mantém sem tergiversar na rota, como se fora possível uma impossível volta, porque “não há nada de novo debaixo do Sol”, e o que foi pode sempre repetir.

 

Que o novo ano chegue com o homem mais humilde, mais tolerante, mais solidário. Que ele saiba se realizar em si e nos outros. Que ele seja como o Sol, lançando raios em doação sem recompensas; hoje tão desprezado, até pelos poetas em amanheceres e poentes.

 

E é este Sol renovado, em ciclo permanente por missão, que se alevanta em novo ano, abençoando a Terra e aos seus frutos germinando, ocasos planejados sem acasos, presença inconteste da criação de Deus.

 

Que os homens se façam mais felizes em 2010, porque o Sol continuará a iluminar e aquecer as nossas vidas. Deus assim o destinou, e assim continuará.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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