Revisitando 1968 e a Universidade Federal de Sergipe.

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Revisitando 1968 e a Universidade Federal de Sergipe*.

 

“O vento de março não é o vento de dezembro, o sol de março não é o sol de dezembro, o homem de março não é o homem de dezembro”.

Hermann Broch

 

Com sentido semelhante, ao vento que sopra sempre diferente a cada março e dezembro, muito tempo antes de Hermann Broch (1898-1956) que vivera em tempos sombrios, um grego, Heráclito de Éfeso (540-476 a.C.), também conhecido como o “obscuro”, afirmava estarem as coisas em movimento, como num fluxo perpétuo, um escoamento contínuo dos seres em mudança, sem termo, se processando por meio de contrários.

 

Talvez, não invocando tanto a ruptura por contrários, mas sem conflitar com este raciocínio, possamos analisar os acontecimentos de 68 no mundo, e aqui também na nossa Universidade Federal de Sergipe, utilizando as duas teses principais de um outro sábio, o italiano Gianbatista Vico (1668-1744) em sua obra muito famosa “A Ciência Nova”, na qual se esboça a tese do “corsi e ricorsi” e uma outra, por certo mais importante, em que afirma só o homem conhecer e interpretar a realização humana.

 

Pela teoria do “corsi e do ricorsi”, as sociedades humanas são arrastadas de maneira implacável por fluxos e refluxos, seqüenciais, sucessivos e evolutivos, mas que por uma estranha inexorabilidade da evolução, involui, se degrada, se barbariza, retornando em novo ciclo. Uma espécie de luta permanente entre a lucidez e o caos.

 

Por outro lado, ainda para podermos revisitar 1968, é preciso enaltecer a outra grande tese de Vico, segundo a qual só podemos conhecer aquilo que verdadeiramente nós próprios criamos. E os acontecimentos de 1968 também ocorreram aqui, onde vi e vivi aqueles dias. como estudante e professor.

 

Dos acontecimentos naturais, “il mondo della natura”, Santo Agostinho afirmava que, sendo criados por Deus, só o próprio Deus os podia explicar.

 

Mutais mutanti, afirma Vico: todas as coisas inventadas e vividas só pelos homens, “il mondo dela nazioni”, só aos homens cabe conhecer e explicar.

 

E agora, reunindo tudo, inclusive a lição de Heráclito de Éfeso, de que “Nunca nos banhamos duas vezes no mesmo rio, pois na segunda vez não somos os mesmos, e também o rio mudou”, diremos pegando o mote de Broch, que o homem de maio de 1968, não é o homem de maio de 2008, embora ele seja, em alguns casos, o mesmo homem de 1968.

 

Dito de mim, enquanto geração de 1968, eu e minha circunstância, no pensar de Ortega e Gasset, não somos os mesmos porque mudamos a minha circunstância e eu. Igual à Universidade Federal de Sergipe que em 1968 surgia e permanece no agora, quarenta anos depois.

 

É a mesma Universidade? É, e não é! Porque a universidade de ontem não é a de hoje. Igual a nós, em 1968 e agora. Que o digam os nossos traços e rugas e também este auditório.

 

E aquele que foi já não mais é, porque “o que foi não é nada, e lembrar não é ver”, segundo o poeta maior da língua, Fernando Pessoa, que em prece comovida, se convidava a si mesmo e a todos, a singrarmos nas asas eternas das aves sem rastros, dizendo: “passa, ave, passa, e ensina-me a passar”!

 

E este convite sobremodo se consubstancia com o verdadeiro objetivo de uma instituição de ensino, e do professor em particular, porque o conhecimento é uma busca permanente e sem donos. E a missão do professor é repartir o seu ideal conquistado, com o sábio e com o vulgo sem apegos e sem medos.

 

Mas, se do Pessoa fingidor, que fingia tão perfeitamente a dor que deveras sentia, for fingimento também, o desapegar-se sublimemente em desamor latente, por concedente indiferente, lembremos que é o mesmo poeta que se vê à margem de um rio que não é o de sua vida, e grita sem mentir para nós outros de outros rios:

 

O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,

Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia.

Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia.

 

E nós, professores, alunos e funcionários, de ontem, de hoje e de sempre, só para usar um mote já muito usado por verdadeiro ao que foi e o que não é nada, podemos gritar como o poeta ébrio de amor:

 

A universidade de Espanha, de Portugal de Américas, de Bretanhas do escambau, não é mais bela que a Universidade da minha aldeia, de meu Sergipinho, tão pequenino, tão miúdo e apeado entre o São Francisco e o Real.

E eu tenho que cair nesta real, enquanto estudante e professor, porque foi aqui e não em outro cenáculo de saber, que me fiz e me ampliei em sonhos e em realidades.

 

Tento, portanto, no ensejo desta missão a mim confiada pelos colegas homenageados, homenageá-los também, nesta noite de festa e de louvor à vida, cantar um pouco do amor por esta nossa universidade, que é nossa e de todos, mas que é, sobremodo, muito mais nossa que de todos.

 

E assim eu volto a Vico para dizer o porquê do seu chamado aqui e agora nesta noite. Porque a UFS, repito, é mais nossa que de todos; ela é fruto desta criação sergipana, desta raça inteligente e brava, que não se quer em arroubos de presunção excelências ou na pretensão de todos apodos em flatulência. Raça nordestina que se arrima em rimas tolas quase chulas, mas que se ensimesma e se louva entre tantos dizendo:

 

Difícil é ser eu, entre amor e desamor tão próximos, irmãos siameses quase verdadeiro incesto, ou uma endogamia cantonal permeando ódios e predileções eternas. E a Universidade Federal de Sergipe é também, e sobremodo, fruto desta luta entre irmãos que nunca se matam, mas também nunca se beijam, embora o homem de 1968 não seja o homem de 2008.

 

Mas esta noite de alegria também precisa ser uma noite de reflexão, um exercício de razão, um momento de rever, reviver, recapitular e ao passado retornar. Voltar muito mais longe, retornar a um passado mais distante para dele jamais esquecer o que foi a invenção do saber.

 

A Invenção do saber.

 

Sem largar Heráclito de Éfeso e Gianbatista Vico, sirvo-me dos textos de Geraldo Mello Mourão em sua exuberante coletânea A Invenção do Saber, para retornar às origens da universidade, enquanto instituição humana, que se firmou no tempo e se reafirmou em todos os contratempos e contradições humanas.

 

Entre todas as criações humanas, diz Mourão, a maior é a invenção do saber. Se perquirirmos os tempos aurorais e primevos da história humana, quando o domínio do fogo e a sobrevivência eram quase impossíveis, veremos o homem, desprovido da força bruta do mamute, das unhas e dentes dos felinos, das aves dos passarinhos e das nadadeiras de peixes e alevinos. O homem só podia sonhar com o sonho das águias e temer a fúria dos predadores ferinos.

Nesta guerra de sobrevivência, o homem viu que em sua fragilidade residia a sua maior faculdade. Ele era capaz de pensar e criar. Muito diferente das outras espécies de seres e animais, da terra, do mar e do ar que viviam apenas para procriar e se perpetuar, o homem era desprovido do todo o ferramental necessário à sobrevivência, tudo o que lhe agasalhasse e o alimentasse. E assim, por uma necessidade de sobrevivência, o homem inventou o conhecimento, buscou o saber para conseguir o poder.

 

Nos tempos aurorais do ser, nos relatos iniciais de crenças e religiões, nos livros épicos da antiguidade, nas pinturas rupestres e em todos os mitos, o homem se historia ora como Adão e Eva sob tentação da maçã e da serpente, na tradição judaico-cristã, ou Faeton que era filho do sol e não sabia e que ousou lançar-se em demanda do pai, invocando luz e saber, e, sobretudo, o mito de Prometeu, fundamental e decisivo para o homem e a Universidade.

 

Se em Adão e Eva violar o que se lhes impunha – “não comereis do fruto da árvore da ciência do bem e do mal” – era um motivo de insinuar a curiosidade e a pesquisa, está em Prometeu o maior símbolo da humanidade que não se aceita enclausurada em limites de ordem política e religiosa, seja na imposição autoritária de minorias, seja no equivoco da democracia que avilta o mérito e o saber. Porque a democracia, “o pior modo de governo, excluído todos”, atribuído a Winston Churchill, é dessas unanimidades rodrigueanas, por ordinárias e não bonitas, quando repetidas à exaustão, em tudo quanto é lugar, na praça, no circo, nas gerais e arquibancadas, e lamentavelmente na escola, pelos apologistas do vulgo e da ignorância. (Perdoem-me, porém, se estou a dizer bobagens, afinal eu sou eu e as minhas mofadas idiossincrasias).

 

Deixemos, porém, as minhas idiotias com tudo que o mofo deu, e até o velho buldogue com seu charuto mastigado raivosamente a se revolver na tumba indignado, tendo que concordar com o Rodrigues Nelson, e lamentando que enquanto herói de mesmo calado, Lorde Nelson lhe vem ganhando, aqui “in terra brasilis”, só porque ficou calado.

 

E eu devo calar também, mesmo porque citar “o óbvio ululante”, um homem inesquecível, por crítico em 1968, é ainda perigoso. É fustigar harpias iguais, tortura de Prometeu.

 

Mas como eu dizia, Prometeu é o mito humano por excelência. É ele quem rouba o fogo dos deuses para dar aos homens a luz e o saber.

E paga por seu gesto, uma danação eterna. É preso a um rochedo inacessível, aonde uma águia vinha todos os dias, devorar-lhe o fígado. Como Prometeu era imortal, a víscera se refazia à noite e o padecimento se eternizava.

 

O homem prometéico.

 

Em todo homem há por excelência e por vital insistência este homem prometéico, que desafia tudo o que lhe restringe a demanda do saber. E o saber, para Parmênides, o primeiro filósofo que dele se ocupa, “é um discernir”.

 

E aqui eu me volto para Galileu Galilei impedido de livremente discernir e demonstrar, que “em junho de 1633, com setenta anos, foi obrigado a ajoelhar-se ante o Tribunal Inquisitorial, em Roma, e a abjurar a teoria copernicana, concepção que tornou possível A Física modera”, só para citar de novo Ortega e Gasset e o seu ensimesmar em esquema de crises, e para repetir a frase genialmente colocada por Bertolt Brecht, na boca do matemático Galilei, forçado a ser pragmático pra sobreviver:

 

“A soma dos ângulos de um triângulo independe da vontade da cúria”.

 

Ou então a mais famosa, por verdadeira, aos que queriam sua abjuração do movimento da terra: “Eppur se muove!”  

 

A invenção do saber pressupõe a superação do próprio ser como missão. “Se pude ver mais longe, – disse Isaac Newton repetido por Albert Einstein – foi porque estava nos ombros de gigantes”.

 

Mas de gigantes e anões é feita a humanidade, como assim é vista a própria Universidade pelo crítico americano Harold Bloom, oposicionista ferrenho ao niilismo advindo da contracultura nascida na Europa e nos Estados Unidos, no pós segunda guerra e em particular dos acontecimentos de 1968. E por que não, do nosso assembleísmo?

 

Mas, não nos desaviemos em achegas de pigmeus. Conservemo-nos perquirindo as origens do saber e da universidade.

 

 

 

 

 

Origem da Universidade.

 

Atribue-se a fundação da primeira Universidade com Sócrates ao adquirir um terreno pertencente a um seu conterrâneo chamado Akademos para aí fundar a sua escola. De Akademos resultou a denominação “Academia”.

 

Naquele tempo, o saber era pesquisado e guardado mnemonicamente, isto é decorava-se pra ser repetido em tradição oral por gerações. Coube a Platão anotar estas aulas legando à posteridade o seu saber.

 

De Sócrates dizia-se que até com a educação, os indivíduos podiam corrigir a feiúra do próprio rosto.

 

Hoje preferimos repuxos de rugas, implantes de silicones, botox, e, por extensão de loucuras, próteses para todas as brochuras.

 

Com brochuras a parte, um dos seus críticos, o dramaturgo Aristófanes o ironizava galhofadamente, sempre cercado por seus alunos, traçados como asteróides tolos e excêntricos, e por sua mulher Xantipa, que lhe era bem mais nova, mas era também, tida e havida, como uma mulher muito feia.

 

Desta feiúra de Xantipa conclui-se que desde aquele tempo o pai da filosofia já estava contraditando o nosso Vinícius de Morais, dizendo que a beleza não é fundamental, e que não há mulher feia, ou melhor, não há mulher que não mereça do amante uma cheirada no cangote.

 

Mas, Sócrates foi acusado justamente de subjugar a juventude pelo cangote, para desvirtuá-la, convidando-a a pensar, a exercitar a maiêutica, este partejamento de idéias que contrariava pais e autoridades.

 

E Sócrates foi acusado como subversivo, foi condenado a ingerir cicuta, o veneno de então, fato rotineiramente repetido nos descaminhos da humanidade que têm medo do que lhe é desconhecido.

 

Da academia socrática e do liceu de Aristóteles o cultuar do saber acompanhou a viagem do homem da distante antiguidade, passando pela idade das trevas, a idade média, resistiu e cresceu sob a influência otomana, adquiriu uma forma mais humana, afastou-se do divino na renascença para permear tempos de descrença, com os iluministas e a revolução francesa, uma revolução de caráter religioso no interpretar de Alex de Toacqueville, porque aceita por todos indistintamente de raças, credos e nações, laicizando agora o saber. Mas que em 1968, no mundo todo e sobretudo em Paris, entrou em crise, com os estudantes raivosos, fustigando em demagogia, a proficiência e a docência.

 

Mas a Universidade jamais perdeu aquela estrutura inicial baseada no “trivium” (Gramática, Retórica e Dialética) e no “quatrivium” (Matemática, Música, Geometria e Astronomia) que ainda permanece.

 

Necessário dizer que por gramática entendia-se a ortografia, a etmologia e a prosódia; por retórica, o estudo da literatura, do progresso da linguagem, de modo a compreender as matérias jurídicas, morais e históricas visando o entendimento de tratados e textos antigos; e por dialética a inserção no argüir da filosofia e da lógica.

 

E do “quatrivium” que ao trivium” seqüenciava, resultavam as primeiras profissões, hoje ditas liberais; o médico, o engenheiro e o advogado.

 

Necessário também dizer para relembrar, que a Universidade começou a se realizar enquanto instituição, quando aprovadas por autoridades civis ou religiosas, por volta do século XIV, recebendo o nome “Studium”, ou “Studium Generale” ou ainda “Universitas Studi”, onde o “Studium” era uma combinação espontânea de mestres e discípulos como as corporações da idade média.

 

E que o nome Faculdade resulta de “Facultas ubique docendi”, autorização emitida pelo Chanceler de uma Catedral que permitia a sua existência. Faculdade que concedia como grau, o “jus ubique docendi”, o diploma de professor, o direito de ensinar em toda parte. E que depois por uma evolução natural resultou no “Universitas magistrorum et scholarum”, só para dizer que por missão e origem a Universidade é uma instituição de professores e alunos, e mais, uma instituição de professores destinada a alunos.

 

De forma que não vejo como bonita a democracia paritária que vem sendo implantada na Universidade pública brasileira, com professores se emasculando da docência e ingressando na indecência do assembleísmo e da quase anarquia. E aqui eu peço perdão, por ser inconveniente no meu pensar diferente. Para repetir incomodadamente:

 

Do mau ou bom ensino ministrado, os jovens e a sociedade sempre verão nos docentes os únicos e reais culpados.

 

Que não se culpe também a Igreja como obstáculo ao desenvolvimento do saber. Apressados críticos, com os olhos atuais, sempre eximem dos seus prejulgamentos e patrulhamentos ideológicos, imorríveis e horríveis, para afirmar que a intolerância religiosa do julgamento de Galileu, fora igual em todo lugar, tolhendo a criação humana.

 

Esquecem estes apressados que, por séculos, o conhecimento fora transmitido em livros copiados pacientemente nos mosteiros, por piedosos e zelosos copistas, entremeados de muita oração, abstinências e jejuns, tudo isso antes, e depois de Gutenberg e da imprensa.

 

E aqui eu invoco o homenageado Paulo Almeida Machado, um cultor dos clássicos, um tomista e latinista de escol, homem de fé madura e varonil, que melhor dissertaria sobre o viver em piedade monacal.

 

Os mosteiros eram cenáculos de pesquisa e estudo, exercício de santificação e de sublimação, permitindo que o saber fosse cumulativo nas várias bibliotecas, que rotineiramente são atacadas pela traça, pelo cupim, pelo homem ruim, pelo da esbórnia preguiçoso, aquele que não gosta de ler, e que não sabe escrever, e que por pior, faz-se inimigo da invenção do saber.

 

Os inimigos da invenção do saber.

 

Os inimigos do saber são terríveis, porque quem tem o saber tem o poder. E mais das vezes os que detêm o poder detestam quem tem o saber, igual ao mito da caverna de Paltão, que todos sabem e não vale a pena repetir, mas que é de contínuo uma temeridade, aqui e sempre, sair das cavernas em que o conhecimento se limita.

Neste sentido, lembremos o julgamento de Lavoisier, o sábio fundador da química moderna durante o período de terror da Revolução Francesa.

 

Augustin Lavoisier era um “fermier”, um agente da firma “Fermier Général” encarregada da cobrança dos impostos, uma espécie coletoria fazendária. Como todo cobrador de imposto, os fermier eram bastante odiados, e conduzidos ao tribunal revolucionário, sumariamente foram condenados a ser “barbeados pela navalha revolucionária”, como assim se chamava a guilhotina. Após a condenação, alguém em sua defesa pediu que lhe comutassem a pena, por ser um sábio, responderam-lhe de chofre em insolência: – “A república não precisa de sábios”.

 

Lavoisier foi guilhotinado. Ninguém se lembrou que em sua versatilidade criativa Lavoisier tinha inclusive dinamizado as turfeiras e melhorado a pólvora francesa. A pólvora francesa era péssima então; fora motivo da derrota da França frente a Inglaterra na guerra dos sete anos, perdendo grande parte de seu magnífico império americano. Após os trabalhos de Lavoisier, Napoleão teve excelente pólvora para conquistar a Europa.

 

É verdade! Muita gente acha que não precisamos de sábios. Tanto nos períodos de intolerância e arrogância, quanto nos períodos de tranqüilidade e liberdade.

 

No período do nosso arbítrio militar, houve gente que sofreu e gramou. Neste particular, lembremos a carta enviada pelo mestre Florestan Fernandes, em nove de setembro de 1964 ao Tenente Coronel que veio prendê-lo:

 

“Há quase vinte anos venho dando o melhor do meu esforço para ajudar a construir em São Paulo um núcleo de estudos universitários dignos desse nome. Por grande que sejam minhas falhas e por pequena que tenha sido a minha contribuição individual, esse objetivo constitui o principal alvo de minha vida, dando sentido às minhas atividades como professor, como pesquisador e como cientista. Por isso, foi com indisfarçável desencanto e com indignação que vi as escolas e os institutos da Universidade de São Paulo serem incluídos na rede de investigação sumária, de caráter policial, que visa a apurar os antros de corrupção e os centros de agitação subversiva no seio dos serviços públicos mantidos pelo Governo Federal.

Não somos um bando de malfeitores. Nem a ética universitária nos permitiria converter o ensino em fonte de pregação político-partidária. Os que exploram meios ilícitos de enriquecimento e de aumento do poder afastam-se cuidadosa e sabidamente da área do ensino (especialmente o ensino superior). Em nosso país, o ensino só fornece ônus e pesados cargos, oferecendo escassos atrativos, mesmo para os honestos, quanto mais como os que manipulam a corrupção como estilo de vida. De outro lado, quem pretendesse devotar-se à agitação político-partidária seria desavisado se cingisse às limitações insanáveis que as relações pedagógicas impõem ao intercâmbio de gerações.”.

 

Deixemos de lado agora os inimigos da Universidade. Falemos da nossa Universidade Federal de Sergipe.

 

 

 

Algumas etapas no processo de fundação da UFS

 

Na década de 20 o Presidente Gracho Cardoso chega a criar os cursos superiores de Direito, Odontologia e Farmácia, mas tudo morreu no papel.

 

Em 12 de novembro de 1948 em Lei nº. 73 sancionada pelo Governador José Rollemberg Leite é criada a Faculdade de Ciências Econômicas, colocando à sua disposição o Grupo Escolar Barão do Maroim na Rua da Gente. Em 25 do mesmo mês é sancionada a Lei nº. 86, criando a Escola de Química de Sergipe. Escolas que logo cedo tiveram papel de destaque na vida sergipana.

 

Foram fundadores da Escola de Ciências Econômicas os professores Fernando Figueiredo Porto, José Hermenegildo da Cruz, Manoel Cabral Machado, Adolfo Barreto de Ávila, Luiz Pereira de Melo, Manoel Ribeiro e João de Araújo Monteiro.

 

Foram fundadores da Escola de Química: Albano Soares, Antônio Tavares de Bragança, Dalva Nou Shneider, José Lima de Azevedo, José Rollemberg Leite, Leônidas Tancu, Helena Melo, Manoel Mendes de Holanda Filho, Mauro Taveira Magalhães, Rodolfo Muniz Barreto, Petru Stefam e José Barreto Fontes.

 

Em 1º de março de 1950 é criada a Faculdade de Direito de Sergipe por um grupo de advogados liderados pelo jurista Antonio Manoel de Carvalho Neto, sendo sua biblioteca iniciada com a doação de livros pelo próprio Carvalho Neto e por Aníbal Freire. São fundadores também Gonçalo Rollemberg Leite, Manoel Cabral Machado, Leite Neto, José de Araújo Monteiro, Renato Cantidiano, Aramando Rollemberg Leite, Otávio Souza Leite, Enock Santiago, Hunaldo Cardoso, Olavo Leite, Álvaro da Silva, Luiz Pereira de Melo, entre outros.

 

Em 20 de setembro de 1950, por ação do Bispo Dom José Vicente Távora e do Padre Luciano José Cabral Duarte é criada a Faculdade Católica de Filosofia de Sergipe. São fundadores entre outros Fernando Porto, Jorge Neto, Manoel Cabral Machado, Luiz Rabelo Leite, Felte Bezerra, Gentil Tavares da Mota, Lucilo Costa Pinto, Thetis Nunes, Frei Edgard Steinichovsky e Gonçalo Rollemberg Leite.

 

Em 1954, também ligada a Igreja Católica e com o apoio do Governo Arnaldo Garcez, é criada a Faculdade de Serviço Social sob inspiração da Irmãs de Jesus Crucificado, em particular das Irmãs Albertina Brasil Santos e Lourdes, e dos professores Luciano Duarte, Manoel Cabral Machado, José Hermenegildo da Cruz, João Cardoso do Nascimento Junior, Luiz Rabelo Leite entre outros.

 

Em 1955, só para compreender a independência funcional das Faculdades estaduais é interessante repetir Ariosvaldo Figueiredo, recentemente falecido. Ariosvaldo é um historiador que não se utiliza de luvas para analisar os fatos. Não se faz indiferente, nem imparcial, chegando muitas vezes a emitir juízos de valor eminentemente pessoais, discutíveis, ensejando insatisfações, nem sempre contestadas. Ouçamo-lo:

 

“O prazer maior do Governador é exonerar, sem ninguém pedir, exonerou os professores da Faculdade de Ciências Econômicas, Maria Thetis Nunes, Geraldo Brito, Renato Cantidiano Vieira Ribeiro, Luiz Carlos Rollemberg Dantas, Luiz Pereira de Melo, José Hermenegildo da Cruz, José Aloísio de Campos, Luiz Felipe de Araújo, Fernando Barreto Nunes, Orlando Bezerra, Átila Correia Ramos, José Lima de Azevedo, Adolfo Barreto d’Ávila, João de Araújo Monteiro e Manoel Cabral Machado… (o governador) acha pouco e nomeia outros amigos professores da Faculdade de Ciências Econômicas, Hunaldo Santaflor Cardoso, José Fernando de Barros Mendonça, Avante Amaral de Oliveira, Lauro Pacheco de Oliveira, José Noronha Moura, Temístocles Diniz Gonçalves, Diógenes Santos Horta e, em 9/3/1995, Magna Maria Muti Pereira. O critério da nomeação é ser amigo do Governador. A faculdade de Ciências Econômicas, ora dirigida por Adolfo Barreto d’Ávila é transformada em importante reduto eleitoral. A Faculdade vira ‘colégio eleitoral’”.

 

Faltava a Faculdade de Medicina de Sergipe, idéia antiga que intensamente se manifestou nos anos 50 fruto do espírito científico que dominava o corpo médico do Hospital de Cirurgia, sob a liderança do Dr. Augusto César Leite, a maior expressão médica da época.  Em 21 de janeiro de 1960 graças ao apoio decisivo do governador Luiz Garcia e do Prof. Antônio Garcia Filho, então Secretário da Educação, Cultura e Saúde, foi eleita a primeira diretoria da Faculdade de Medicina de Sergipe, sendo o Prof. Antônio Garcia Filho seu primeiro Diretor. Foram professores: Lauro Porto, Benjamin Carvalho, Garcia Moreno, Nestor Piva, João Cardoso Nascimento Junior, Osvaldo Leite entre outros.

 

Estava pronto o núcleo inicial necessário para a fundação da Universidade.

 

Sendo o estado pobre e sem recursos para criá-la como instituição estadual, busca-se o apoio federal. É constituída uma comissão de professores para tal, pelo Secretário de Educação Luiz Rabelo Leite no Governo Seixas. Tal comissão é presidida pelo Monsenhor Luciano Duarte, trabalho que continuou após o movimento militar de 1964, com o Governo Celso Carvalho e o Secretário de Educação Manoel Cabral Machado.

 

O Governo do Estado e a Secretaria de Educação entravam com todo apoio logístico e financeiro permitindo viagens de Monsenhor Luciano e de técnicos do Ministério de Educação e Cultura que vinham conhecer a nossa realidade.

 

Finalmente conseguiu-se sensibilizar o Secretário de Ensino Superior Moniz da Aragão. E o processo de criação recebeu luz verde.

 

Enquanto isso aqui na terra os grupos se digladiavam em socos fratricidas. No dizer de Cabral Machado era uma luta entre homens realistas e homens idealistas. Os realistas faziam de tudo para viabilizar o processo, procurando se adaptar ao pensamento federal vigente, enquanto os outros pregavam a sua insubmissão, aí incluídos os ressentidos e os opositores ao regime militar ainda em nascituro.

 

O pensamente vigente era a criação da Universidade em regime de Fundação Pública. Os recalcitrantes a queriam sob forma de Autarquia. Vivia-se justamente este debate em nível nacional; o MEC queria transformar todas as Universidades que eram autárquicas em fundações. Dizia-se que a Fundação era um modelo americano atentatório ao ensino público gratuito, e seria isso também um pomo de discórdia que resultou mais adiante no pior, a fechadura, com o recrudescimento do autoritarismo e a tortura com o Ato Institucional nº 5, temas que só desejo esquecer.

 

Lembremos apenas que a comissão presidida pelo Monsenhor Luciano Duarte resolveu assumir o ônus da escolha, e inspirando-se no modelo da Fundação Universidade Federal do Maranhão, foi concebido o anteprojeto junto ao Conselho Federal de Educação.

 

E o processo empacou. Ninguém o queria relatar. Talvez porque achassem Sergipe pequenino para ter uma Universidade, talvez porque houvesse uma resistência ao aumento Universidades e de vagas no ensino superior.

 

As desculpas e as excusas eram muitas. O conselheiro sergipano José Barreto Filho, primeiro consultado para relatar, recusou por pruridos de sergipanidade. Por outros motivos, o conselheiro Dermeval Trigueiros também recusou. Finalmente, por prestígio de Monsenhor Luciano Duarte, o conselheiro Newton Sucupira aceitou visitar Sergipe para relatar o processo. Na visita a Sergipe, Sucupira empolga-se com o que vê em termos de estrutura física, bagagem intelectual dos docentes e o instrumental dos nossos laboratórios, sobretudo os da Escola de Química, então um referencial nacional. O processo é então relatado e aprovado.

 

Para os críticos de então, a UFS era uma filha espúria da ditadura criada sem a legitimidade congressual, por nascida de Decreto-Lei.

 

Ouçamos de novo Ariosvaldo Figueiredo, um desses críticos.

 

“A ditadura quer Universidade em todos os Estados, não está preocupada com o ensino primário, o secundário e o profissional. É assim que, sob inspiração de três golpistas, Presidente Humberto de Alencar Castelo Branco, Governador Lourival Baptista e Luciano José Cabral Duarte, o Diário Oficial da União de 28/2/1967 publica o Decreto Lei 269 de 19/2/1967, que autoriza o poder executivo a instituir a Fundação Universidade Federal de Sergipe.

 

Estava criada a Universidade, agora era preciso sair do decreto para a realidade. Novas críticas e insinuações. Dizia-se que D. Luciano iria ser o Reitor, já que fora escolhido primeiro Presidente do Conselho Diretor da Fundação.

 

O restante todo mundo sabe. D. Luciano não foi Reitor porque nunca o desejara. Sua missão já estava realizada. Igual a Públio Cornélio Cipíão, general romano, cognominado o africano, vencedor de Aníbal de Cartago, salvando Roma na batalha de Zama que se retirara do cenário e das intrigas políticas, D. Luciano também se afastou dos debates universitários. Igual a Cipião também, porque mesmo se afastando e se distanciando os seus inimigos nunca se calaram, por invejosos e venenosos.

 

Hoje, por lamentável circunstância do viver, D. Luciano vive um mundo só seu, impenetrável, mais esquecendo que lembrando. Realizou o seu trabalho, guardou a fé e combateu o bom combate. Estenderá, por certo um dia, as suas mãos vazias e calosas ao Deus que alegra a nossa juventude, se apresentando simplesmente e comedidamente como o operário necessário à continuidade do processo divino de criação em terras sergipanas.

 

Quanto à Universidade recém fundada, foi escolhido como primeiro Reitor o médico João Cardoso do Nascimento Junior, homem simples, tranqüilo e de fino trato.

 

É com sua posse em 15 de maio de 1968 no Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe, e dos Vice-Reitores Waldemar Fortuna de Castro e Padre José de Araújo Mendonça que se dá o início da UFS.

 

No período dos três primeiros Reitores, João Cardoso Nascimento Junior, Luiz Bispo e, sobretudo, José Aloísio de Campos, aqui e lá fora a Universidade pública brasileira recebeu muitos investimentos, com a criação de novos cursos, construções de campi e acréscimos de vaga. Neste período vigia o pensamento do Ministro Jarbas Passarinho que ampliou sobremodo o Ensino Superior Público país afora. Passarinho foi muito criticado. Diziam que estava irresponsavelmente massificando o ensino superior em detrimento de sua qualidade.

 

Na verdade, o homem de 68 não é o de 2008, mas a humanidade é feita dos que constroem, dos que conservam e dos que a destroem, aí incluídos os que muito falam, e porque muito falam não se escutam.

 

Igual a Jean Paul Sartre, um homem de 1968, arengando a revolta num palanque, a milhares de raivosos estudantes nos distúrbios de Paris. Quase no mesmo dia da fundação da nossa UFS:

 

“J’ai quelque chose à dire, mais je ne sais pás quoi”. (Eu tenho uma coisa a dizer, mas não sei o que.)

 

Estou a repetir Sartre naqueles dias, só para dizer que o homem de 1968 não é o de 2008, mas se repete em erros e desencantos.

 

Os Reitores que se seguiram carregaram também a sua cruz. Igual a Martin Heidegger que foi Reitor no tempo de Hitler, Gilson Cajueiro de Holanda, por ser prótempore foi massacrado como ilegítimo, biônico, xingamentos estendidos a Bonifácio Fortes, Alexandre Diniz, Reginaldo Silva e a mim, seus Diretores de Centro.

 

Era o início da abertura política vivido nos estertores do regime militar. O importante, naquele momento, seria a legitimidade do voto.

 

Sobre a legitimidade, Hannah Arendt tem um tratado no qual se constata que o próprio Adolf Hitler, entre outros, foi destes fenômenos surgidos com expressiva legitimidade. Muito mais importante do que a legitimidade do voto, é o homem passar pela vida e jamais perder a sua integridade.

 

Mas a Universidade mudara, e o importante era apenas a legitimidade. E como a Universidade mudou e se democratizou, os Reitores seguintes Eduardo Garcia, Alencar Filho, Luiz Hermínio, Fernandes Lima, duas vezes, e agora Josué Modesto dos Passos Sobrinho foram todos legitimados pelas urnas em pleitos memoráveis.

Cada um a seu modo, colhendo louros ou apupos, ou a indiferença melancólica dos eternos insatisfeitos.

 

Mas, o que é notável em meio a esta melancolia, aqui e lá fora, em todos os tempos da Universidade pública, no arbítrio e fora dele, com eleições ou não, todo Reitor sempre fez o sucessor. Uma constatação, sem vezos de crítica.

 

Se há crítica, devemos fazer aos Presidentes da República que iniciado com Figueiredo, seguido por Sarney, Collor, Itamar e Fernando Henrique duas vezes, sem exceção, se revelaram inimigos da Universidade pública, restringindo-lhe os recursos orçamentários, congelando as vagas de docentes, tratando-a a pão e água em desamor, condenando-a à inanição, insinuando um desejo de sua privatização.

 

Necessário dizer, porém, que o Presidente Lula tem mudado um pouco tudo isso.

 

Embora muita gente se faça de cego, Lula vem tratando a Universidade pública com mais carinho; abrindo novos cursos, criando novos campi, como é o caso de Laranjeiras, e, sobretudo, o de Itabaiana, que tem contado com o vibrante apoio de sua Prefeita Maria Mendonça, hoje aqui também homenageada.

 

E ao homenagear Maria Mendonça, é necessário enaltecer a sua origem por estirpe.

 

Ela é filha de um homem simples, Chico de Miguel, um ceboleiro semi-analfabeto, diante da qual nenhum dos seus circunstantes permaneceu indiferente; ou lhe foram a favor, ou contra, como assim deve ser diante dos homens afirmativos; homens que na horizontalidade da morte se fazem mais gigantes que em vida.

 

Mas a humanidade prossegue, com os homens gigantes ou anões, montando os cavalos da história, iludidos muitas vezes com a própria criação, o que é terrível!

 

Porque a missão do homem de ontem, de hoje e de amanhã será sempre a de ser superado em sua obra, seus feitos e seu recordes em meio às angústias do ser.

 

Igual à Universidade, que de início seis cursos apenas e com algumas dezenas de alunos, hoje supera 17.000 estudantes em mais de 130 cursos, centenas de pesquisadores, em presença viva na comunidade, sob o comando tranqüilo, sereno e clarividente do Magnífico Reitor Josué Modesto dos Passos Sobrinho, que vem realizando uma magnífica administração, contando com muitas resistências, por certo. Coisas do humano, do homem de 1968 e do homem de 2008, sempre mutável com o vento.

 

Desejo parabenizar o Reitor Josué e seus comandados, em particular o Diretor Professor Marcionilo Lopes Neto do meu CCET, por sua bela administração, mas eu preciso ainda dizer algumaa palavras sobre Carlos Brito e Cleomar Brandi, homenageados maiores dessa noite.

 

De Carlos Brito, esta figura tão querida de todos nós, que Deus, por suprema bênção aos sergipanos, o colocou no Supremo Tribunal Federal, enaltecerei o homem, o poeta, o intelectual e cultor das leis, que hoje é Ministro do Supremo dando valor e firmeza à mais alta corte do país.

 

Mas, não é ao Ministro que eu me dirijo. É ao homem, ao poeta de versos doces, curtos e radiantes de ternura, que deixa “em velhos espelhos os rostos novos que já teve” e para quem “Morrer não é o problema. / O problema é morrer. / Pequeno de Espírito. / Anão, / Porque assim toda viagem / Terá sido em vão”.

 

Excelente pensar se aplicarmos a cada um de nós e à Universidade.

 

E dizer ainda; “O nada, /O nada ser. / Tem na pausa / Do acontecer / A causa do seu não-ser” ou então este, mas destinado à Universidade em canto de parabéns: “Quando a gente esquece / Por muito tempo / De se alegrar, / Por muito tempo as coisas / Se lembram de piorar”.

 

Parabéns, Carlos Brito, doutor honoris-causa da UFS! Parabéns, Rita, que em sua companhia vive todos os momentos em poesia.

 

Deixando o poeta Carlos Brito e sem da poesia me afastar, e vendo a Universidade plantando sementes como missão, cito agora o jornalista Cleomar Brandi revisitando um novo conceito de semente.

 

Diz Brandi como a um mandamento de nova lei:

 

“A palavra ‘semente’ perderá o seu valor puramente semântico e se transformará na verdade plantada em cada varanda, em cada janela, em cada quintal. Ela continuará vigorando como prenúncio de colheita, mas seu resultado será repartido por igual, para que a lágrima da fome nunca mais risque traços de vergonha no rosto amargo do trabalhador brasileiro”.

 

Mas, igual ao vento, a semente de março não é igual à semente de dezembro, e o homem de 1968 não é o homem de 2008. Perduram-lhe as mesmas angústias, sonhos e questionamentos.

 

E nestes questionamentos, o corsi e o ricorsi de Vico sempre pode conduzir o homem ao barbarismo, a decadência, os pogrons, as caças às bruxas em Kepler e Galileu, as noites dos cristais, as revoluções culturais, as assembléias daninhas e ruidosas, em fim, todos os descaminhos que tem degradado povos e instituições.

 

Que a Universidade pública tenha juízo. Que não ingresse na desordem das palavras vazias, desprovidas do fulgor eterno; a chama prometéica da invenção do saber.

 

Porque a Universidade de ontem, que não é a de hoje, deve ser para sempre a instituição aberta a todos os campos do saber, acima de ideologias e idiossincrasias, como árvore frondosa de galhos crescentes em demanda dos limites infinitos do livre sonhar humano, sem jamais se soltar das raízes que a prendam à terra e à gente, para delas receber a necessária nutrição e segurança, e que não venha, nunca, nem por castigo ou danação, se perder na indiferença dos mornos e na subserviência equivocada dos sonhos exaltados.

 

Que os homens que fazem a nossa UFS, professores, estudante e funcionários, nunca esqueçam o compromisso dos seus pais fundadores, quarenta anos passados, para torná-la cada vez melhor, no ensino, na pesquisa e na extensão, promovendo o desenvolvimento de Sergipe, e formando a juventude sergipana no respeito à ética, no prazer da leitura e no gosto pelos estudos.

 

Muito obrigado.

*Na verdade, dado o adiantado da hora, porque a solenidade se alongou bastante, o presente discurso não foi lido. No lugar, o autor pronunciou um discurso bem mais curto e de improviso. O presente texto segue agora publicado, apenas para consignar documentalmente a comemoração do quadragésimo ano da UFS.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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