Revolução sem sangue!?

0

Há um comentário atribuído a Carlos Lacerda que se contava com chiste de graça e inteligência, datado dos idos de 1964, quando o movimento militar daquele ano houvera derrubado o Presidente João Goulart, implantando um regime que vingou por quase vinte anos.

Os militares e civis que apoiaram aquele movimento o definiam como “Revolução de 31 de Março”, enquanto os que o denegriam, acusavam-no como o “Golpe de 1o de Abril”.

Na verdade, foi uma coisa e outra.

Não foi uma “Revolução”, no sentido sociológico e histórico, nem um simples “golpe”, como se costuma menosprezar, porque aí a finalidade é defini-lo assim, em desapreço ao fato que existiu e perdurou.

Os que chamam “Golpe de 1o de Abril”, querem, ainda hoje e para sempre, inserir aquele movimento militar, que se fez vitorioso com um simples cortejo de recrutas, como se fora uma simples mentira, ocorrida no “dia da mentira”.

Para estes, o que aconteceu fora tão impensável, que melhor seria dizer que nenhum movimento de tropas militares ocorreu, partindo de Juiz de Fora em Minas Gerais para Rio de Janeiro, afirmando que ninguém cruzou o Rio Paraibuna.

Em verdade o desfile aconteceu.

E seria um feito jocoso e debochado, não fosse irônico, passando para a História como um exemplo icônico de desprezível covardia, afinal por todo o caminho, longe de encontrar resistência, os aplausos recebidos pelo General Olímpio Mourão Filho, seu comandante-em-chefe, permitiram-lhe refestelar-se em boa sesta, sem nenhum apupo de má ingesta, por quilômetros de desfile.

Como só se enxerga o que se deseja, em pose de avestruzes, melhor do que repelir o golpe, respeitando-o, para evitar repeti-lo, restou desvirtuar aquele movimento cívico-militar, em sucessivas “Comissões de Verdade”, como se numa convenção de saleta, fosse possível tudo redefinir na caneta, afinal “se non è vero è bene trovato”, ou quem o sabe, assim melhor erigir uma consensual veridicidade.

Em outro contexto e diferente cenário, embora queira-se desmentir via consensual vontade, deturpando a real e única veracidade, insira-se, inclusive, que a despeito de filmes que o flagraram em danças e botas, vê-se ainda, Adolf Hitler sapateando em L’Etoile e na Tour Eiffel, sem receber uma vaia viril da Paris circunstante, rendida e ocupada.

Porque as paradas, de qualquer desfile militar, e as bandas marciais alemãs, no particular, todo mundo gosta de ver, contemplar. Não somente “pra ver a banda passar, cantando coisas de amor”, como por basbaquice mesmo.

Neste contexto, bem vale rever o belo filme de Claude Lelouch, “Bolero”, ou “Les Uns et Les Autres” – produzido em1981, que no Brasil foi exibido em parca exposição, como “Retratos da Vida”.

Um filme magnífico que no Brasil passou despercebido com o título “Retratos da Vida” Divulgação

Um filme belíssimo! Musical, enredo e coreografia; notáveis!

Lembro o filme porque vale destacar esta parada ali reencenada, revelando a infelicidade de um povo rendido, acovardado, bem diferente do desfile vitorioso dos comandados de Mourão Filho, não tão garboso, em pior glória.

Da película, falarei em sequência, pois pretendo voltar a Carlos Lacerda e sua célebre entrevista dada em Paris nos idos pós Golpe ou Revolução de 1964.

Perguntado sobre o por quê das revoluções brasileiras restarem sem banho de sangue, como aquela de 1964, o politico carioca respondeu: “Révolutions au Brésil sont comme mariage français: sans effusion de sang”. As revoluções brasileiras são como os matrimônios franceses; sem sangue!

Dizem alguns circunstantes, não sei se foi o caso, que o chiste lacerdista foi recebido com graça.

Melhor verve, todavia, fora uma resposta parecida, dada anos depois pelo jurista Sobral Pinto, quando o regime militar começava a naufragar e que restou assaz badalada: “Há peru à brasileira, mas não há democracia à brasileira”

Em prévias natalinas, e com o peru em seva necessária, confesso que vivi em ambas democracias, a de então e a de agora, sentindo que a de antes pelo menos, ensejava melhor esperança.

Porque eu como muitos, não estou pressentindo muita esperança e confiança de dias melhores no nosso futuro.

Neste contexto, quase desesperador, recentemente houve um enorme auê, quando um dos filhos do Presidente Eleito Jair Bolsonaro afirmou ser necessário apenas um cabo e um soldado para fechar o Supremo Tribunal Federal.

O mesmo aconteceu quando uma pequena multidão jogou tinta vermelha no edifício residência da Ministra Carmen Lúcia, do Supremo Tribunal.

Em similar desapreço, na semana que passou, por exclusivo acordo entre o mesmo Supremo, o Presidente Temer, sem pejo de real apodrecimento do mandato, junto ao Senado, e à Câmara dos Deputados, em apoio, editaram onerosas medidas de pauta bomba, que bem maldizem todos os nossos desejos.

– “Só um tanque promovendo uma ampla terraplanagem na Praça dos Três Poderes! “ – Disse-me um amigo, um ex-petista alucinado, hoje um bolsonarista convicto, desde já se prenunciando em passadas convictas rumo à desesperança.

É quando eu me volto para a França, vivendo dramas terríveis em nova fronde, agora no século XXI, revivendo hostis paradas de várias insatisfações como “gilets-jaunes”, os assim chamados coletes-amarelos, destruindo os arredores do Arco do Triunfo, e as pessoas pensando ainda tratar-se de uma fortuita manifestação de insatisfação rotineira.

Lembrança que me faz voltar no tempo e contemplar a esquina do Boulevard des Capucines, onde há uma placa turística marcando data e local onde dezenas de parisienses foram fuzilados a mando de François Guizot o Primeiro-Ministro do Rei Luís Filipe, que tentava em 1848, via metralha, conter a turba e manter a coroa, inutilmente.

A França tem disso. Rotineiramente vivencia uma grande insatisfação popular que se repete, sem que os homens consigam sanear para prevenir.

O sábado que passou, por exemplo, foi o terceiro seguido, com a França se inflamando país à dentro, com a popularidade do Presidente Emanuel Macron reduzindo-se a níveis baixíssimos de 20%, logo ele, um Presidente jovem, eleito por ampla escolha acima dos partidos, e com expressiva maioria no Parlamento.

Diferente do Brasil, quando o Hino Nacional é gritado na rua, tal maioria parlamentar se esvai e já há quem pense numa antecipação de eleições, numa provável mudança do Primeiro Ministro, ou mesmo na improvável queda de Macron, com dois anos apenas de mandato.

Por outro lado, se os franceses contemplassem a própria história, veriam que a cada revolução o sangue derramado nada constrói, afinal as conquistas sociais adquiridas para o amainar dos conflitos, logo refluem para o lugar comum ditado pelas forças da ordem.

No mais, resta o enfraquecimento da nação.

Que é a França hoje, senão um membro da comunidade europeia?

Um membro que vem sendo pressionado a abdicar de sua presença enquanto membro permanente do Conselho de Segurança da ONU, para a ceder o seu lugar e posição de veto à União Europeia.

Recentemente, até para conter os arroubos de Macron, que se acha grande líder mundial, o Presidente Trump relembrou que não fosse a presença americana, sobretudo na 2a Grande Guerra, por pouco os parisienses não falariam alemão em Les Invalides, no Campo de Marte e na Torre Eiffel.

Porque a história da França tem sido uma constância de agitação exaltada e campo de conquista dos exércitos estrangeiros, já que possui poucas defesas geográficas.

Que o diga o Czar Alexandre II, no pós Bonaparte, em 1815, o Juncker Prussiano, Oto Von Bismark, no pós Napoleão III em 1870, e Adolfo Hitler, em 1940, porque todos, a seu tempo, adentraram posando de conquistadores em Paris com muita facilidade.

Neste particular bem vale rever os idos narrados por Claude Lelouch em “Retratos da Vida”, e rever em má lembrança o vídeo histórico da entrada dos alemães em Paris em 1940.

https://youtu.be/gantxG-wDeo

Quanto ao filme, Lelouch bem destaca o desfile das forças alemãs encantando as parisienses românticas que bem recepcionaram o invasor inimigo, ao lado daqueles que mordendo os lábios degustavam o sangue odiento que assomava os lábios no silêncio imposto.

 

Franceses assistindo desfile invasor de tropas alemãs no filme “Les Uns et Les Autres” – Divulgação

“Retratos da Vida” (“Les uns et les autres”) conta a saga de quatro famílias em capitais-chave da história do século passado: Moscou, Berlim, Paris e Nova York, desde a eclosão da Segunda Guerra, no caminho enfrentando o Holocausto, o totalitarismo Stalinista, a Guerra da Argélia e, por fim, a fome no mundo, que continua, como um ciclo interminável em moto contínuo

 

Cenas felizes de “Les Uns et Les Autres” – Divulgação

No filme atuam Monstros sagrados da 7a Arte como o musicista Michel Legrand, o coreógrafo, Maurice Béjart, e atores como Robert Hossein, Nicole Garcia, Geraldine Chaplin, James Caan e Jorge Donn.

Vale à pena procurar a película e assisti-la.

Segue um dueto de uma das músicas-tema entre Geraldine Chaplin e Manuel Gelin, recolhido no Youtube

https://youtu.be/NBpOrfIEPBw

 

Apresento também, a título de lembrança, algumas imagens notáveis e um vídeo de Jorge Donn, dançando o Bolero de Maurice Ravel, em palco armado sob a torre Eiffel, que bem vale assistir em conclusão do espetáculo.

https://youtu.be/taxfxp9JrZ4

 

O tema de “Retratos da Vida” vem ao caso, porque a humanidade sempre gosta de ouvir as marchas guerreiras, os cantos de ordem sendo desferidos, a recolher vontades e desembestar multidões.

 

Garotas parisienses deleitando-se com o desfile do invasor alemão em “Retratos da Vida” – Divulgação

E as Revoluções, quando acontecem, com derramamento de sangue ou não, aglutinam multidões ou bem reaglutinam pusilanimidades.

 

O invasor alemão caçando judeus numa escola parisiense. O garoto em questão, um personagem de “Les Uns et Les Autres”, escapou do Holocausto, porque sua Professora ensinara a rezar o Pai Nosso. – Divulgação

Tudo que bem já se pode contemplar nos excessos cometidos nos manifestos dos “coletes amarelos”.

Voltando ao “corvo”, Carlos Lacerda, os franceses se espantam com as nossas revoluções porque estas acontecem sem sangue.

Não se creia, todavia, que elas aconteçam sem traumas.

Aqui, como na França, é perigoso desafiar a insatisfação popular.

Mesmo que depois se possa compor um poema de amor enquanto retratos da vida.

Comentários