Rico na cadeia

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Que o Brasil é o país da corrupção e da impunidade, isso não é novo. Que ser pobre e de preferência negro são as condições capitais para ser preso e condenado, também não é. A novidade é que agora rico vai para a cadeia. As operações conduzidas pela Polícia Federal são o exemplo mais bem acabado de que começa a ser quebrada a lógica de manter os perfumados corruptos impunes enquanto se condena os banguelas e mal vestidos.

Pesquisas já constataram que clubes de futebol e a Igreja Católica são instituições de prestígio entre os brasileiros, enquanto o Poder Executivo e os bancos e instituições financeiras são considerados de grande poder de influência. A imprensa aparece nos dois grupos, dos prestigiados e dos poderosos. Pois uma pesquisa científica certamente comprovaria que hoje a Polícia Federal é uma instituição acreditada. Pela coragem — de cortar na própria carne, inclusive —, pela seriedade e pela freqüência da atuação. E não tem feito isso somente para prender pobre não, o que certamente agrada à maioria.

A Operação Navalha dá continuidade a uma série de ações que a Polícia Federal vem realizando para combater quadrilhas que lesam os cofres públicos. De 2003 até então, 350 operações resultaram na prisão de mais de 5 mil pessoas. Destas, cerca de mil são servidores e ex-servidores públicos suspeitos de corrupção: parlamentares, magistrados, procuradores e funcionários do Executivo federal, estadual e municipal, incluindo prefeitos e governadores.

E atenção corruptos: vem mais ação por aí. No ano passado, houve o maior número de operações, 167, que levaram 2.500 pessoas para a cadeia — mais de dez vezes que em 2003, quando 223 suspeitos foram detidos em 16 ações. Nos quase cinco meses de 2007, já houve 61 operações, incluindo a Navalha, e cerca de 800 prisões.

A quantidade de prisões deve aumentar porque o ritmo das operações vem crescendo. Ao longo dos anos, a Polícia Federal tornou-se mais organizada. Deixou de fazer operações pontuais para prender apenas um bandido e voltou-se a atividades estratégicas, com foco no desbaratamento de quadrilhas que atuam no País há muito tempo, com práticas antigas de corrupção.

“Sabemos que no primeiro momento, fica para a população uma impressão de que a corrupção é grande e está aumentando”, comentou na semana passada o secretário executivo da Controladoria Geral da União (CGU), Luiz Navarro. “Mas precisamos combatê-la, pois este mal não acaba de uma só vez, com um tiro”. As operações que mais prenderam servidores de alto escalão e obtiveram maior repercussão foram:

 

OPERAÇÃO

ANO

OBJETIVO

PRESOS/SUSPEITOS

Anaconda

2003

Desarticular quadrilha que cometia corrupção, tráfico de influência, lavagem de dinheiro e utilização de cargos públicos

Juízes federais João Carlos da Rocha Matos e Casem Mazloum

Vampiro

2004

Investigar a compra superfaturada de hemoderivados

Ex-tesoureiro do PT Delúbio Soares e ex-ministro da Saúde Humberto Costa

Sanguessuga

2006

Combater crimes contra a ordem tributária e fraudes em licitações na área da saúde, principalmente compras de ambulâncias

Empresários donos da Planam, Luiz Antonio e Darci Vedoin

Dominó

2006

Desarticular quadrilha que atuava em Rondônia

Deputados estaduais

Furacão

2007

Atacar a exploração ilegal de jogos e venda de sentenças judiciais

Ministro Paulo Medina, do STJ

Navalha

2007

Desarticular quadrilha que superfaturava obras e tinha como pivô a construtora Gautama

Empresários Zuleido Veras e João Alves Neto, ex-deputado Ivan Paixão, conselheiro do TCE/SE Flávio Conceição

 

Como desta vez a navalhada foi profunda, podendo cortar inclusive no couro do Congresso Nacional, deu-se início a um movimento contrário às operações da Polícia Federal. De repente, começou-se a ouvir que a PF exagera, quando não age com métodos fascistas. Um ministro do Supremo Tribunal Federal, homônimo de um engenheiro sergipano, buscou desqualificar de vez a briosa instituição, chamando-a de canalha.

Então são os policiais federais os canalhas? E os corruptos que roubam o sangue dos menos assistidos, os alimentos das crianças, que assaltam o Estado e que avançam até sobre o Judiciário são o quê? São respeitáveis senhores que merecem toda a consideração? Somente para citar um exemplo recente: não se ouviu tamanho clamor sobre os “excessos” da Polícia Federal quando prendeu e exibiu algemados bicheiros que compravam sentenças judiciais. Por que são bicheiros? E os outros também não são párias da sociedade?

Tem razão o presidente da Associação dos Delegados da Polícia Federal, Sandro Torres Avelar, que não vê motivo para as críticas açodadas à Operação Navalha. Ele lembra que uma operação desse porte só é realizada com muito estudo, muito planejamento e envolve a participação de todo o sistema criminal da União. Ele vê que há um “movimento de transição” para a investigação de pessoas de alto poder aquisitivo e de grande influência política. “Antigamente, só bandidos pobres eram presos. Hoje a gente vê, ainda com ar de surpresa, bandidos ricos serem investigados e sofrerem a punição da lei. Estamos no caminho correto”, diz.

“As críticas são posições reacionárias e conservadoras de quem se preocupa com a evolução” do sistema criminal brasileiro. “Essa mudança foi muito cobrada por nossa sociedade, que cansou de se indignar e ver apenas as pessoas de baixo poder aquisitivo serem investigadas e presas. Essa mudança de rumos deve ser aplaudida, não criticada”, afirma Avelar, lembrando que todas as prisões foram feitas com a participação do Ministério Público Federal, que tomou conhecimento e se posicionou favoravelmente, e com a determinação da autoridade judicial que veio da ministra Eliana Calmon, do Superior Tribunal de Justiça. Portanto, não foram prisões arbitrárias. Será que não estão querendo desviar o foco do combate à corrupção?

 

 

Correio

 

“Desejo parabenizá-lo pelo artigo ‘Flávio impediu auditoria’, pelo equilíbrio, independência e responsabilidade, inclusive com o irretorquível juízo de valor sobre a nossa Corte de Contas; que deveria ser exemplar, mas sequer somenos “pomposa e desacreditada”. Se associarmos à confraria do até então inominado Frei José os espelhos refletindo infinitamente a corrupção, no dizer do informe JB escrito por Tales Faria — AJB, folha A7 do JC do sábado 19/05/2007 —, tudo ali será permitido em termos de decomposição; confundir o real com o virtual, restando o descrédito da pompa em meio à putrefação. Seu artigo por certo não somará valor nestes ambientes acarpetados de pouco sol, rala luz e escassa oxigenação moral, embora seja uma descrição de uma realidade que não insere nem crueldade nem equívocos, mas é uma tristeza.”

Odilon Cabral Machado

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