Roupa de domingo

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Chico Buarque, para mim, está mais para a literatura que para a música. Mas algumas letras realmente me comovem. Como, por exemplo, essa aqui: “Se eu demorar uns meses convém às vezes você sofrer / Mas depois de um ano eu não vindo / Ponha roupa de domingo e pode me esquecer”. Pois é, mesmo nos tempos áridos e opressores da ditadura militar, a roupa de domingo tinha lá seus encantos. Mais que isso, tinha poder e poesia.

Hoje banalizou. Não há roupa de domingo, não há roupa de sair. O que nos restou foi esse tal de high-low. Provavelmente, há quem reforme vestidos de casamento para usá-los em dias convencionais. Ao que parece, todo o romantismo do vestido de festa virou “démodé”. A saia com bordados, brilhos e pedrarias veste a mocinha na sorveteria. A camiseta surrada transcende os limites domésticos e chega à balada. Tudo parece muito divertido, é verdade.

Mas numa dessas noites de sábado, vestindo calça jeans e camiseta, me senti incrivelmente desarrumada. Atribui a sensação à negligência com a qual tenho me vestido nos últimos tempos, mas ele foi mais esperto do que eu. “Isso é porque você está usando a mesma roupa com a qual vai para a faculdade”. Seja como for, o caso é que naquela hora me bateu a maior saudade da época em que minha mãe me comprava roupas de domingo. Mesmo que fossem para ser usadas num sábado qualquer. Aliás, não num sábado qualquer, mas num desses que nos são bem especiais.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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