Salve, Comandante Marcos Prado

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[…] Peço-te insistentemente, Lucílio: façamos com que a nossa vida, à semelhança dos materiais preciosos, valha pouco pelo espaço que ocupa, e muito pelo peso que tem. Avaliemo-la pelos nossos atos, não pelo tempo que dura. Queres saber qual a diferença entre um homem enérgico, que despreza a fortuna, cumpre todos os deveres inerentes à vida humana e assim se alça ao seu supremo bem, e um  outro por quem simplesmente passam numerosos anos? O primeiro continua a existir depois da morte, o outro já estava morto antes de morrer! Louvemos, portanto, e incluamos entre os afortunados o homem que soube usar com proveito o tempo, mesmo exíguo, que viveu. Contemplou a verdadeira luz; não foi um como tantos outros; não só viveu, como o fez com vigor.
                                                                                                                         
                                                                                                                                                                                      Séneca, em 'Cartas a Lucílio'
  
    Discorrer sobre a vida de uma personalidade notável como Marcos Aurélio Prado Dias, sem omitir ou exagerar as características que a compõe,

Dr. Marcos Prado,  no consultório da Diagnose

não é tarefa fácil. Mais ainda quando se é irmão. Diz Agenor Porto que "cada objeto se projeta influenciado pela luz que o desenha. O meio o aclara ou sombreia. Nunca as linhas são as mesmas”.
   Não houve planície na vida de Marcos. Nela, tudo foi esforço, dedicação, luta e estoicismo, sempre com a cabeça erguida e o olhar firme, mas com generosidade, lealdade e solidariedade, traços mais marcantes de sua personalidade. Os cargos que exerceu e as funções que desempenhou, chegaram-lhe por méritos pessoais.
   Primeiro filho de Antonio Conde Dias e de Natália Prado Dias, Marcos nasceu em Aracaju em 18 de outubro de 1944. Fez o ensino fundamental no Grupo Escolar Felisbelo Freire, em Itaporanga d’Ajuda. Depois, ainda jovem, veio para Aracaju onde manteve internato no Instituto Santo Antonio e depois no Colégio Jackson Figueiredo. Fez o antigo científico no Atheneu Sergipense. Estudou o primeiro ano médico em Maceió retornando no ano seguinte para Aracaju, formando-se na quarta turma da Faculdade de Medicina de Sergipe, em 1969.
   A medicina foi o eixo norteador da sua vida. Medicina como profissão, mas teve o magistério como primeira fonte de subsistência, a educação presente como professor e depois como gestor, que por duas ocasiões, à frente da Secretaria de Estado da Educação, soube honrá-la e dignificá-la.
    Iniciou suas atividades profissionais no Hospital Santa Isabel como cirurgião geral e plantonista do Pronto-Socorro do Hospital de Cirurgia, permanecendo nesta unidade até 1974. A decisão pela coloproctologia veio no final dos anos 70, após fazer curso integrado de cirurgia e gastroenterologia no Hospital dos Servidores do Estado de São Paulo, sob a coordenação da Professora Angelita Habr Gama, Fábio Goffi e Vicente Amato Neto, dos quais se tornou grande amigo. Sim, por onde passava, Marcos sempre deixava amigos.
   Em 1973 foi aprovado em Concurso de Títulos para Oficial Médico promovido pela Polícia Militar de Sergipe e Hospital da mesma corporação. Em 1975, recebeu o Título de Especialista em coloproctologia, outorgado pela Sociedade Brasileira de Coloproctologia e Associação Médica Brasileira. Atuou como membro do Conselho Federal de Medicina, do qual foi conselheiro e secretário, de 1978 a 1988. Através convênio da UFS com a Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, fez Curso de Especialização e Aperfeiçoamento em Cirurgia, no seu módulo abdominal, nos anos de 1981-1982. Foi vice-presidente da Somese de 1985 a 1989 e presidiu o Clube dos Médicos, onde teve uma brilhante e profícua gestão.
    Uma faceta típica de nosso enfocado foi a sua predisposição em ajudar os colegas que lutavam por uma oportunidade de crescimento; talvez por recordar das dificuldades que passou durante a sua formação, abriu seu coração para os futuros médicos. Pelas suas mãos, galgaram degraus na vida os irmãos Roberto e Genival Ferreira, Sérgio Lopes, o futuro ortopedista José Alves Nascimento, João Cassimiro, Manoel Marcos e José Luiz Sandes. Mas ele não ficava somente na colaboração formal, protocolar, mas abria as portas de sua casa e o convívio de sua família para que essas pessoas tivessem o amplo apoio, a amizade e a fraternidade.
   Como médico engajado nas ações de saúde, coordenou o Setor de Perícias Médicas do INPS de 1974 a 1980. Dirigiu o Centro de Aperfeiçoamento das Equipes de Saúde do INAMPS – CEAPES, de 1981 a 1982 e o Posto de Assistência Médica da Rua de Geru – o PAM 432, de 1985 a 1986. Atuou em todos os hospitais da cidade, mas foi no Hospital Santa Isabel, no qual foi admitido ainda como estudante estagiário por concurso na gestão de Gileno Lima, na década de 60, que fez a sua história ao lado de consagrados cirurgiões como Adelmar Reis, Moacir Freitas, José Augusto Bezerra, Francisco Rollemberg, entre outros.
    Em 1991 fundou a Sociedade Sergipana de Coloproctologia, sendo seu primeiro presidente. No ano seguinte, assumiu a presidência da Sociedade Norte Nordeste de Coloproctologia. Mais tarde se tornou Mestre do Capítulo Sergipano do Colégio Brasileiro de Cirurgião. Presidiu  ainda a Sociedade Brasileira de Médicos Escritores- Secção Sergipe e manteve até a sua morte o atendimento regular na Clinica Diagnose.
   Teve importante participação na imprensa sergipana, publicando artigos nos jornais "Diário de Aracaju", "Gazeta de Sergipe", "Jornal da Cidade" e "Correio da Manhã". Criou os suplementos semanais “Conheça Melhor o seu corpo” publicado nos jornais "A Estância" e "A Cruzada". Juntos, fundamos o suplemento "PRESCREVER", publicado por três anos nas edições dominicais do jornal "Correio de Sergipe". Coordenou a seção O BISTURI, no "Jornal da SOMESE". Seguia assim os passos do nosso pai, o jornalista Conde Dias, que por muitos anos foi colaborador dos principais jornais de Sergipe.
    Pronto para servir ao povo de Sergipe, assumiu funções importantes no Governo do Estado: Secretário de Estado da Educação e Presidente da Fundação Hospitalar no governo de Antonio Carlos Valadares. Secretário de Estado da Administração e Presidente do Instituto Parreiras Horta no segundo mandato do engenheiro João Alves Filho e novamente Secretário de Estado da Educação no último governo de João Alves, com breve passagem ainda na presidência da estatal Sergás. Presidiu o Instituto Tancredo Neves em Sergipe desde a sua fundação, transformando a entidade em referência nacional, com vários livros publicados, inúmeros fóruns nacionais realizados, entre outras ações.
     A Academia Sergipana de Medicina estava necessitando de pessoas entusiastas, envolvidas e afinadas, dispostas a sacudi-la e fazê-la manter a situação que conceitualmente lhe é requerida – a de liderança do pensamento médico aliado ao aprimoramento cultural. Por isso, admitiu-lhe como membro efetivo em 2006. Na Academia, Marcos foi um de seus mais entusiasmados participantes.
     Poderia buscar mais realizações e histórias de vida desse ilustre cidadão sergipano, como músico, compositor (Tema de José), cineasta (A Morte do Templo, “Tô te ajeitando”, “Pedro, o padre perfeito”), pescador (foi presidente do Clube de Pesca), professor (do Atheneu e da Faculdade de Medicina), desportista ( no Confiança foi de médico a presidente, cargo que exerceu por mais de uma oportunidade), escritor, político e líder de sua geração.
    Marcos Prado teve uma vida intensa, rica, participativa, entusiasmada e realizadora, até a sua morte. Em 2008, foi acometido de mieloma múltiplo, que o levou a fazer um transplante autólogo de medula óssea no inicio de 2009, com um bom resultado final, que lhe propiciou a retomada plena de suas atividades. Em agosto desse ano, apresentou recidiva do seu mal e dessa vez de uma forma muito agressiva e danosa, não respondendo ao tratamento e após oito dias de internação, veio a óbito em 23 de setembro de 2012.
    Em vida, Marcos Prado deu exemplos de honestidade, caráter, ética, espírito público e altivez, mesmo quando alvo de kafkianas acusações. Foi amigo dos amigos e sempre buscou atender a todos da mesma forma, com carinho e atenção. Isso explica parte do magnetismo pessoal potencializado pela avalanche de carinho e solidariedade que nossa família recebeu nos últimos e dolorosos dias.
    Descansa em paz, Comandante! Deixa agora que teu exemplo e tua lembrança comandem.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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