Em junho, escrevi nessa coluna que a ciência já acendia a luz amarela. Em outubro, o painel ficou mais sério: os principais centros metereológicos mundiais apontam um El Niño muito forte, com pico até o fim do ano.
O fenômeno não se anuncia sozinho. Chega no Nordeste brasileiro pela seca, pelo calor, pelo incêndio e pela conta que o poder público terá de pagar.
O alerta mudou de patamar
Em 3 de setembro, a Organização Meteorológica Mundial (OMM) informou que a probabilidade de o El Niño persistir até fevereiro de 2027 é de “quase 100%”, com pico previsto para o fim do ano. A própria OMM faz uma ressalva importante: a intensidade do fenômeno, por si só, não determina os impactos.
Em 10 de setembro, o Climate Prediction Center da NOAA foi além. A chance de um El Niño muito forte no outono e no inverno do Hemisfério Norte 2026-27 passou de 90%. E há 75% de probabilidade de que o trimestre outubro-novembro-dezembro seja um evento histórico, com anomalia igual ou superior a +2,5 °C, acima de tudo o que foi registrado desde 1950.
Atenção ao verbo: é projeção, não recorde confirmado. A próxima atualização da NOAA está marcada para 8 de outubro.
O cuidado com o termômetro
Há três números circulando, e eles não dizem a mesma coisa. Vale separá-los antes que alguém declare o que ainda não aconteceu.
Na atualização semanal de 28 de setembro, a NOAA registrou anomalia de +2,2 °C na região Niño 3.4. É um valor semanal, sujeito a oscilações.
Já o índice trimestral (RONI) de junho-julho-agosto ficou em +1,4 °C, segundo a NOAA. O critério brasileiro para “El Niño muito forte” exige +2,0 °C ou mais. Ou seja: o valor semanal já ultrapassou a marca, mas o índice sazonal ainda não.
O alerta é real e se fortalece. Chamar de “muito forte já instalado” é que seria precipitado.
O Brasil e o Nordeste já sentem
O Boletim nº 04 do Painel El Niño, divulgado em 1º de outubro por INMET, INPE, ANA, Cemaden, SGB, Sedec e Censipam, traz números que não são de futuro, são de agora:
- municípios em seca extrema (IIS-3) saltaram de 4 para 24, sobretudo no Amazonas, Bahia, Amapá, Alagoas e Sergipe;
- assentamentos em seca extrema foram de 32 para 90, e em seca severa de 216 para 244, com situação mais crítica em Alagoas e Sergipe;
- os reservatórios do Nordeste estão com 47,2% (dado de 24/09), contra 50% em agosto, e a ANA contabiliza 96 açudes abaixo de 20%;
- 12 sistemas locais de abastecimento estão em Estado Hidrológico Vermelho;
- o risco de incêndio florestal tem 395 municípios em Alerta Alto e 533 em Alerta.
O Boletim também recomenda que estados e municípios revisem seus planos de contingência e integrem água, meio ambiente, saúde, assistência social e segurança pública.
Para outubro, a previsão do INMET (publicada em 25/09 e atualizada em 30/09) indica déficit de chuva entre o leste de Sergipe e o nordeste da Bahia. Ou seja: o mês começa com Sergipe no mapa do problema.
Em Sergipe, a seca já aparece nos dados
Sergipe não é coadjuvante nesse quadro. Aparece entre os estados com municípios em seca extrema e entre os que têm os assentamentos mais afetados.
A análise divulgada pelo Estado em 24 de setembro aponta chuva 21% menor que a do mesmo período de 2025. Em 1º de outubro, o cruzamento de dados da Defesa Civil (estações, temperatura, evapotranspiração, vegetação e volume de reservatórios) levou a um acompanhamento mais próximo de Canindé de São Francisco, Poço Redondo, Monte Alegre de Sergipe, Porto da Folha e Nossa Senhora da Glória.
São municípios do sertão, onde a falta d’água pesa mais cedo e mais fundo. Quem vive ali sabe que a estiagem não é estatística.
O que Sergipe já fez
Pelas informações públicas até agora temos os seguintes pontos positivos:
- desde maio de 2026, a Semac monitora o El Niño e emite orientações preventivas;
- em junho, o governo instalou a Sala de Situação do El Niño, com primeira reunião em 22 de junho, na Seplan. Reúne Seplan, Sedurbi, Seagri, Semac, Seasic, Defesa Civil, Adema e Corpo de Bombeiros, para acompanhar os impactos e coordenar ações preventivas;
- em 4 de agosto, a Cegec divulgou o primeiro boletim do programa Sergipe Resiliente: El Niño 2026/2027, com 50 estações meteorológicas e orientação às Defesas Civis municipais.
- o plano reúne Defesa Civil, Semac, Seasic, Coderse, Deso e Emdagro;
- a Caravana da Água, operação estadual de carro-pipa, atende 10 municípios com decretos de estiagem reconhecidos, com cerca de R$ 6 milhões aplicados entre janeiro de 2025 e fevereiro de 2026.
Da previsão à responsabilidade pública
A Lei 12.608/2012 (Política Nacional de Proteção e Defesa Civil, alterada pela Lei 14.750/2023) deixa pouco espaço para a espera. O art. 2º impõe à União, aos estados e aos municípios o dever de adotar as medidas necessárias à redução dos riscos de desastres, e o § 2º esclarece que a incerteza quanto ao risco não é obstáculo para a prevenção.
Conclusão: não é preciso esperar a certeza do tamanho do El Niño para agir. A probabilidade já basta.
Como pontos negativos ainda restam dúvidas quantos às seguintes questões que ainda não foram respondidas:
- Quais gatilhos (nível de reservatório, índice de chuva, decretos) acionam cada medida?
- Quem responde pelo quê, em cada município e em cada secretaria?
- Quais recursos já estão reservados, e de que fonte?
- Como os municípios do sertão recebem apoio antes do colapso, e não depois?
- Como a população será informada de forma clara e regular?
Prevenir custa menos que remediar, e custa muito menos que explicar depois por que não se preveniu. A ciência já fez a parte dela. Falta cada gestor fazer a sua.
Referências
- Organização Meteorológica Mundial (OMM). Comunicado de imprensa sobre o El Niño, 3 set. 2026.
- NOAA/Climate Prediction Center. ENSO Diagnostic Discussion, 10 set. 2026.
- NOAA/CPC. ENSO Weekly Update, 28 set. 2026.
- Painel El Niño. Boletim nº 04, 1º out. 2026 (INMET, INPE, ANA, Cemaden, SGB, Sedec, Censipam).
- Previsão climática para outubro de 2026.
- Lei 12.608/2012, alterada pela Lei 14.750/2023.
- Governo de Sergipe (Semac, Cegec, Seplan, Defesa Civil), comunicados sobre a Sala de Situação e o programa Sergipe Resiliente: El Niño 2026/2027, jun.–out. 2026.
- Do autor: El Niño 2026-2027: ciência, alerta e a urgência da prevenção, Infonet.
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