Saudade de Paris I

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Eu já devia ter escrito sobre Paris. Era esse o plano quando marquei a viagem. Isso em dezembro do ano que passou. Iria revê-la após alguns anos de afastamento. Paris continua uma festa. Linda, lindíssima!

Chegamos Tereza e eu no dia 28 de dezembro no aeroporto de Orly, após passada por Lisboa em voo da TAP, em conexão com a pátria TAM.
Portugal seria o roteiro final da viagem, após o périplo por Paris.

A viagem fora marcada por dois interesses imediatos. O primeiro, uma comemoração antecipada dos 39 anos de casamento e 42 de namoro. Louvar com risos a felicidade de vencer a dois uma caminhada nunca arrefecida, nem estremecida. Deus me deu a mulher amada, e com ela o sorriso do nosso viver; filhos e netos.

O segundo motivo foi o Réveillon, esta festa que enseja uma descontinuidade, um recomeço de algo que não para: O tempo. E o tempo é inexorável, conduz-nos ao fim e à morte; este término mais que necessário.

Mas enquanto a morte não vem, os deuses, todos os deuses convidam os humanos a viverem a vida em plenitude. E porque é assim, vale à pena viver e curtir a vida em toda cor e sonoridade. Uma maneira de estar de bem com a própria vida, sem traumas, sem medos ou comiserações.

Ora, por contingências da vida dos velhos, ou dos que já viveram algum tempo, os músculos restam flácidos, a disposição se acomoda, e os jovens no abandono do ninho em voo amplo de realização e compromisso esvaziam a casa, que resta exuberante em silêncio e excessiva de alegria saudosa. Algo muito bom, por dever cumprido, mas terrível, a suscitar inutilidades.

Não há nada melhor no preenchimento das angústias do ser do que a convivência dos entes queridos, daqueles que amamos sem limites.

Mas, é difícil reunir rotineiramente uma família quando a maturidade convive com a senectude. Não fora assim, não existiria a solidão dos velhos. E, se conseguimos reunir filhos, genro, noras e netos numa ceia natalina, no Réveillon nem sempre isso acontece, afinal um tem que visitar os familiares distantes, outro deseja pular carnaval, e ainda há daqueles que deseja desfrutar a passagem do novo ano no campo, na praia, na fofoca da orla, etc.

Assim, os velhos ficam sozinhos ou têm que se inserir num destes programas cheios de gente, estacionamentos distantes, engarrafamentos monumentais, nada que nos agrada, na praia com fogos ou fora dela.

Sós, conosco próprios, resolvemos viajar, desfrutar o Réveillon francês, justamente no coração de Paris, junto do Arco do Triunfo, na feérica Avenida Champs Elysée.

Ninguém se perde em Paris, premissa que pode se aplicar em antonímia: todos se perdem em Paris. Se perdem e se acham! Algo bem diferente de outras cidades como São Paulo, por exemplo de terrível orientação, sem falar que o centro é tão degradado, inseguro e assustador, por domínio e predomínio de marginalidade, mendicância e miserabilidade.

Já em Paris, cada paralelepípedo tem uma historia. Não é algo fruto do acaso, da improvisação, do laissez-faire, laisser-passer, desordenado e entrópico. Cabeças foram roladas, gerações se perderam na conservação da sua história. História de sacrifícios e feitos heroicos cantados pelas lágrimas dos poetas.

O Arco do Triunfo, por exemplo, é um monumento concebido por Napoleão Bonaparte, aquele que encerrara a Grande Revolução Francesa e a exportara além França, levando bem à frente os ideais revolucionários: Liberté, Égalité, Fraternité.

Liberdade, o grande vigor motriz das democracias modernas. Igualdade, ainda um desafio a santos e pecadores. E Fraternidade, o sonho utópico e derradeiro de convivência harmônica de povos e de homens eminentemente dispares em sonhos e angústias.

O Arco do Triunfo se ergue monumental na praça redonda Charles De Gaulle, L’Étoile, a estrela para onde convergem 14 grandes avenidas, uma delas a Champs Elysée, e as demais em dominação das batalhas napoleônicas, escritores, sábios e generais. Assim lá estão as batalhas de Iena, Friedland, Wagran, Generais como Foch o herói francês da primeira Grande Guerra, intelectuais com Victor Hugo, e outros nomes destacados como Kleber, Marceau, Carnot, Mac Mahon e La Gande Armée.

Ao abrigo do arco, o túmulo do soldado desconhecido, com chama eterna e placas de diversos feitos enaltecendo o retorno da Alsácia-Lorena ao território francês em 11 de novembro de 1918, a Proclamação da República em 4 de setembro de 1870, homenagem aos liceanos e estudantes martirizados na ocupação hitlerista, aos mortos na Argélia, no Marrocos, na Tunísia, na Indochina, e o célebre discurso do General De Gaulle convocando os franceses à resistência frente ao invasor.

O Arco do Triunfo por si só já é uma aula de História da França. Destacando vultos da ciência, das artes e da cultura francesa. Algo diferente do que estamos a ver e compreender.

Como o nosso Hotel se situava na Avenida Faubourg Saint Honoré há poucos passos da Avenida Friedland, o nosso deslocar a pé em demanda da Champs Elysée e do Arco do Triunfo era feito com poucos passos.

Difícil foi vencer os quase trezentos degraus de subida pelo interior do Arco do Triunfo. Um feito, a nunca mais repetir; um desafio extravagante por irresponsável na minha idade, enquanto deficiente arrítmico.

Não existem elevadores. Os degraus são desconfortáveis, coisa de duzentos anos de construção. A escadaria é estreita. Se os velhos retardam, a juventude se comprime impaciente à nossa retaguarda quase em atropelo. De modo que a subida terminou comigo e Tereza quase colocando os bofes, garganta a fora.

A vista de cima do Arco do Triunfo, porém, é magnífica. Da Champs Elysée ao Palácio Presidencial do Elysée, a Praça da Concórdia, o obelisco egípcio importado ou receptado por Luís Felipe, o avô do nosso Cone d’Eu, o Jardim das Tulherias e mais além o Louvre, o velho palácio de Francisco I, Paris velha d’Ile de La Cité, Notre Dame e La Conciergerie.

Um pouco a esquerda a Avenida Friedland, a Faubourg Saint Honore, e o Hotel Royal Garden onde nos hospedamos.

Visando agora a direita quase um reflexo da paisagem anterior vê-se Les Invalides e o monumento Túmulo de Napoleão.

E mais à direita, já perpendicular ao Próprio Arco do Triunfo, eis a Avenida Kleber tangenciando por final o Trocadero, conjunto de prédios e jardins magníficos, o Palais de Chaillot, atravessar o Sena pela ponte d’ Iena e chegar à Torre Eiffel.

A visão por cima do Arco do Triunfo vale à pena, pelo menos uma vez na vida. E eu que não a contemplara em outro tempo, se não fosse agora, o meu vigor físico não mo permitiria mais.

Coisa de velho, e nada mais.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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