Se o boi soubesse da própria força…

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Passada a greve geral de sexta-feira, 28 de abril, um feriadão estendido permitiu maturar os seus efeitos, uns afirmando o seu sucesso, outros reafirmando o fracasso.

Da paralização geral acontecida, os que nunca ousam ver a realidade, culpam-na por excesso de utilização de barreiras impedindo a livre manifestação do trabalhador.

“Só não foi trabalhar o vagabundo”, dizia o reacionário empedernido, culpando o Estado, por não “meter o cacete nesta praga sindicalista”.

Era a velha reedição da descerebrina frase atribuída a Washington Luís, o Presidente deposto pela Revolução de 1930, que ainda possui os seus corifeus.

Se tudo bem pudesse ser resolvido com pancada da polícia!… Iríamos adorar viver debaixo de paulada!

Ah! Se tudo pudesse ser resolvido com uma greve geral, num dia de feriado, no 1o de Maio, por exemplo, como muitos pedem em genuflexo a Manon, o deus do dinheiro, da cobiça, tão insaciável e repugnante, quão mesquinho e aviltante! O mundo com certeza não seria melhor, porque sua receita é a exploração do homem e da natureza ao seu labéu

Ah! Se a produção jamais fosse interrompida, nem tolhida por legislações e garantias trabalhistas! Este país seria grande ou miúdo?!

Aparte isso alarmam os especialistas televisivos das Centrais Patronais, que temos “um custo Brasil excessivamente impagável”.

Desde a escravatura?, pergunto eu. Não era assim o que se dizia então?!

Para muitos, com olhos entojados de estupor, “foi uma loucura a Lei Áurea da Dona Isabel! Bastava deixar valer as Leis do Ventre Livre e dos Sexagenários, e o eito estaria perfeito até 1945, por uma simples atualização matemática, afinal sessenta anos, tem a sua diferença na pacificação dos sonhos patronais brasílicos”.

Um argumento que se pode somar, sem ironias ou graça, afinal a classe obreira desunida é uma besta quadrada e sempre será vencida. Aqui e alhures!

Reluzindo o noticiário cibernético já em prévias ficcionais intergalácticas, há agora uma nova “solucionática” em busca de redução de custos: a descoberta de que existe uma bolsa de emprego mundo a fora dizendo que o trabalhador daqui produz pouco e ganha principescamente.

“O nosso salario mínimo, as Consolidações (fascistas, por inspiração Mussolínica) das Leis do Trabalho estão viabilizando o Inferno na Terra da nossa diligente Classe Produtora”. Já não temem o 4o Ciclo do Inferno de Dante, o Alighieri, que, em tese, os aguardaria, por destinado aos gananciosos.

Como a ganância nos tempos hodiernos não é vício, mas virtude propulsora do empreendedorismo, se em Catai ou no Sião, um caco de arroz remunera melhor um mongol do que um cancão qualquer daqui, seja  Boipeba ou Aperipê, porque não os fazer roer massapê, sem torresmo, grão ou farelo?

Não haverá no hoje ou no amanhã, o que aconteceu trasanteontem: um africano ou ameríndio, passando fome e que topará, mediante acordo de carências e ofertas recíprocas, trabalhar por menor remuneração salarial?

Por que ensopar o nosso operário com torresmo e farinha, fuçura e pé-de-galinha!?

É muito grude para um sertanejo forte. Ele já não era um forte, para Euclides da Cunha e os seus Sertões?

Há, portanto, argumento variado neste caminho de redução remuneratória.

“Vivemos um tempo de urgentes necessidade de restringir as conquistas sociais”, dizem os nossos políticos, o Presidente Temer à frente, sem voto e sem representatividade, mas com as rédeas do poder comandando um congresso corrupto e desmoralizado.

E o povo?

O povo é como o boi, não conhece a força que tem.

Os radicais bem o sabem ser preciso que um besouro adentre no ouvido do boi, para azucrinar-lhe os miolos.

Só assim ele desembesta e provoca as grandes revoluções que sempre acontecem inesperadamente, seja como tragédia saneadora ou farsa restauradora.

E assim quando eu vejo um comerciante reclamar da falta de polícia para sufocar o movimento grevista de sexta-feira passada, eu fico a lembrar dos idos revolucionários de 1848, quando o governo francês resolveu metralhar o povo, introduzindo uma abelha no ouvido do boi.

A resposta foi terrível: cerca de quinhentos mortos; cadáveres sendo transportados em numerosas carroças iluminadas por tochas em procissão carpida, pelas ruas de Paris, provocando uma imensa e incontrolável rebelião popular.

Como foi difícil pacificar tudo outra vez…

Não estão querendo provocar um vespeiro açulador da boiada nacional?

E quando eu vejo uma loja invadida num dia em que o bom senso recomendaria permanecer fechada, sobretudo porque o lucro não obtido hoje pode ser recomposto amanhã, eu não lamento nenhum dos lados neste conflito: nem o da intolerância gananciosa, nem o furto oportunista do contumaz criminoso.

Dizer que isso é vandalismo? Vandalismo não é roubo!

Vandalismo é destruição pura e simples, fruto da ignorância e do ódio, com o objetivo de arrasar, devastar arruinar o que não é do seu agrado.

O vândalo não é um ladrão. Também não é um grevista, este não quer se aproveitar da desordem.

O problema é que os excessos anárquicos tendem a se radicalizar nos movimentos de protestos.

É o efeito Bakunin, sem o qual a passeata vira desfile alegórico, processional  ou carnavalesco, quando não mera condução de manada, como soem os bois conduzidos no aboio aos matadouros, ou os judeus, igual a todos nos campos de extermínio, embalados por suaves acordes das câmaras mortíferas.

Com tantos radicais bem intencionados é preciso amansar o boi, minha gente!

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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