Sem o sorriso de Paulo Silvino

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No Brasil existe um Direito que é sagrado. Mais sagrado que qualquer outro previsto nas Leis e na Constituição. É o direito de protestar, de espernear, de fazer manifestação ruidosa e danosa, sem cabrestos nem rédeas.

Não existem meios de freá-las ou balizá-las. É como acender um rastilho de pólvora. Se vai ocorrer ou não uma explosão, o fim, como sempre acontece, revela mais blefe que resultado memorável.

 

Na maior parte das vezes, o protesto expõe apenas esta faceta perniciosa de falta de ordem e de responsabilidade, porque todo mundo acha, aqui no Brasil, que seus problemas individuais e corporativos serão resolvidos atanazando a vida dos que nada têm com ele.

 

E assim, basta que se reúnam uma centena ou poucas dezenas de arruaceiros organizados, para parar uma rodovia, bloquear uma ponte, fechar um hospital, uma escola, um serviço qualquer de atendimento ao cidadão, instituir uma criminosa operação padrão e até erigir uma república do apagão. E isso tudo é considerado a fina flor da verdadeira democracia; o pleno exercício da liberdade.

– Teria eu futuro político no Brasil?

 

“A democracia é o pior regime, salvo os outros”, dissera Winston Churchill na sua fleumática e racional Bretanha.  E esta frase, excluída de seu contexto, tem sido repetida bestamente a exaustão, sobretudo abaixo do equador e de baixo do Cruzeiro do Sul. E ela é tão repetida por aqui, verborrejada ora por bobos e ingênuos, ora por espertos e vilões, que nossa história é farta de exemplos rufiões, onde esta mesma democracia, ao se degradar nos relativismos inconseqüentes e irresponsáveis, rotineiramente foi derrubada por aventuras totalitárias; aqui e alhures nas nossas republiquetas luso-castelhanas.

 

E quando a democracia é estuprada, desvirtuam-na como mulher promíscua. Vira coisa de mundiça, patrimônio de ninguém; sem responsáveis, nem defensores. E sua violação em terra pátria, por todas as vezes sem exceção, foi estuprada na sarjeta, sem hemorragias e em plena luz do dia, em meio a ralos e exíguos protestos, alguns tiros de festim, e muitos aplausos de galeras.

 

E mais. Que terrível! Por ser a nossa democracia ditada por uma concepção oscilante ao alvedrio dos gostos e cheiros de cada um, ela vira tema de retórica, que a ninguém convence nem converte.

E não pode ser assim! A democracia tem que ter suas bases sólidas. Tem que ser fruto da vontade afirmativa da maioria e não de uma minoria volátil, fugaz e barulhenta, oscilante ao balanço de ventos e notícias, escândalos e aplausos. A esta minoria emergencial, sacolejante e mutável, pelo seu papel meramente agitador e irresponsável, não cabe o poder de prejudicar administrações e governos.

 

Deve na democracia prevalecer o primado da lei e da ordem, sem os quais não pode coexistir seriedade e responsabilidade.

 

Aos governos, sempre mutáveis periodicamente, ou renovados a qualquer tempo quando necessário, não podem faltar os meios necessários para executar o seu programa.

 

Os governantes, que são originários de uma vontade majoritária, não podem se curvar a minorias agressivas e aguerridas, por mais que elas lhes ensejem simpatias e tolerâncias.

 

Os governos não podem ser tolerantes com a intolerância que os impede de agir em nome do bem comum.

 

Mas, não é este o caso atual do Brasil. Os governantes são eleitos em pleitos memoráveis, mas as eleições não terminam nunca. Qualquer ajuntamento de descontentes ousa impedir o governo de governar e até ameaçá-lo com gritos de “fora!” e “cansei!”.

 

Qualquer passeata, assembléia ou vaia, como foi o caso da solenidade de abertura dos Jogos Pan-americanos no Rio de Janeiro e de um ajuntamento de “cansados” na Avenida Paulista, se acha mais decisivo que um sufrágio universal em maioria absoluta.

 

Em foras e cansaços absolutos, entendendo qualquer ajuntamento como fiel depositário de verdades, somos um país que se crê falsificado.

Se na praça, na avenida ou nas arquibancadas dos campos de futebol da vida estamos a gritar raivosos é porque as nossas leis não valem, as eleições não refletem a realidade, as instituições são corruptas, os poderes constituídos não são os desejados, enfim, o que interessa é o pensamento de algumas dezenas de radicais barulhentos ou mimados briguentos em manifestações e passeatas.

Somos o país do “jus esperniandi”. Esta faculdade amplamente utilizada pelos que já se sentem derrotados. Este exemplar mecanismo de criar e fomentar demagogos e oportunistas.

Uma foto antiga do Jornal da Cidade

 

Assim, eis o Estado refém de tudo e de todos; de professores grevistas, de médicos paredistas, de estudantes depredadores da escola pública, de incendiários de pneus bloqueando estradas, de funcionários paredistas do INSS, do IBAMA, do IPH, da FUNASA do sei-la-o-que, sem exceção, cansados e revoltados com tudo e contra tudo que lhes tolham qualquer vantagem.

 

Quando não são os grevistas, os assembleístas, os sindicalistas, os arruaceiros bem instruídos e mal educados parando tudo e quebrando tudo, irresponsavelmente, são os bem nascidos e bem polidos que, esbanjando bom mocismo, falam em ética e eficiência para justificar e semear a injustificável desordem institucional.

 

Os grevistas no serviço público, em sua prática deletéria de se contrapor à política vitoriosa nas urnas, enfiam a faca na garganta do cidadão, apenando-lhe um discutível aviltamento de salário, quando deveriam, por suprema insatisfação, pedir demissão do seu emprego, sobretudo os mais grisalhos por mais imaturos, porque este mesmo emprego, vilipendiado e mal exercido, é bastante ambicionado por milhares de jovens profissionais desempregados. Mais competentes inclusive.

 

No entanto o que se vê é o puro exercício do menosprezo ao cidadão com piquetes injustificáveis, fruto de uma democracia sem ordem, sem lei e muita esbórnia. Uma verdadeira orgia de desregramento sem protestos, afinal se uma greve vem amparada por estabilidade e inviolabilidade de salário, pede-se tudo, sobretudo o impossível e o impensável; jamais se atingindo qualquer eficiência de trabalho.

 

Para que falar em eficiência de trabalho no serviço público, se todos os pleitos podem ser perseguidos no estado permanente de indicativo de greve em ultimato, amparado na impunibilidade do servidor paredista?

 

Como pensar em qualquer ofício altruísta, quando impera o pensamento piqueteiro, ancorado numa estabilidade mancomunada com o direito mais-que-sagrado de greve!? Greve que não pode ser coibida, nem tolhida, nem, por pior, combatida! Porque o Direito de Greve é tão sagrado que ninguém ousa regulamentá-lo, sobretudo por este governo que nasceu e cresceu na greve. Dizendo inclusive em protesto que ninguém deveria ter medo de ser feliz!

 

Mas, tudo isso é filme velho. Quem foi governo e a tudo isso combatia, aplaude na oposição. Quem mais incentiva este assalto ao cidadão de remunerar dias não trabalhados, por exemplo, nesta última greve política de médicos na PMA são os partidos que se confessam da sinistra muito antes de ser feto.

 

Sim, porque aqui em Aracaju, em Sergipe e no Brasil, em fato nunca ocorrido até agora, governo e oposição são todos de esquerda. E mais; o poder está com a esquerda da esquerda, sobretudo, por aqueles que muito reclamavam e tinham para tudo uma solução rápida e precisa.

 

E estão fracassando, como esperado; ineficientes, incompetentes e sem criação. Perdendo a eloqüência reformista e já exalando em flatulência um malcheiroso mau discurso transformista. E olhe que eram os tribunos mais aplaudidos! E os aplausos estão sumidos já mal comidos por vaias de cupins.

E as vaias como os cupins são terríveis, porque fazem corroer e carcomer o nosso enferrujado dilema ideológico; somos um oceano de partidos de esquerda e a maré da vez será dos partidos radicais. Com a mesma falação de sempre; o mesmo “sarapatel de coruja”, só para usar um petisco vindo de um argumento poeirento como cisco.

 

E ainda; num bem mais miúdo cisco de pensar, só existem no Brasil espaço para políticas reformistas que invejaria socialistas e anarquistas.

Veja-se por exemplo os partidos libererais e os comunistas: trocaram de nome com vergonha das palavras liberal e comunista, um para adotar teses socialistas, enquanto o que fora stalinista, o pecebão, virou abrigo de lafundiário e oponente de sem-terras. Ou seja, tudo virou uma massa amorfa, para o engodo e a batalha da eleição.

 

Ora, se os liberais continuam a pensar no lucro, no capitalismo cruel e na extinção de algumas conquistas trabalhistas, os novos comunistas, por delírio mais-que-cruel, não conseguem nem mais se arrepiar como o canto da Internacional.

 

Um delírio sem igual, mas esperado. Porque as nossas correntes partidárias imitando os nossos rios, deságuam para a esquerda.

 

Dos rios, dir-se-á que é a geomorfologia do continente sul-americano quem empurra as suas águas para a esquerda do mapa-múndi convencional, para o oriente, tangidos por conta das nossas cotas montanhosas ocidentais. Quanto aos nossos partidos políticos, quase meia centena de siglas, poder-se-á dizer, ousando a ser xingado inclusive, que são fustigados por cotas sombrias de utopias inconseqüentes. E assim confluem todos, sem exceção, para um largo e raso estuário de esquerdas, segundo o qual o estado é onipotente para tudo resolver, menos quebrar quaisquer privilégios.

 

E o povo, coitado, embriagado por todos os sortilégios, continua vendo abestado as proclamações sucessivas de repúblicas por manifestos de eternos “cansados”; ora a cavalos, em parada de cornetas, ora com terços anacoretas e crucifixos exorcistas, ora com contrafeitos estilistas em gravatas-borboletas, solfejando todas as infernais trombetas do caos.

 

E assim nossa terra mais uma vez mostra que é fértil para o profetismo deste caos.

 

E a história se repete. E eu continuo a vê-la sem cansaço.

 

Primeiro vieram os guerreiros do meu tempo estudantil, incluídos aí o Zé Dirceu e a turma presa em Ibiúna, hoje todos bem de vida nos encantos da burguesia. Quem morreu, foi quem perdeu, na bala ou no alucinógeno, não restando nem o sonho juvenil, nem a barba hippie, levando consigo outras tesões.

 

Depois, já no meu tempo de menos sonhos e intenções, e já em plena responsabilidade viril, chegaram os Dédas, os Edivaldos e outros barulhentos que estavam mais próximo de mim fingindo querer estudar, sobretudo as Ciências Exatas. Maus alunos que não se formaram nem em Química, nem em Física, nem em Matemática, mas que cresceram na política, só para mostrar que estudo pouco, muito vale.

 

E agora, já sexagenário e semi-senil, continuo a ver crescerem os sabidos em detrimento dos que se esforçam em ser apenas sábios, corretos e competentes.

 

Vejo, e ainda não cansei, esforçados estudantes da Física, da Química, da Matemática…, tentando adquirir o Trivium ou o Quatrivium na Universidade Pública estiolada numa greve de muitos criminosos.

 

Greve que a ninguém incomoda, quando verdadeiros batedores de carteiras da formação intelectual da juventude, assaltam a estudantada mais pobre e mais carente, negando-lhe a chama do conhecimento. E tudo sem qualquer compadecimento ou apadrinhamento da mídia que em perfídia prefere destacar os arruaceiros que desejavam protestar contra o Ministro da Educação e foram repelidos pela polícia de Dirceu, de Déda e de Edivaldo. Queriam vaiar, diga-se com ênfase, um governo de muitos erros, mas um governo, único nos últimos trinta anos, que está ampliando acertadamente a universidade pública, enquanto os demais só a queriam extinguir, por inanição.

 

Porque os últimos investimentos na Universidade Pública datam do Regime Autoritário. E mais; no caso da nossa UFS, de 1968 a 1980, estes investimentos maciços eternizaram os reitorados de João Cardoso Nascimento, Luiz Bispo e Aloísio de Campos, como se só estes soubessem adquirir recursos e ampliar projetos. Quando em verdade, de la pra cá, os Reitores corriam arriado sem recursos, vendo tudo se acabar sem verbas para manutenção, porque os Presidentes da República que se seguiram de Figueiredo a FHC ficaram insensíveis com a Universidade Pública.

 

E tome greve, e tome ASUFS, SINTUFS, ADUFS, FASUBRAS e outras siglas que mais cresceram que cansanção nos campi das universidades. E assim surgiram os baderneiros de ontem e os de hoje.

 

E os baderneiros de hoje, como os de sempre, mesmo repelidos agora por seus companheiros de outrora, continuam a ser destacados em manchetes nos jornais da burguesia. Serão os nossos futuros “heróis”: a nossa enxaqueca de amanhã.

 

– Güenta!!!

Assim, tentando finalizar e sem conseguir dizer tudo o que me diverte sem cansar, direi que embora eu tivesse tudo para estar cansado de cefaléias, sem usar Melhoral, Cibalena ou Cafiaspirina, ainda não cansei.

 

Aos que afirmam em canseira, não conseguir agüentar tamanho descalabro de coisas, de idéias e de homens, repilo o seu oportunista grito de chega com a resposta jocosa do ator Paulo Silvino num antigo programa humorístico de TV:

 

– Ah! Eu não agüento! 

– Güenta!!!

 

Pena eu não ter o sorriso do comediante Paulo Silvino.

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