Ser ou não ser coerente.

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O noticiário da semana falou da gripe suína, do uso indiscriminado de passagens aéreas por deputados e senadores, uma “hipocrisia”, segundo o Presidente Lula, falou também da decretação da ilegalidade da greve dos nossos servidores públicos, do processo contra a indisciplina dos nossos policiais e acabou com o Flamengo campeão de novo, mesmo tendo feito uma campanha bisonha.

 

Da gripe suína nada tenho a declarar e do Flamengo também, mesmo porque sou contumaz perdedor botafoguense.

 

Como pretendo dissertar sobre ser ou não coerente, fico feliz em poder degustar pernis e bistecas suínas sem medos nem arrependimentos. Nessa história, já afirmam os especialistas, a carne tenra do leitão não está infectando nem pelos miúdos nem pelos graúdos.

 

De outros granudos e das passagens aéreas pagas pela nação, sabemos que os nossos parlamentares, isso de longa data, se destacam pela ineficiência e desregramento com a coisa pública. E isso vale para quase todos, ou todos sem exceção, porque procurando sempre se acha um mau uso dos dinheiros públicos.

 

Há, porém, os casos mais gritantes: um parlamentar que levou a família a Paris com sogra e cachorro, outro que levou a coorte sindical para uma reunião regada a cachaça, e até aqueloutro que namorando uma artista cobiçada na TV e nas revistas masculinas, foi com ela dar umazinha sozinha, por conta da nação e para inveja de meio tanto desta masculina nação. Tudo para provar que a esbórnia é relativa e atende àquela máxima do Barão de Itararé; “negociata é aquele bom negócio que não fomos convidados”.

 

Ou então, por mais canalha ainda: “tudo dentro da legalidade”.

 

E por acaso neste país alguém depreda a coisa pública fora da legalidade?

 

Já estão pensando em criar muitos cargos de fiscal para fiscalizar o fiscal, um tribunal de contas só para julgar os feitos dos tribunais de contas, cargos de auditoria e de ouvidoria só para auscultar os zumbidos e sumidos em todas olvidorias, em fim porque de tanta legalidade, fica difícil coibir qualquer desvio em continuidade e em perpetuidade. Ou seja, aprimora-se cada vez mais a se apropriar do erário, tudo dentro da legalidade.

 

Ah! “Pode ser legal, mas não moral”, ou um asnão moral, como o faz aquele político que perdeu o discurso em sua razão e fundamentação e está a se ver decaindo no desgosto popular por excesso de demagogia e enganação, coisa que não vem acontecendo com Lula.

 

O Presidente Lula, um sábio, fala ser este debate das passagens uma “hipocrisia”.

 

Ah! Que terrível tal exclamação! E eu acho que Lula tem razão. Não é à toa que ele nada em braçada no gosto popular. E o povo, pelo menos neste momento, não está agindo como massa ignara e tola.

 

Lula sabe que a nossa democracia é congressual, com eleições periódicas que precisam ser respeitadas, gostemos ou não dos nossos deputados e senadores.

 

Derrubar presidente da república é fácil, não enseja maiores dilemas e sempre vamos à rua sujando as paredes com cartazes reivindicando impeachment, mas não se fecha um congresso sem dilema.

 

A nossa democracia não prevê antecipação de eleições. Fechar congresso é golpe autoritário, e nossa memória não é agradável neste assunto, porque se sabe como começa e ninguém sabe como termina. O mesmo se diga com as reivindicações libertárias no seio das nossas corporações e brigadas militares.

 

Lula sabe e a imprensa bem melhor, que só há antecipação de eleições nos regimes parlamentaristas, assim mesmo quando há uma tão forte fragmentação no apoio ao governo, que se torna necessário consultar o povo para dirimir a questão. Não é o caso atual; o governo nada de braçada no gosto popular, e com o congresso o presidente sabe conviver com maestria. Daí o seu grito asquerante de “hipocrisia”.

 

Lula dá aulas de sabedoria, mas a caterva tola que o ataca não percebe. Para estes, Lula deveria ser um quixotesco paladino da ética e da moral, com uma cuia de queijo do reino na cabeça, combatendo ferrabrases moinhos de vento ou pregando a virgindade das rameiras democráticas, quando ele só foi eleito para ser um bom presidente da nação.

 

E no meu entender, de maneira geral, vai caminhando muito bem. Que o diga só um único exemplo: o aumento substancial das vagas na universidade pública. Com Lula enterrou-se a velha política de vinte a trinta anos de desbaste da Universidade pública nacional, porque antes dele só a ação do ministro Jarbas Passarinho tinha democratizado o acesso ao ensino superior com um acréscimo substancial de vagas e universidades. Que o diga a nossa UFS que só viu crescimento de 1968 a 1980, e a partir daí foi tratada a pão e água, com governos tentando sua privatização e gerando as demissões voluntárias.

 

E sem gerar traumas nem ameaças de retaliações e perseguições, Lula prossegue em sua tarefa do político bem sucedido, porque a meta de todo governante é bem exercer sua função e permanecer na preferência do eleitorado. Eis aí o porquê do ódio dos seus adversários, aí incluídos FHC e sua casta iluminada que hidrofobicamente se esgana até por ter que suportar o sorriso ameno e doce de Dona Marisa, sempre entrando muda e saindo calada, na foto e no filme, sorrindo indiferente às adulações e aos desprezos; uma primeira dama como deveriam ser todas as primeiras damas, em sobriedade e isenção.

 

Sobriedade e responsabilidade, isenção e respeito como devem se portar também as forças armadas e nossas brigadas policiais. Porque a vida castrense não é igual à civil. Ali deve imperar a ordem, o culto às regras, a obediência, o escalonamento de mandos.

 

A sociedade lhes entrega a guarda das armas para a manutenção da ordem, visando a permanência das instituições e a segurança do cidadão.

 

Não faz sentido imaginar qualquer atuação anarcossindical nas estruturas castrenses. Pensar diferente é desconhecer a longa história de corporações militares respeitadas e vitoriosas a imortalizar comandantes.

 

Shakespeare em Henry V, por exemplo, enaltece comandados e comandantes na véspera da grande batalha de Azincourt: “Nós, poucos; nós, os poucos felizardos; nós, pugilo de irmãos! Pois quem o sangue comigo derramar, ficará sendo meu irmão. Por mais baixo que se encontre, confere-lhe nobreza o dia de hoje. Todos os gentis-homens que ficaram na Inglaterra julgar-se-ão malditos por não terem estado aqui presentes, e hão de fazer idéia pouco nobre de sua valentia, quando ouvirem alguém dizer que combateu conosco neste dia de São Crispiniano.” [IV. iii.]

 

Há por acaso alguma glória similar na reunião de policiais para queimar judeus? E esta prática de queimar judeu não é hoje considerada perniciosa, intolerante e racista?

 

Que dirá o cidadão comum, que é serio, que é respeitador da lei, e que até por isso vê qualquer soldado raso, sem divisa e sem comando, como uma autoridade a seguir e acatar, que dirá este cidadão exemplar vendo um cabo trocando inconveniências com um major, um coronel apoiando o desmando do tenente, ou um aspirante, ou uma outra patente em mor desplante a sorrir, a se resfolegar e aplaudir, e estimular, e promover tudo aquilo que é condenável até numa reunião de baderneiros e anarquistas, com sons, aglomeração e ajuntamento de multidão, rasgando a farda interior e enojando a alabarda por horror?

 

E acham que disso, o bom ou o ruim são frutos da guerra de siglas políticas, uma discussão oportunista entre governo, qualquer governo e a oposição? E todo governo é igual e toda oposição também, em hipocrisia e ausência de coerência?

 

Não, meu amigo cidadão brasileiro, o militar mesmo à paisana não pode sujar a farda que o espera engomada e imaculada como assim o deve ser sempre. Quem se fez militar não a usa porque é um belo uniforme ou uma bonita fantasia. Porque quem quer usar fantasia, melhor se faz se travestindo de pirata da perna de pau, olho de vidro e cara de mau, como dizia a velha canção. E até os piratas se fazem respeitar em seu comando e hierarquia.

 

Assim sem simpatizar com os petistas ex-radicais, grandes defensores desta desordem advinda do passado, com ofertas de espadas de prata ou espadins de lata, mas mantendo a minha coerência que sempre a tudo isso reprovei, direi que independente do que se busca recuperar em disciplina no judiciário, uma corporação militar com tais atos só se sai bem menor. E pior, sobretudo, com panelaços de vivandeiras e apadrinhados.

 

Mas, pela repercussão do tema no noticiário, todo mundo aplaudindo qualquer bagunça, acho que serei muito criticado com o que estou a escrever.

 

Os inimigos de Lula ficarão raivosos porque estou a ver o seu governo com mais acertos do que erros. Os adversários de Deda, porque o querem refém dos seus discursos agora desfeitos, com igual grandiloqüência e contundência do passado. Esquecem que FHC, em mor proficiência por primeiro, desdisse tudo que escrevera e saiu chamando funcionário público de incompetente, o serviço estatal oneroso e o aposentado preguiçoso. E ficou conhecido como o mais privatista dos antigos comunistas banidos e cassados pelo regime revolucionário.

 

Quanto ao congresso cheio de mordomias e desmandos, o povo sempre lhe será inexorável, porque raros são os que ali retornam a cada nova eleição. E Lula sabe bem disso, daí clamar o tema como mera ”hipocrisia” de jornais que desvirtuam o grande debate dos reais problemas nacionais. E Lula sabe também que não há sobrevida para um presidente que entre em rota com este congresso, com qualquer congresso e em qualquer tempo.

 

Já os professores agora com o contratempo da greve decretada ilegal, eis um momento oportuno de aprendizagem com o império da lei e da democracia. A assembléia não pode tudo, e a categoria quando decai, cai no respeito baixando de categoria.

 

Não há direito de greve absoluto! Como foi bom ter um governador jurista para dar aulas aos rábulas, aos néscios e aos crápulas. Não há direitos absolutos, porque os homens, como os deuses não podem criar direitos absolutos. Afinal, nem o direito à vida é absoluto. É uma utopia ingênua imaginar que tudo se torne realizável num conciliábulo por decisão de maioria.

 

E os assembleístas, mais parecendo em concurso de aprendizes de feiticeiros a usar poções de asas de morcego e pernis de saracura para desancar o príncipe e oscular o sapo, teimam a clamar como um excesso de autoritarismo, consultar o judiciário para dirimir se a Cinderela é bela ou o é a besta fera.

 

Enquanto isso, na impossibilidade de fazerem uma maçã envenenada para aniquilar quem os reprimem, costuram dentro da boca da jia o nome dos desafetos da categoria com muitos gritos e algaravia.

 

Assim, que o tempo amaine os gritos e os ódios! O império da lei tem que ser coerente com a ordem, com o funcionamento das instituições e com o respeito ao cidadão.

 

Que o corporativismo seja repelido com firmeza se estiver em degradação; lugar de professor é na sala de aula, de médico é sanando a dor de quem sofre, e do militar é se conservar na retidão da farda e na disciplina, mesmo recebendo a vergonha de 1% de aumento salarial.

 

Fora disso é anarquia, balbúrdia e desordem.

 

No meu ingênuo entendimento minoritário, continuarei coerente em aversão a algazarras; reivindicações salariais justas não combinam com enterros simbólicos, concessões de espadas de lata ou enforcamento de Judas.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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