Ser ou Ter?

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Este é mais um daqueles assuntos de trato delicado; não para nós brasileiros, afeitos a ter sempre uma solução imediata e satisfatória para qualquer indagação que se nos apresenta. Num simples bate-papo em volta de uma mesa ou numa roda de convivas, solucionamos, sem pensar, é claro, todos os problemas que existem. Quando a indagação versa sobre o ter e o ser, logo aparece aquele que diz: “O melhor mesmo é ser, e não o ter.” Como a proferir: “Todos aqueles que têm são ou estão errados”, deixando transparecer um pouco de revolta com o ter, ou com quem tem. Ao que parece o ter é pecado e somente ser é a virtude. Todavia, paradoxalmente, mesmo condenando o “ter”, e elogiando o “ser” querem e buscam o ter. Estão sempre em procura daquilo que, sem razão e análise, condenam: um emprego melhor, um negócio mais lucrativo, um carro mais novo, uma morada maior e mais bem-localizada etc. Falta coerência, diz-se uma coisa e faz-se outra. Na realidade, ninguém abre mão do “ter”. Mas, como disse, sempre afirmam de primeira, e em tom de admoestação que bom mesmo é SER.

— Por quê? – Pergunto.

— Não, é que às vezes para sermos felizes não precisamos ter nada. Na verdade, acabamos por perceber que o mais importante mesmo na nossa vida é o ser, pois quando morremos nada levamos do que temos…

— Nem do que somos. – Respondo.

— E por que não os dois: ser e ter? Um não é a negação do outro; quem é pode ter e quem tem pode ser. A pessoa pode ter e ser, ou ser e ter sem que haja, por isso, nenhum prejuízo, nem para o “ser”  nem para o “ter”.

Esta afirmativa em tom de censura não é outra senão mais uma das formas de escapismos que usamos para justificar, às vezes, os nossos insucessos e as nossas preguiças em fazer sempre um pouco mais em benefício de nós mesmos, dos outros e do nosso mundo.

Buscamos, no conformismo de tal colocação axiomática, esconder a nossa falta de coragem e o nosso falta compromisso com a vida e a salutar ambição pelo crescer, pelo o ser e pelo ter, justificando melhor a nossa indolência, o nosso desengano e o nosso proposital desinteresse.

Por outro lado, percebemos que ser é, sim, muito mais importante do que ter, pois para ter é necessário ser. Porém, como ficou claro, somente neste caso o ser é a essência para a existência do ter. O que não implica, contudo, que eu sendo não possa ter.

O irônico de tudo isso é que todos nós queremos mesmo é, além de ser o ter, mesmo porque, é com o ter que conseguimos sobreviver. Quando os conformistas afirmam dizendo que o mais importante é o ser, e não o ter, estão querendo provar, para si mesmos e para os outros a sua enganosa satisfação, com o que já possuem e com isso pensam em demonstrar desprezo pelo que poderiam conquistar se ainda tivessem coragem para buscar. Esta declaração nós sabemos não ser verdadeira. Esta convicta afirmação soa igual àquela história da raposa e as uvas que, não conseguindo alcançar os cachos suculentos, diz: “não me interessam mesmo, pois estão verdes”. Só que com isso negam toda a essência do ser humano que é ambicioso, que busca sempre, de modo desenfreado, o “crescei e multiplicai”  bíblico. Querendo, sem pensar melhor, negar a lógica da vida que é o andar para frente, buscar, realizar, inventar, descobrir, fazer…

Não há, portanto, motivos para afirmarmos com convicção que o mais importante é somente ser ou, somente, ter. Não rivalizam entre si estas duas colocações, a busca do ter e do ser é que é o ideal: o ideal do bem, do bom, do melhor para nós e para todos e, convenhamos, é muito melhor ter e ser ou ser e ter, do que apenas ser e não ter ou ter e não ser. Não há como não acreditarmos que para sermos é também muito melhor termos, pois quem não tem como poderá ser?

Cuidado, às vezes temos que pensar e repensar certos discursos para que não nos convençamos a nós mesmos e aos outros do que é certo ou errado. Algumas mensagens ditas aleatoriamente, sem uma fundamentação lógica, podem esconder justificativas e estímulos ao conformismo com “status quo”, reprimindo, sem que percebamos, na nossa trajetória, a nossa vontade de crescer, e as boas iniciativas tão necessárias para que vivamos melhores e possamos ser mais úteis a nós mesmos, aos outros e a nossa pátria.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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