Simplesmente; Zamor.

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Nascida em 10 de março de 1906, faleceu esta semana a Professora Áurea (Zamor) de Melo. Findou uma existência plena, 103 anos, exemplo de virtude, dedicação e carinho à causa da educação em Sergipe.

 

O tempo, que tudo erode, rói e desbasta, parecia ter parado para a Professora Zamor.

 

Parecia que nada a desfigurava, enquanto mulher frágil, franzina, miúda, imutável pelos dias, anos e décadas. O rosto era o mesmo, o corpo também, a agilidade sutil do pensamento; inalterável.

 

Aos que não vêem o essencial, o importante, Zamor desde jovem, se é que a posso ver assim, cinquenta anos passados, parecia uma espécie de espiga mirrada, que se faria despercebida, não fosse o seu talento, a sua capacidade de servir e trabalhar, o seu caráter firme e o seu despretensioso agir e amar.

 

Ninguém poderá vê-la diferente, em passos largos e firmes, abraçada inseparavelmente a sua pasta de anotações e estudos, uma pasta presa sob um dos braços que sobressaia o seu caminhar único, inimitável na minha memória.

 

Um andar peregrino que, em ritmado acompanhamento da marcha, exibia uma oscilação transversal do tronco, amorável, conciliador, aconchegante no seu jeito simples, de ser Zamor, simplesmente.

 

Porque Áurea Melo não fora importante em honras e poder, mas adquirira o poder de se fazer apaixonar e se fazer bem querida e muito honrada como Zamor, corruptela do apelido familiar de “Meus Amor”.

 

Zamor que virou nome de escola; duas, é o que me parece, uma Municipal de Aracaju e outra Estadual, homenageada por seus alunos, enquanto mandatários de Sergipe e de sua cidade Capital.

 

Zamor, filha de um negociante do Aquidabã, Felício Dias Melo e de uma professora, Maria do São José de Melo, colho-o no trabalho momentoso de Osmário Santos, perpetuando a nossa sergipanidade, Zamor que fora uma das seis irmãs professoras entre nove filhas de sua mãe professora.

 

Zamor que não foi minha professora como o fora Normélia Melo, sua irmã, minha inesquecível mestra de Matemática e Geografia no Colégio Jackson de Figueiredo, ginásio do casal Benedito e Judite Oliveira.

 

Zamor que me argüira português no Exame de Admissão ao Ginásio daquele colégio. E que ficara na minha memória pela dicção precisa tornando fácil o ditado para aqueles meninos de dez, onze anos, saídos dos Cursos Primários, como eu que provinha do Colégio Brasília das Professoras Helena Barreto, Alaíde e Lourdinha Oliveira.

 

Zamor, repito, ditando compassada e claramente o tema sorteado; “O meu cofre.” Escuto-a, ainda, em eco reverberante na minha alma, a sua preocupação com a pronúncia das vogais, sem ensejar dúvidas em grafias e ortografias: ‘Ô meu côfre. Como era bónito ô meu côfre!’

 

Coisas simples que permanecem nos alunos como uma benfazeja passagem dos mestres pela vida. Saudade que plenifica o nosso ser e nos acrescenta em felicidade na caminhada do existir. Mensagem bem semeada e frutificada, que por si somente dessedenta nossas carências infinitas de imortalidade, afinal tudo é mortal, finito, limitado, na natureza, só a espécie pode gozar de uma permanência maior, e relativa, no existir.

 

E nessa existência única, Zamor ao lado da docência em História e Português, também fora Contadora – Guarda-Livros, atuando em diversos órgãos da administração pública municipal e estadual, servindo com eficiência, correção e zelo, como sói os servidores públicos deveriam ser por missão e sacerdócio.

 

Mas, a despeito de seus vários misteres, como mestra, administradora pública e líder sindical dos professores, a Professora Zamor era também uma mulher cosmopolita, universal, aberta às idéias, apreciadora da paisagem próxima e longínqua; uma pesquisadora notável em antropologia e humanidades. Era uma peregrina, mundo afora, uma espécie de Marco Pólo, conhecendo os continentes e os quadrantes do mundo. Alguém que conferia pessoalmente a realidade do Atlas, em meridianos e azimutes, em olhar sempre ávido de novas descobertas.

 

Descobertas que não amainava o telúrico amor a sua terra e as angústias de seu povo, idealizando e pondo em prática uma escola para lavadores de automóveis, entre tantas dedicações à gente humilde, gente que nunca fora esquecida pela mestra pequenina, a professora Zamor.

 

Mas, a despeito de tudo isso que por si só já satisfaria a perspectiva existencialista e materialista, da vida e do ser, satisfação surgida também pela compensação e extensão da espécie humana em maior longevidade, – cento e três anos de vida é um fato notável! – na fugacidade dos apressamentos racionais, que recusam e afastam o transcendente pouco coerente, tão assintótico quanto próximo ao irracional, aos homens e mulheres como Zamor, fica-lhes concedida a imortalidade que não é dom, mas se obtém por conquista.

 

E Zamor, para mim, homem do povo, enquanto “voz do povo e voz de Deus”, conquistou o próprio céu, apossando-se da imortalidade, como feito próprio, e exclusivo mérito.

 

Um valor doado pelo próprio Deus, já em vida, só a aqueles seus muito amados.

 

E quando estivermos olhando o céu no azul gasoso das massas atmosféricas em resposta à luz, lembremos que para além deste céu há uma nova santa, pequenina como Santa Terezinha do Menino Jesus. É Zamor que de lá está rezando e nos protegendo, todos seus amigos, alunos, admiradores que aqui restamos nos nossos caminhos duvidosos, hoje infelizes por sua partida.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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