Siriri, síriá e um filme pouco complicado.

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Dando um intervalo nos comentários de corrupção e insegurança pública, volto a discutir comportamentos insistindo em coisas amenas projetadas nos cinemas.

 

Segundo uma das amigas de Jane Adler (Meryl Streep) no filme de Nancy Meyers, “Simplesmente complicado” (It´s Complicated), toda mulher tem que fazer sexo com regularidade. Se não o fizer, diz a amiga sabida, sua vagina se recompõe, fechando permanentemente, sendo necessária uma vaginoplastia.

 

Desnecessário dizer que o riso é geral, pois o consistório é exclusivamente feminino, constituído de mulheres maduras, financeiramente independentes, mas todas carentes de companhia masculina.

Seria este um ensinamento deletério do filme “Simplesmente complicado”? Só há esperança na promiscuidade da mulher solteira, descasada ou viúva?

 

Aparentemente, parece ser essa a lição desta comédia de hábitos e costumes que ri do trauma da separação, do divórcio e do fracasso nos relacionamentos amorosos interpretada por Meryl Streep, Alec Baldwin e Steve Martin.

 

Meryl Streep, este monstro sagrado do cinema, agora não faz uma terna “conteuse” como Karen Blixen ou Isak Dinesen, tecendo memórias em “Out of Africa“ (“Entre dois amores”). Também não se apresenta na sentimental paranóia de “The French Lieutenant’s” (“A Mulher do Tenente Francês”), não porfia um amor proibido com Clint Eastwood em “The Bridges of Madison County” (“As Pontes de Madison”), nem destila ódio como a Irmã Aloysius Beauvier de “Doubt” (“Dúvida”), um dos filmes mais notáveis que assisti.

 

Agora, contrastando tais papéis dramáticos, diabólicos e até boçais como o de Miranda Priestly em “The Devil Wears Prada” (“O Diabo Veste Prada”), Streep dá um show num papel engraçado, vivendo as desventuras de Jane Adler, uma mulher divorciada que já deveria estar resolvida consigo e sua família.

 

Divulgação

A estória é banal. Streep é agora uma banqueteira famosa, com uma grande pastelaria exibindo o mais inusitado da tecnologia de doces e guloseimas. Está separada do marido Jake Adler, interpretado por Alec Baldwin, o tipo tirado a gostosão, que se acha convincente por conquistador.

 

E Baldwin convence e conquista de novo a ex-esposa, afinal esta não o esquecera de todo, tanto que lhe conservara o sobrenome e logo se fez receptiva quando houve um reencontro por conta da festa de formatura de um dos filhos.

 

Sim, porque o casal tem três filhos, uma garota que está prestes a casar, e dois rapazes; todos com mais de vinte anos e que ficaram cerca de dez anos afastados do pai.

 

O divórcio se dera dez anos passados, porque o conquistador Baldwin largou Streep por Agness (Lake Bell), uma garota vinte anos mais nova, como é comum aos homens inseguros em crise de meia idade.

 

E como ordinário e rotineiro também, a troca se revelou um desastre. Primeiro porque Agness logo o desprezou apaixonada por um rapaz que lhe plantou um filho de nome Pedro (Emjay Anthony), um verdadeiro capeta. E depois porque os dois, mãe e filho, foram recebidos pelo enganado coroa Baldwin, que passou a criar Pedro como se fora seu filho.

 

Enquanto isso, Streep se desenvolvia como empresária de doces e salgados. Existencialmente, porém, as rugas a torturam. Acha que é o momento de uma plástica para corrigir um olho que se lhe parece dilatado.

 

Consultando um especialista de dondocas, o cirurgião quer lhe esticar todo o rosto. Uma nova face é possível com cortes na testa e repuxados por traz da orelha. Tudo bem simples e nada traumático, a menos de uma possível insensibilidade frontal e uma dor de cabeça por três a seis meses.

 

Como sofrem estas mulheres que se enganam com esticamentos e levantamentos de fenecidos!

 

Por outro lado o conciliábulo feminino das amigas vê na ausência do sexo regular em Streep a real razão de tudo. “Você não quer que eu lhe apresente um cara que conheci na internet e que não simpatizei? Você bem que podia sair com ele! É preciso sair com alguém! Qualquer um!” Soluciona uma das amigas.

 

Mas, a formatura do filho reúne o casal Adler, e eis Baldwin de novo apaixonado por Streep como nos velhos tempos se divertindo sem regras, com direito a sexo escondido e até baforadas de maconha.

 

“Que formidável! Isso é genial! Ser a outra de seu ex-marido é trair aquela que mais odiamos!” Grita a amiga exultante na congregação de descasadas e/ou descoladas ao saber da aventura inusual. E acrescenta eufórica: “Sem falar que você não precisa cozinhar, nem cuidar de cueca, limpar a bagunça ou sequer dormir com ele. Isso será tarefa da esposa que o devolverá limpo e fagueiro”.

 

A julgar por tal enleio, os traumas e dores são esquecidos como se não restassem fissuras e resistências. E a coisa não é bem assim.

 

“N’y touchez pás, Il est brisé” (Não o toques, ele está quebrado!), diz o célebre poema “Le vase brisé” de Sully Proudomme, em que as fissuras do coração são comparadas à pequena cesura do vaso que foi ferido sem que ninguém o visse nem dele ouvisse entoação de dor.

 

Vale repetir o poema:

 

Le vase brisé

 

Le vase où meurt cette vervaine

D”un coup d”éventail fut fêlé ;

Le coup dut l”effleurer à peine,

Aucun bruit ne l”a révélé.

 

Mais la légère meurtrissure,

Mordant le cristal chaque jour,

D”une marche invisible et sûre

En a fait lentement le tour.

 

Son eau fraîche a fui goutte à goutte,

Le suc des fleurs s”est épuisé ;

Personne encore ne s”en doute,

N”y touchez pas, il est brisé.

 

Souvent aussi la main qu”on aime

Effleurant le coeur, le meurtrit ;

Puis le coeur se fend de lui-même,

La fleur de son amour périt ;

 

Toujours intact aux yeux du monde,

Il sent croître et pleurer tout bas

Sa blessure fine et profonde :

Il est brisé, n”y touchez pas.

 

Sully Prudhomme

A jarra fendida

 

A jarra em que este ramo de verbenas

Fenece, por um leque foi rachada:

O choque foi na superfície apenas,

E não se ouviu ruído de pancada…

 

Mas aquela fratura desprezível,

Incisando o cristal, tanto cresceu

Que, em progressão fatal, imprevisível,

Fez toda a volta, e a jarra se fendeu.

 

A fresca linfa aos poucos foi-se embora;

As flores estão já quase sem vida,

E ninguém notou até agora…

Ai! não a toques, que ela está fendida!

 

Da mão querida quanta vez um gesto

O coração magoa e o faz sofrer…

E, em breve, sem queixume e sem protesto,

As flores desse amor vão fenecer!

 

Intacto sempre, ao parecer do mundo,

O coração também guarda escondido

O seu sofrer, o seu penar profundo…

Ai! não o toques, que ele está fendido!

 

( Ttradução de Heitor Práguer Fróis )

 

Mas, o filme não é uma tragédia, nem finda com lágrimas.

 

Baldwin deseja o que é impossível; conduzir tudo como é ordinário nas relações adulterinas: viver uma vida de desculpas e mentiras.

 

E isso é mais que complicado. É difícil alguém ser aceito assim.

 

Por outro lado há a inserção de Steve Martin, um divorciado sofrido também, misturando os desencontros e despertando a atenção de Meryl Streep que, incapaz de ficar sozinha, bem poderia encerrar a fita cantando igual ao nosso cancioneiro popular:

 

Ó siriri, meu amor, ó siriá!

Roubaram o meu amor, e me deixaram sem amar.

Eu agora arranjei outro, quero ver você levar.

 

Muitos risos de uma fita alegre e digestiva, mas que logo restará esquecida.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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