Slow Fashion para desacelerar os delírios de consumo

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Entramos no shopping para conferir uma exposição, mas já que estávamos por lá mesmo, por que não procurar por uma sandália nova? “Quando uma ‘Havaiana’ te faz passar vergonha na rua, talvez seja hora de trocá-la”, justificou um amigo de índole pouco consumista e pé tamanho 44. Como foco quase nunca é o forte de quem caminha por um centro comercial, fomos parando aqui, ali, até que, numa loja de artigos esportivos, estávamos diante de uma arara repleta de calças jeans – e eu que pensava que esse segmento estava restrito à venda de peças de lycra e tactel.

Maria Bonita lança linha MB Infinito com pegada Slow Fashion (foto: divulgação)

Diante do entusiasmo de alguém com hábitos de consumo tão diferentes do meu, tive que perguntar o que aquela marca, uma tal de Timberland, tinha de tão atraente. Até então, para mim, era só mais uma calça jeans vendida por cento e poucos reais. A resposta surpreendeu por ser simples e óbvia. “Durabilidade”. Pois é. Em tempos de fast fashion, com lojas renovando suas araras freneticamente para acompanhar as tendências da última temporada, há consumidores que, antes de tudo, buscam qualidade e prezam por um consumo consciente. E isso tem tudo a ver com um movimento que surgiu ainda lá na década de 80, o Slow Food, se estendeu para muito além dos hábitos alimentares chegando até a moda através do Slow Fashion e alcançando o ramo científico com o Slow Science.

Como o próprio nome sugere, o Movimento Slow – em tradução literal, "ir mais lento" – busca a libertação do culto à velocidade. É provável que toda essa história tenha adquirido novos contornos desde que o italiano Carlo Petrini começou um protesto contra a abertura de um ponto do McDonald’s na Praça da Espanha, em Roma. O que Petrini queria era privilegiar a comida local, defendendo os interesses dos produtores da região que produziam dentro de um regime sustentável. Hoje, Slow Food continua valorizando alimentos orgânicos e indo de encontro à produção em massa, mas também evidencia a importância de sentar à mesa com a família e amigos e apreciar verdadeiramente a refeições. Tudo isso sem que o evento seja cronometrado pelo tique taque do relógio.

Agora já não é preciso muita imaginação para deduzir que Slow Food e Slow Fashion guardam muitas semelhanças. A mais evidente é a oposição à produção em larga escala que, como se sabe, barateia os custos, mas, em alguns casos, também pode ser muito problemática. Em 2010, a agência de notícias “Repórter Brasil” publicou uma matéria escancarando as péssimas condições de trabalho de uma confecção em São Paulo, que produzia peças para a Marisa. No local, foram encontrados vários documentos que, segundo a fiscalização, consistiam em “fortes indícios de tráfico de pessoas” e registros de salários que não chegavam à metade do salário mínimo. Já em 2011, foi a vez da quase idolatrada Zara ter o seu nome comprometido por manter trabalhadores em condições de escravidão contemporânea dentro da sua cadeia produtiva.

Corantes naturais dão cor às peças de Flávia Aranha (foto: divulgação)

Os adeptos do Slow Fashion preferem roupas feitas artesanalmente e não dispensam a possibilidade de vestir a produção local. Também valorizam a qualidade antes da quantidade. Aqui faz muito mais sentido investir em peças que durem mais e que sigam imunes às temporadas de moda. Comprar roupas em brechós, trocar peças entre amigos, doar o que ficou encostado no armário e até mesmo fazer as próprias roupas também são atitudes caras ao movimento de pegada sustentável. Desacelerar os delírios de consumo também seria promover o estilo pessoal e considerar o que realmente é importante na hora de vestir.

Vale comentar que o Slow Fashion não é um movimento longe de quem produz moda e há marcas desenvolvem linhas levando em consideração esse conceito. A estilista Flávia Aranha, que já fez parceria com a Osklen e passou pela equipe de estilo da Ellus, cria suas coleções a partir de materiais orgânicos e tingimentos com corantes naturais. Suas modelagens atemporais e despretensiosas evidenciam o conforto, uma das principais características da marca, e revelam a sutileza com a qual ela leva todo o processo de fabricação. Já a Maria Bonita lançou a coleção MB Infinito com peças de modelagem clássica costuradas em tecidos como tricoline de algodão egípcio e malha de bambu sustentável.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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