Somos mais parisienses que marianenses?

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O mundo está perplexo. Os recentes atos terroristas estão pintando o coração de todos com as cores francesas; azul, branco e vermelho.

Até a Marselhesa está sendo cantada em toda latitude e longitude universais. Todos somos franceses, sem exceção!

Sem exceção? Claro que há exceções! E tanto as há que os atentados se sucedem exasperando e desesperando o mundo em incredulidade!

O que leva alguém a estar insatisfeito com o modo de viver ocidental, e em particular com “le savoir vivre parisien”, a arte de viver bem, de saber conviver do parisiense, sempre a primar com um discurso de tolerância, fraternidade, e respeito mútuo?

Pode alguém estar tão insatisfeito com esta ambiência de liberdade, onde todos são livres para o bem e para o mal?

Pode este mal desaparecer vencido apenas pelo bom mocismo que teima em desconhecer a história do mundo e suas misérias, imaginando que tudo será remido com rala pintura guache, em azul, branco e vermelho, desde que seja colorindo a Torre Eiffel, a Estátua da Liberdade ou o Cristo Redentor, como sinal de pesar e solidariedade?

Por acaso estes atos terroristas não são apenas a escaramuça de uma guerra não declarada contra o modo de viver ocidental, esta ousada maneira burguesa de viver diuturnamente censurada por tantos santos, pregadores e fanáticos, infindável legião da inimigos da sociedade de consumo vigente, tida não só como materialista e ateia, como injusta e humanamente excludente?

Não estão estes terroristas, se é que podemos chamá-los assim, sem ferir pruridos de sensibilidade e coceiras politicamente corretas, não estão tais celerados dando a seu modo sua resposta a tantos protesto de insatisfação generalizada? Uma resposta tresloucada de modo a ser universalmente ouvida e restar temida?

E entre tremores e temores, podemos brincar com tais facínoras, imaginando que todo homem é bom, o crime só existe perante a mutabilidade legal, e o erro sempre tem que ser perdoado, com preces inclusive?

Por ventura neste tempo de muitas leis e poucos deuses, não está o erro passeando livre, leve e solto ao sabor da gesta e da festa, e da funesta interpretação de cada um?

Não está o mundo ainda, entre rabiscos azulinos, brancos ou sanguíneos, mostrando a própria  inépcia em lidar com suas diferenças?

Não é temerário pensar que a ameaça poderá ser eliminada sem que percamos parte da nossa individualidade, fugindo para cidadelas fortalecidas rastreadas por câmaras e escutas, nossa guarda e amparo, num império da bisbilhotice sem fim?

E tal bisbilhotice não está cada vez mais bem vinda e requerida, violando a intimidade comum, mas zelando pela insegurança nossa de cada dia?

Que se pode dizer dos alarmes, câmaras escondidas, detectores de localização, crescente parafernália que nos acompanha, só porque ficou inviável viver sem tais censores num mundo sem lei nem ordem?

Pode-se confiar nos poderes constituídos incapazes em tornar o mundo tolerável?

O que dizer de nosso aquém Verde e Amarelo, nesta terra amorável em que a mulata bamboleia, a morena sapateia, e o erário é saqueado sem peia, tudo na indiferença nossa de cada dia que nos ensinou a protestar com moderação, queimando pneus ou ônibus, só para sair no rádio e na televisão?

Por acaso alguém pensa em produzir algum ato terrorista em vendo tantos desmandos noticiados e tão pouco apurados?

Não. Ninguém mata porque questões tolas como a má utilização dos recursos públicos permanecendo sem apuração nem termo. Do bom bocado, cada um gostaria de um naco.

Não se diz que é permitido ao manipulador de mel ou chocolate lamber os beiços de quando em vez?

E não havia perdão igual àqueles do mel e do chocolate para os que num bom quilate, por propina, gorjeta ou biscate, requeriam sua comissão, a título de participação na verba pública bem orçada, e garfada sem ser notada?

Novidade jamais repudiada nem insinuada com protestos e passeatas, e que só mudou agora  porque surgiu a figura “asquerosa” do delator premiado, aquele “cabueta” do antanho. E com ele as condenações do juiz Sergio Moro do Paraná, um ponto singular da nossa magistratura em presteza, coragem e eficiência.

No mais somos uma perene indiferença. Pintamo-nos em azul, branco e vermelho, por modismo justo de fora, mas somos incapazes de nos enlamear com os nossos traumas. Com o desastre de Mariana, por exemplo, fruto da irresponsabilidade de tantos homens que não se pensam terroristas mas, que geraram um terror pior, porque armaram uma bomba para ser disparada a longo prazo, e não foi o abominável Estado Islâmico o responsável.

Aliás, não há ninguém que se denuncie nesta cascata de erros, e só agora se sabe que existia tal barragem em condições precárias armazenando tamanha toxicidade.

Poder-se-ia pensar que ali jazia a céu aberto até Arsênico, Chumbo e Mercúrio, elementos tão letais quão incompatíveis com a vida como um todo?

Não houve um excedente desleixo em que nos inserimos todos, a merecer um banho de lama notável, como aquele visto rapidamente na televisão, sujando as paredes da Vale?

Não deveria tal protesto estender-se sobre outras paredes em tantos órgãos gestores e fiscalizadores?

Não! O protesto de lama na Vale foi coisa de sujos e arruaceiros, mesmo porque só as flores são benvindas no riso e na dor, e a mina tem que voltar urgentemente ao seu labor, senão empregos serão perdidos e impostos não serão arrecadados.

Sim! O Cristo Redentor pode ser pintado de azul, branco e vermelho, toda a noite nestes tempos sombrios. Muito antes, porém, deveria o Cristo ser exibido com sobriedade e lamentação em alva e alma enlameadas.

Todavia, como poucos pensam assim, enlameado sobrou apenas o Rio Doce com a sua mancha seguindo para o mar.

E a mancha só não chega por aqui porque o Rio São Francisco está mais a oeste da nascente do Rio Doce. Coisa de geografia apenas; fruto de traçado geológico que o homem explica mas só o divino justifica.

O que Deus não explica é o agir humano, seja ele terrorista ou nem tanto: Se todos somos parisienses em protestos bleu, blanc et rouje, o que justifica a nossa indiferença com a mancha crescente de lama enferrujada?

Somos mais parisienses que marianenses?

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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