Sororidade X Cancelamento

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As duas palavras do momento surgiram a partir do meio cibernético. Sororidade, que veio da quarta onda do movimento feminista, por volta de 2012, prega a ideia de irmandade, aliança entre as mulheres, a partir de grupos criados em redes sociais com o intuito de promover o acolhimento entre as mulheres e sugerir formas de promover o cuidado e união fraterna. Já o termo cancelamento ou cultura do cancelamento, surgiu em meados de 2017, com boicotes a celebridades e marcas que cometeram algum tipo de violência, uso inadequado de expressões ou reprodução de discursos de ódio etc. dentro e fora da Internet.

A Sociologia me ensinou que vivemos em uma sociedade complexa, com diversidade e contextos variados, além múltiplas identidades. Ou seja, um conceito nunca dará conta de abarcar a luta de todo mundo. A sororidade, por exemplo, não vai criar uma ciranda de paz entre todas as mulheres que lutam por causas distintas e que moralmente também são diferentes, isso é utópico. Ao passo que o cancelamento não irá resolver os problemas estruturais e desigualdades só porque as pessoas e marcas são excluídas, por um tempo, do meio cibernético a partir de um erro ou crime cometido.

Mas o que esses dois conceitos têm em comum? Ambos são o meio e não o fim. Por exemplo, a sororidade não deveria ser utilizada como justificativa para silenciar sobre comportamentos que muitas vezes são abusivos entre mulheres, mas sim como um meio para repensar estratégias de não competitividade, de tentativa de compreensão dos meios e lutas distintas, para então, compreender que exercer a tal sororidade não significa segurar a mão ou ser fraterna com alguém que cometeu um erro com você ou com alguém que você ama, mas compreender os limites e, principalmente, a não reprodução da violência a partir de situações do passado, como forma de romper com ciclos abusivos e destrutivos entre as mulheres. Mais uma vez, isso não significa dar as mãos e um abraço na coleguinha que um dia foi abusiva com você.

O cancelamento vai pelo mesmo caminho, e não estou aqui dizendo que é certo deixar para lá quando alguém deve ser responsabilizado por atos racistas, homofóbicos, de violência psicológica, física, intolerância religiosa, entre tantos outros crimes. Estou dizendo que é necessário pensar em medidas educativas que gerem a mudança desse tipo de comportamento, porque só o cancelamento e a exclusão não vão resolver a grande questão que é a de como vamos desconstruir e modificar comportamentos sociais que causam danos à sociedade.

Por fim, é necessário compreender que esses dois conceitos e a forma como eles atuam na sociedade estão longe de serem rasos. E essa é a maneira pela qual estão sendo abordados, como simples, resolutivo por conveniência ou momento, enquanto a estrutura social segue fortalecida, pois muitas condutas apenas estão camufladas nas redes, mas seguem sendo reproduzidas na vida fora das telas. E é justamente com isso que devemos nos preocupar, pois o silêncio e as máscaras sociais utilizadas na Internet são a prova de que nossa sociedade ainda tem muita dificuldade em sair do óbvio, e compreender de maneira profunda e real as diversas formas de expressão, de combate à violência e desconstrução de padrões abusivos. O ego, mais uma vez, não deixa.

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