Sorrindo como Francisco

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Quase dois mil anos de Igreja, estima-se que o primeiro Papa foi São Pedro, do ano 30 a 67, quando foi martirizado por Nero, o quinto dos doze Césares de Suetônio.

De São Pedro até os dias atuais o Papa Francisco tem a numeração 262, sem contar alguns antipapas, que por duplicidade e divergência, fragmentaram a Igreja, por injunções políticas de variada justificação.

Considera-se de São Pedro o mais longevo pontificado: 37 anos. Depois dele seguem Pio IX (1846-1878; 31 anos, sete meses e 23 dias), o polonês João Paulo II (1978-2005; 26 anos, cinco meses, 17 dias) e Leão XIII (1878-1903; 25 anos e cinco meses).

Se tais pontificados foram longos outros foram bem curtos. Estêvão II, por exemplo, não chegou nem a ser consagrado, porque morreu três dias depois de eleito. Urbano VII, com 13 dias, Bonifácio VI, 16 dias, Celestino IV, 17, ensejando em alguns casos uma contagem dúplice, sem falar de outras modificações de modo a retirar da listagem alguns nomes, como Pio, Félix, cerca de quarenta antipapas, inclusive um Papa João XX, que não existiu, e até uma papisa de nome Joana, ou antipapa João VII, cujo papado aconteceu entre 850 e 858, entre Leão IV, um santo, e Bento III.

Lenda ou verdade, a história da papisa Joana é tema rotineiro na ficção e na realidade.

Que o diga só para citar dois exemplos: o drama Yentl, de Isaac Bashevis Singer, e o de Grande Sertão Veredas, de Guimarães Rosa, com Riobaldo e Diadorim.

Na versão cinematográfica de Yentl, Barbra Streisend vestida de homem como Anshel encanta Avigdor e Hadass.

Em ambos os casos, vale lembrar, uma mulher se passa por homem, como foi o caso da papisa Joana.

Yentl é filha de um rabino, uma jovem inteligentíssima, que deseja aprofundar-se no estudo do Talmude. Como isso só é facultado aos homens, adota identidade masculina, mudando o nome para Anshel, e vai para outra cidade se especializar na Torá. Logo faz amizade com um colega, Avigdor, que é noivo de Hadass. Um trio amoroso acontece com Yentl se apaixonando por Avigdor, e Hadass também se apaixonando por Yentl. E o notável da novela de Singer é que o noivado de Hadass com Avigdor é encerrado por imposição familiar judia. Os pais da moça não querem Avigdor como genro, porque um seu irmão se suicidara, mas querem Yentl. A novela, porém termina bem, sem ninguém chegar às vias do ato, cada um seguindo o seu caminho. No caso, Yentl deixa de ser Anshel, volta a ser ela mesma, e vai viver nos Estados Unidos da América, o sonho de meio mundo de gente.

No caso de Guimarães Rosa, o tema se espraia no grande desertão, de Grande Sertão: Veredas, onde o bicho homem resiste campeando.

Diadorim é mulher, vestida de homem com gibão e faca de esfolar na cintura com o nome de Reinaldo. Tem um olhar terno, delicado, mas está vestida assim para vingar a morte do pai.

Bruna Lombardi, que é a Diadorin da Rede Globo, em traje de homem, mas com fala mansa de Reinaldo, engana a todos, inclusive Tony Ramos como Riobaldo-Tatarana. 

Riobaldo, Tatarana é bicho bruto Urutu-Branco. Cai de amizade por Reinaldo-Diadorim, que era destemido e calado e “não se fornecia com mulher nenhuma”. É ele que conta a história de uma paixão crescente incontrolável. Quanto mais o tempo passava assim confessava o fascínio: “Mas eu gostava dele, dia mais dia, mais gostava. Digo o senhor: como um feitiço? Isso. Feito coisa-feita. Era ele estar perto de mim, e nada me faltava. Era ele fechar a cara e estar tristonho, e eu perdia meu sossego”. Coisa de paixão irreversível. O desfecho se dá na morte de Diadorim, matando antes o assassino de seu pai. É quando Riobaldo despindo Diadorim descobre toda a verdade de seu sonho inconcluso e jamais esquecido.

No caso da Papisa Joana, por verdadeiro ou lendário, a história possui várias versões. Joana teria vindo do oriente, de Constantinopla, se fazendo passar por homem para escapar à proibição de estudar imposta às mulheres. Extremamente culta, possuía formação em filosofia e teologia. Passando por monge, chegou a Roma, surpreendendo os doutores da Igreja com sua sabedoria.

Em outra versão, atribuída a Martinho de Optava, Joana seria alemã, mas filha de ingleses, nascida em Mainz. Na idade adulta conheceu um monge, por quem se apaixonou e foi com ele viver na Grécia. Depois foram para Roma e para evitar escândalos, Joana passou a vestir roupas masculinas, se passando por monge, com o nome de Johannes Angelicus, no mosteiro de São Martinho.

Papisa Joana com tiara em montaria demoníaca.

Tanto numa versão como na outra, Joana se torna Cardeal e depois Papa, sendo João VII, eleito por unanimidade, após a morte de Leão IV em 17 de julho de 855.

Diferente de Yentl e até Diadorim, Joana teve um fim inglório. Grávida de um monge ou de um oficial da Guarda Suíça, Joana esconde a gravidez até quando acontece o parto abortado em plena cavalgada de séquito papal, numa procissão entre o Coliseu de Roma e a Igreja de São Clemente, dando à luz perante a multidão, sendo apedrejada pelo populacho até a morte.

Verdade, conjectura ou simplesmente maldade, há quem afirme que durante um longo tempo, após a eleição de um novo Papa, um dos Cardeais tinha que apalpar a genitália do eleito para conferir sua masculinidade. Neste caso o ritual se concretizava com a frase decisória: "Duos habet et bene pendentes” (Há dois e bem pendentes), com o responso “Deo gratias” (Graças a Deus), do Conclave.

Se houve um Papa João VII, que foi Joana, ou foi simplesmente um antipapa, concretamente sabe-se que a numeração dos papas de nome João sempre ensejava uma dúvida. Tanto que não há um Papa João XX porque o português Pedro Julião, ao se tornar Papa em 1276 adotou o nome João XXI, pulando do XIX para o XXI, saneando a contagem.

Todo Papa adota um nome para o seu pontificado. O mais preferido tem sido João. O último deles, Ângelo Roncali, adotou o nome de João XXIII, foi o santo reformador do Concílio Vaticano II, mais de quinhentos anos depois de João XXII.

O nome escolhido por um Papa geralmente é dedicado a outro Papa ou um Santo da Igreja.

Na ficção de Morris West, o Conclave elege um padre Russo, que adota o nome Kiril. Era um tempo em que a União Soviética se fazia cada vez maior no domínio do globo. A ficção entronava Kiril como se fora uma nova ordem na Igreja, suscitando a reunião final diante de um só rebanho e um só pastor.

Há quem diga que isto acontecerá com o Papa Pedro II, que aí encerraria o papado, ensejando diversas suposições de caráter escatológico, com o mundo se acabando, o lobo papeando com o cordeiro, a raposa com a galinha e o bicho homem devidamente santificado.

Santificação à parte a história da Igreja fala de grandes Papas e de outros cuja corrupção se fizeram notórias de grande mau exemplo.

Na história recente a Igreja teve Papas dignos e importantes, embora sempre se achem os críticos, aqueles que querem os homens bem maiores que suas próprias intenções.

Pio IX é considerado um homem dogmático, autor do Sillabus, denunciando os erros do liberalismo moderno sob Infalibilidade Papal em termos de fé, proclamou o dogma da Imaculada Conceição, a encíclica Ineffabilis Deus, temas que se contrapõem ao laicismo e agnosticismo, que tudo relativiza e nivela. Também perdeu os territórios Papais, com a unificação italiana encetada por Vitor Emanuel, o Conde de Carvur e Giuseppe Garibaldi.

Pio X, o criador da Diocese de Aracaju, homem que conciliava ternura e autoridade.

Leão XIII, o Papa da Rerum Novarum, a resposta tardia, e por isso bem mais sábia, para as demandas sociais.

Bento XV, convivendo com a 1ª Grande Guerra, a Revolução Bolchevique, que tanto suscitara paixões.

Pio XII, convivendo com outra guerra, a segunda, cujos traumas ainda hoje não foram esquecidos.

João XXIII, o terno Papa que convocou o Concílio Vaticano II. Paulo VI, aquele que o concluiu. João Paulo I, o Papa que só fez sorrir, João Paulo II, o Papa peregrino que veio da Polônia distante e fria, e com ele o sindicato livre, “Solidariedade”, a queda do muro de Berlim e a derrubada comunista de todo leste europeu.

E Bento XVI, o notável teólogo de seriedade impar, em firmeza, integridade e desprendimento. O Papa que ousou se confessar frágil e soube renunciar, deixar a mitra o báculo e a estola para que outro melhor lhe seguisse.

E agora Francisco, um Papa argentino que assume com muitas esperanças.

Francisco, o Santo de Assis, nunca fora um nome adotado por um Papa.

Nome que enseja um grande desafio, qual seja o desapego aos bens materiais e a excessiva humildade, pois o Santo de Assis era um homem de sacrifícios inauditos, até hoje inimitado.

São Francisco de Assis, patrono dos animais e do meio ambiente.

Francisco, mais das vezes, se fizera incômodo ao papado, que no seu tempo era excessivamente temporal e principesco.

A presença dele e de seus amigos era tão incômoda que, diante de suas vestes sujas e rotas, a Cúria recomendou que fosse pregar aos porcos. E Francisco com seus irmãos foi para ali, de lá voltando mais sujos a requerer audiência papal.

E como o incômodo estava suscitando apoio da população, o Papa Inocêncio III manda que se banhem e os recebe em audiência. Eles querem apenas a autorização de uma ordem de frades menores dedicado à pobreza, conforme regulamento anacoreta.

São Francisco de Assis é o modelo maior de santidade da Igreja. Nenhum outro surgiu igual nestes últimos 800 anos, nem antes. E talvez por tal respeito, ninguém ousara adotar o nome Papal de Francisco.

Agora temos um Papa Francisco. Ele vem da Argentina e está sendo louvado por ser um homem simples, alguém que paga as próprias contas e anda até de ônibus.

Todos queremos a Igreja em acordo com os nossos gostos e vontades, inclusive que interfira na questão das ilhas Falklands-Malvinas, pedido primeiro da Presidente Cristina Kirchner

De Francisco, o Santo de Assis, dizia-se ouvir a voz de Deus que pedia a reconstrução da Igreja. Igreja, que ele pensava inicialmente ser a Capela em ruinas na qual se abrigava. Depois ele percebeu que Deus lhe pedia outra coisa; a reconstrução de Sua Igreja, que naquele tempo confundia o Evangelho com a glória faustosa de uma entidade imperial.

Concretamente, de Francisco ficou sua palavra e exemplo, nem sempre cumpridos, quer no tempo de sua vida, quer depois, e sobretudo hoje, nestes tempos agnósticos.

Inabalável a tudo isso, a Igreja instituição milenar sobrevive por ser divina e humana; quase dois mil anos de caminhar progressivo.

Por ser divina, a Igreja supera seus erros e se renova, com a chama do Evangelho sendo ânsia e desejo da humanidade.

Por ser humana, a Igreja erra. Mas constrói e prossegue.

Por sua humanidade claudicante as Catedrais são erguidas, em esforço de superação e vontade.

Neste particular até Papas como Alexandre VI e Júlio II, tão considerados promíscuos, belicosos, simoníacos e libidinosos, foram a razão de tantos pregadores mundo afora, como São Francisco Xavier, Santo Inácio de Loyola, Manuel da Nóbrega, José de Anchieta e tantas almas peregrinas convertendo os homens em todos os quadrantes da Terra.

Com eles, sem eles e até por causa deles, a presença da Igreja é notável no mundo, mesmo que os seus inimigos a denigram e menosprezem.

Assim eis Francisco, o novo Papa; uma ousadia, poder-se-á dizer diante da perspectiva de uma sua ação franciscana.

Da Igreja, os governantes do mundo querem o despojo do sacro e do santo, entendido como fora de moda. Querem eximir-se de sua orientação e ordem, enquanto mãe e mestra. Querem-na humilde apenas.  Um desafio para o Papa Francisco, que tudo ouve e sorri, apenas.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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