Tomando um sapo por partitura.

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Tomando um sapo por partitura.

 

Há uma diferença muito grande entre o autor e o ator, o compositor e o tocador, o trovador e o cantador.

Shakespeare fala por Macbeth, por Hamlet e por Viola, já o ator qual radiola verbaliza repetidamente o que está no script, e quando dele sai comete cacos. E o caco não serve para nada, porque com cacos tudo é imperfeito.

 

A música perfeita é eterna.

 

 

Partitura de In questa reggia de Giacomo Puccini

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O intérprete é que pode mudar para pior, ou melhor. Se o musicista ou o cantor altera a composição ele pode estar assassinando formas e idéias bem concebidas. Porque embora o cantar seja sinônimo do poetar, os cantores nem sempre cometem poemas. Aliás, na maior parte, cantadores e músicos revelam mais habilidade que criatividade.

 

Federico Fellini

 

Neste particular o famoso filme de Federico Fellini, Ensaio de Orquestra, denota este fato apresentando, virtuoses de corda e sopro, das madeiras aos metais, passando pelos percursionistas, indivíduos às vezes miúdos e mesquinhos, mais habilidosos que criativos. Alguns têm até pouca inteligência, outros são replenos de vaidades e ainda há muitos que são ternos e até ingênuos.

 

No filme de Fellini há de tudo, desde a soprano neurótica em meio à TPM, ao sindicalista que condiciona o amor à música aos recomendados descansos contratuais de trabalho, passeando pela agressividade do tocador de pífano e pela ternura do contrabaixista e do bumbeiro. Ou seja; homens simples com desejos vários e carências infinitas, reunidos para interpretar harmonias desconhecidas, em acordes que sozinhos, nada, ou quase nada, representam. E esta desordem é um desafio para o maestro. Desafio, porque instrumentos e instrumentistas, e o próprio maestro também não podem cometer o desvario de se afastar da partitura.

 

Letra e música de La Marseillaise são eternos. 

 

Porque mudar a música é antes de tudo uma carência de criação, embora se queira negar isso com as chamadas fugas e variações, onde por regra geral alguém se apossa de um tema harmonioso de um outro para se equilibrar como bengala.

 

 

Sem ser especialista no tema, entendo que certas variações e fugas temáticas se revelam piores que o plágio. Porque o plágio nada muda, apenas falsifica a autoria. É uma fraude. É um crime. E o crime quando descoberto enseja sanções e desmoralizações. Já o que altera a música trai a idéia escarrando a obra.

 

Veja-se a título de exemplo o nosso Hino Nacional. A música é bela, concebida por Francisco Manuel da Silva (1795 – 1865) em 1822, para comemorar a Independência do país.

 

Segundo a Wikipédia, a enciclopédia livre da internet; “essa música tornou-se bastante popular durante os anos seguintes à independência, e recebeu duas letras. A primeira letra foi produzida quando Dom Pedro I abdicou do trono, e a segunda na época da coroação de Dom Pedro II. Ambas as versões, entretanto, caíram no esquecimento.

 

Após a Proclamação da República em 1889, um concurso foi realizado para escolher um novo Hino Nacional. A música vencedora, entretanto, foi hostilizada pelo público e pelo próprio Marechal Deodoro da Fonseca. Esta composição (“Liberdade, liberdade! Abre as asas sobre nós!…”) seria oficializada como Hino da Proclamação da República do Brasil, e a música original, de Francisco Manuel da Silva, continuou como hino oficial. Somente em 1906 foi realizado um novo concurso para a escolha da melhor letra que se adaptasse ao hino, e o poema declarado vencedor foi o de Joaquim Osório Duque Estrada (1870 – 1927), em 1909, que foi oficializado por Decreto do Presidente Epitácio Pessoa em 1922 e permanece até hoje. Durante o centenário da Proclamação da Independência, em 1922, finalmente a letra escrita pelo poeta e jornalista Joaquim Osório Duque Estrada tornou-se oficial.”

 

Diga-se em acréscimo que segundo a Lei n° 5700 de 1° de Setembro de 1971 o Hino Nacional tem letra, música, marcha batida de Antão Fernandes e adaptação vocal de Alberto Nepomuceno. E mais: Fora a adaptação vocal de Alberto Nepomuceno, é proibida a execução de quaisquer outros arranjos vocais ou artístico-instrumentais do hino. (grifo nosso) 

 

A música como já disse é bela, a letra; terrível e complicada, a ensejar reflexões infindas sobre o que narra, descreve ou pretende. Se fosse perguntado ao povo e aos especialistas o que deveria ser mudado no nosso hino, respoder-se-ia que o nó suíno do nosso Hino estaria por conta da estrada imaginada por Osório Duque, jamais pela silva música de Francisco Manoel. No entanto, cada cantor ou canteiro assassina a sua música nas nossas solenidades, constituindo um verdadeiro desastre, sem exceção.

 

Mas, é difícil dizer a um cantor que ele é um mau compositor e assim, os que cantam pensam poder tudo, inclusive mutilar toda uma obra de harmonia, e a macacada ainda aplaude como criação.

 

Rouget de Lisle (1760-1836) cantando La Marseillaise – quadro de Isadore Pils (1813-1875).

 

 

Não creio que um francês aplaudisse um cantante que desfibrasse La Marseillaise dos acordes eternos de Claude Joseph Rouget de Lisle (1760-1875).

 

 

Se disso existe alguma dúvida, ouçam-no no tom marcial de Édith Piaf.

 

 

 

 

 

 

No entanto, o nosso Hino Nacional, que miséria, é macaqueado por cantantes e mutantes.

Edith Piaf morreu sem assassinar La Marseillaise.

 

 

 

 

Mas, tudo isso, repito, é fruto de conflito entre o autor e seu intérprete. Um tumulto porque o intérprete, e não o autor, é quem está no palco para ser aplaudido.

 

 

 

 

 

 

 

 

Assim uma Diva como Maria Callas podia se dar ao luxo de imaginar que Turandot era mais uma criação dela do que de Giacomo Puccini.

Maria Callas

Giacomo Puccini

 

 

 

Até quando fraquejou no palco sem compaixão com sua Tosca decadente.

 

 

 

 

Mas, este dilema entre autor e intérprete não se restringe às Prima-donas somente, porque não há cantor de banheiro que não se sinta o tal.

 

A título de exemplo, nutrido na vaia ou no aplauso, lembremos um programa humorístico, salvo engano, do comediante José Vasconcelos, em que ele conta alguns percalços, sofridos por Ary Barroso, comandando um programa de auditório

– Seu Fialho, o que o senhor vai cantar? – Pergunta Ary.

– Um sambinha.

– E qual é o nome deste sambinha?

– Aquarela do Brasil.

Ary fica fulo, ao chamar a sua música, verdadeiro canto de amor à brasilidade, de sambinha.

 

Pois é! É coisa de cantor. Porque o cantor, seja ele bom ou ruim, nunca passará de um intérprete. No caso da piada de Zé Vasconcelos o calouro queria cantar o Brasil com os “velsos” do Ary. Era mais um entre infindos cantadores que se escutam melhor do que imaginam, e não percebem que outros ouvidos se arrepiam com os seus rompantes de desafinos.

 

E mais, quando o cantor se julga um melhor compositor, aí é que destoa. Daí porque eu acho que os cantores bons e maus, fora da pauta musical, deveriam falar muito pouco, como Nelson Gonçalves que era gago, e até Roberto Carlos que não é de muitas palavras, mas compõe excelentes canções.

 

Às vezes, e isso raramente, eu me meto até a cantor. É um desastre. Não porque desafine muito, mas porque troco tudo. Não consigo decorar as letras e no afã de bem concluir, mudo tudo. E fica uma coisa terrível, sobretudo para os que em tudo caçam falhas. Daí eu preferir cantar em grupo, embora outros não se sintam tão bem quando estão acompanhados. Crêem-se acima dos outros e merecedores de um aplauso pessoal e intransferível. Quando a vida nos dá melhores aplausos e apupos sem exceção.

 

 

O feinho uirapuru não se incomoda com o canto do papa-capim.

 

 

Mas, esta coisa de estrelismo é coisa de Diva fugaz, de Prima-dona passageira. São curiós ou papa-capins que se incomodam até com o trinar do feinho uirapuru.

 

 

 

 

 

Ora, as Prima-donas, como os simples vivem a vida com muitos desafinos. No entanto acham-se sempre na ribalta, merecedoras de aplausos intermináveis. E isto não é verdade, daí as grandes frustrações. Por que no cotidiano da vida, são pessoas comuns e às vezes, até medíocres. E não sendo fora do palco estrelas de grande brilho, sentem-se incomodadas com tudo, com os amigos e familiares inclusive. Esquecem que só sabem cantar porque alguém lhes escreveu a pista de graves e agudos, em meio a pausas e vibratos seguindo scripts e partituras. E assim quando estão de livre escolha na clave e na solfejo destoam muito e incomodam bastante.

– Eu sou o maior!

 

De modo que, aos que não compõem mas sabem cantar, e são aplaudidos por isto, na vida prática deveriam ater-se também ás partituras, até quando estivessem falando, para não cometer a tortura do desafino em pedido de desculpa.

 

Ou então, não falem, não discutam; cantem apenas.

Sejam na vida como o sapo, que, sem partitura e sem imbecilidades, ainda é o maior cantor do rio.

 

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