Um Agitador Cultural.

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A morte de Luiz Antônio Barreto empobreceu Sergipe. Dizer assim é um lugar comum em meio a elogios inesperados de exaltação e carinho. Parece que a fugacidade da vida está a nos pregar suas peças.

Quem diria de Luiz, tão frágil, em tamanha robustez de produção intelectual!

Quem diria que os golpes, sofridos e não demonstrados, estavam a minar sua vida em angústias de sobrevivência, tratado a pão e água muitas vezes, sendo incompreendido em outras, quando o seu interesse e vontade era a vivissecção da memória da nossa história.

E de repente, Luiz que teimava em resgatar o nosso passado comum sucumbiu. Era frágil, repito! E ninguém o sabia! Ninguém percebia que o seu vigor intelectivo denunciava tão próxima a sua partida, carregando consigo, bem para longe de nós, inacessível, o seu maior patrimônio, aqueles neurônios notáveis que Sergipe pensava eterno, por serviço hercúleo, supra-humano talvez, e que a tantos serviram como archote para afastar a desmemória e sua treva, em descortino de esperança e em desafio à acomodação nossa em apatia de jazigos.

Dir-se-á, agora que tudo passou, que Luiz foi um homem que soubera fazer amigos, daí muito pranto no seu féretro, na sua despedida perante Sergipe que o fitava, como se algo tivesse lhe faltado em termos de estímulo e reconhecimento.

Parecia que algo não lhe tinha sido concedido, algo que não quisera, não pleiteara, nem lhe fizera falta, mas que por certo modo lhe corroía o viver.

Talvez lhe faltasse o comum e corriqueiro da vida; o conforto a segurança, tudo aquilo que só os familiares e os mais íntimos partilhavam nas contingências do viver.

Luiz Antônio Barreto morreu pobre, é o que todos repetiam no seu derredor funeral.

Não importa que tantos lhe tivessem respeito, admiração, em palavras e blefes, e tantas concessões de água e pão. Porque de repente, só o Professor Joubert Uchoa e sua UNIT, lhe deram a mão derradeira em meio a tantas omissões.

Mas, tudo isso faz parte do passado, da mediocridade de sua circunstância, e melhor é dizer e exaltar sua ação, por cima de tudo, o que lhe foi menor e sucumbiu.

E neste passar sem ceder ou retroceder, lembro-me de Luiz Antônio, “O Arara”, carinhoso apelido que não lhe era de todo agrado, igual ao nariz de Cyrano de Bergerac, personagem imortal de Edmond Rostand.

Relembro-o, nos idos de 1978, alto-falante no automóvel humilde, tentando, uma cadeira na Assembleia Legislativa, um homem de esquerda, candidato pela ARENA, o partido dos generais-presidentes, não sendo eleito com os 1747 votos obtidos.

Estou a vê-lo depois como um dos grandes debatedores em eventos promovidos pela Academia Sergipana de Letras por conta do cinquentenário da morte de Jackson de Figueirêdo, depois a sua posse naquele sodalício, sequenciando o jurista Gonçalo Rollemberg Leite, na cadeira 33, cujo patrono é Ciro Azevedo.

Vejo-o também Secretário da Prefeitura de Aracaju, entre diversas ações promovendo a cultura e a qualidade de ensino, edificando um vagão cultural, remodelação de um velho e já inservível carro férreo da rede Leste Brasileira, transplantado em pleno Jardim-Parque Teófilo Dantas, só para despertar no contexto colorido do lazer, a criatividade e a necessidade de leitura.

Depois é a sua luta para renovar o pensamento esquecido de Tobias Barreto de Menezes.

Se em 1978, no Governo José Rollemberg Leite, obtivéramos a reedição de Crítica de Religião e Estudos Alemães, Luiz Antônio se faz bem mais vitorioso ao conseguir despertar os novos ventos advindos da Nova República e da Presidência de José Sarney, e a sensibilidade do Governador Antônio Carlos Valadares para a publicação de toda a obra de Tobias, em trabalho notável ao qual se somaram Jackson da Silva Lima, Antônio Paim e Paulo Mercadante.

Se os livros permanecem, enquanto obra menos fugaz e mais perene, que dizer da oralidade dos eventos promovidos por conta da obra de Tobias, que presenciei e assisti, não só em Sergipe, como na Bahia e no além Pernambucano, onde Luiz agitava as palavras dos tobiáticos Paim e Mercadante já citados, dos sergipanos Cabral Machado e Jackson Lima, mas também dos pernambucanos Vamireh Chacon e Nelson Saldanha, dos baianos Josaphat Marinho e Evaristo de Morais Filho, do paulista Miguel Reale, e do maranhense Gerardo de Melo Mourão?

Que dizer de tudo quanto ouvi e que se esvaiu, por efêmero, fugidio e provisório, restando mero rasto de vestígio da oralidade dissipada, e que por inexistência documental parece que foi um sonho não acontecido?

Como esquecer também, em nome do efêmero da palavra não gravada em pedra e linho, a vinda dos intelectuais lusos, trazidos por Luiz Antônio Barreto para um debate na nossa UFS, por conta de Antero de Quental, o Colóquio reflexo de Tobias Barreto em Portugal?

Assim era Luiz Antônio, um agitador cultural, gerando inveja, é verdade, com a sua movimentação lesta em todo escaninho cultural de suas andanças poligonais e variadas relações.

E neste testemunho pobre de quem conviveu pouco, quase apenas nos eventos citados acima, não me lembro de Luiz Antônio como alguém voltado aos prazeres do conforto e da mesa, algo que justificasse a fragilidade de sua existência.

Se a moléstia procura uma causa, nunca fora um homem de vícios nem um pantagruélico comensal. Imagino até que o seu trabalho mascarava a própria fome e o esquecimento das medicações necessárias.

Poder-se-á dizer que amara bastante, distribuindo sua atenção entre várias fãs; coisa de quem é insinuante, a suscitar muitas paixões. Nada que o desabonasse, em mágoas e reclames.

De Tobias Barreto, sua melhor identidade, escreveu estas palavras como um quase epitáfio: “Ao morrer, em 1889, Tobias deixou viúva, nove filhos e uma monumental biblioteca, mais tarde adquirida pelo Governo e incorporada a Faculdade de Direito de Recife, das quais constavam cerca de duzentos títulos em alemão, de autores com os quais o pensador sergipano mantinha estreito contato de leitor e de crítico. Morrendo na miséria, socorrido pela generosidade de alunos, amigos e admiradores. Tobias Barreto deixou uma lição e um exemplo que o Brasil não esquece e que as novas gerações de brasileiros tem, certamente, como fonte de inspiração a resistir”.

Seriam estas palavras uma premonição da sua partida deixando viúva e três filhos?

De Edmond Rostand e seu herói espadachim, e do filme “Nos palcos da Vida” (2005) retiro palavras que bem lhe cabem.

“No palco da vida somos todos comuns. Somos amantes sem esperança de ser correspondidos. Somos todos como Roxane amando uma ilusão do amor, como Christian, amando com palavras alheias. Todos imperfeitos…, exibindo nossas imperfeições apesar do nosso medo…, com um pensamento em mente…, Interpretar com a alma até o fim. Arriscar tudo, ficando apenas com o mais precioso. – ‘O Penacho! ’ – Não há empreitada mais nobre.”

E vale a fala final de Cyrano de Bergerac, moribundo nos braços de Roxane, como se fora Luiz Antônio na agonia febril a lhe retirar tudo, do fôlego à chama, com a própria luz se extinguindo: “Ireis, finalmente, me repousar no meu jazigo. Que seja! Ainda assim morro lutando, continuo lutando. Sei! Tudo me arrancais: a rosa, a palma, o louro! Arrancai… Mas existe um ‘quid’ imorredouro que eu levo… Esta noite ao entrar no reino de Deus…, cruzarei o portal azul do paraíso com algo que me restou, sem mácula ou impurezas e que carregarei apesar de vós. – O meu penacho!”

Penacho que o próprio Rostand no seu discurso de posse na Academia Francesa assim descreveu: “O penacho não é a grandeza, mas qualquer coisa que se lhe acrescenta e que brilha acima dela. É algo que cintila […] o penacho é o espírito de bravura […] diversão diante do perigo em suprema ternura, delicada recusa de se queixar frente ao trágico; o penacho é também o pudor do heroísmo, como um sorriso de escusa por ser sublime”.

Tudo o que bem se aplica a Luiz Antônio Barreto, o nosso agitador cultural, que partiu deixando um grande rastro de saudade.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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