Um ano depois, a 50 anos de 1968

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Existiram aqueles que viveram o pós-maio de 1968 e não sentiram nada. Nenhum abalo sísmico. Nenhum tremor. Foram aqueles distantes da busca por participação das antes chamadas “minorias” em decisões das cidades modernas. Estes, os que assistiam a filmes de Godard, Pasolini, Bresson, Rivette, Rhomer, e achavam apenas bons moços europeus, não entenderam absolutamente nada.

Não houve uma intensificação tão grande da crítica aos modelos de democracia que eram vigentes quanto as revoltas de 1968 em partes do velho mundo e do novo mundo. Há vários relatos por aí – a favor e contra. Anne Wiazemsky, ex-esposa do cineasta suíço Jean Luc Godard, escreve uma destas descrições do momento como se fosse uma dessas pessoas que não perceberam muito bem os tremores que reverberam ainda hoje, 50 anos depois. Porém, seu modo de “fazer biografia” de sua relação com o cineasta, também revela algo que diversas pessoas não observam.

As revoltas, insurreições de 68 tiveram muitos encontros, discussões, sentimentos envolvidos. Um deles, no caso de Anne e Jean Luc, os encontros e desencontros de um casal muito diferente. Entre filmes produzidos, discussões sobre “o que fazer” diante de tudo o que acontecia na França.

Godard foi conhecido por nós, aqui no Brasil, muito pela relação rápida, porém estreita, que teve com Glauber Rocha. Este foi chamado por aquele para “destruir o cinema”. Não aceitou. Ficam claros os intuitos de Godard quando ele toma um caminho que se assemelha à política (só que hoje se percebe que foi bem mais que isso). Anne, de alguma maneira, escreve que essa “decisão” era inevitável.

Em forma de romance, Anne estimula o leitor a compreender a grande onda logo após a Nouvelle Vague (ou, a ressaca com ondas bem maiores na praia do cinema francês). Ela nos fala como uma amiga que conta todas as anedotas, casos, histórias, momentos importantes que o casal viveu naqueles anos após 68. O livro foi muito comentado, pois as memórias aparecem ali como uma espécie de testamento do acontecido: Anne sofria tratamento de câncer, e morreria dois anos depois do lançamento de seu último livro.

Ano passado (2017), o diretor premiado Michel Hazanavicius decidiu comprar os direitos do testemunho-romance e produzir o filme O Formidável, baseado no texto de Anne. Contam que Godard não aprovou o projeto – desde o roteiro. Ao fim, nem mesmo falou que não gostou. Ficou em sua reclusão. Anne conta, após o livro, que é seu tipo de política atualmente: ser contra qualquer coisa que falem sobre ele.

Porém, não há quase nada de ressonância do livro neste filme de Hazanavicius. A crítica acertou: o filme não parece ser uma adaptação. Fica aqui a sugestão de leitura – do livro de Anne, somente. Este, sim, um relato muito bem fincado em emoções reais de uma grande atriz da época de revoluções.

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