Um baiano que usurpou a cidadania sergipana

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Tive a felicidade de nascer no sul da Bahia, no município de Itabuna, terra de Jorge Amado e de grandes expoentes da cultura brasileira. Minha mãe, já falecida, era de lá, da família Oliveira Campos. O velho Célio Nunes, meu pai, sergipano foi para Itabuna, no início da década de 60, com o irmão, Hélio Nunes, também jornalista e escritor. Dono de uma gráfica, Hélio se estabeleceu na região,  principalmente nos municípios de Itajuípe e Itororó.

Cheguei em Sergipe, ainda pequeno, como oito anos de idade. Aqui cresci, estudando no Colégio Imaculada Conceição (Av. Barão de Maruim), Salesiano, Visão, Dinâmico e a antiga Escola Técnica Federal de Sergipe, hoje IFS, onde cursei Edificações. E depois jornalismo na antiga Faculdades Integradas Tiradentes.

Na década de 80, na ETFSe, ingressei no PCB, conhecido Partidão, onde tive uma militância extraordinária. Aprendi e conheci muito com pessoas como Jackson Figueiredo, Faustino, Cerivaldo Pereira, Wellington Mangueira, Jorge Carvalho (meu candidato a prefeito de Aju em 1988), Laurinha Marques, Asclepiades José (seu bengala, comunista histórico) e muito outros. Conheci ainda comunistas históricos, como Careca, Manuel Vicente, Burguesia e o enfermeiro Bitencourt que freqüentava semanalmente a casa de meu avô. O mais interessante é que em casa, além de meu pai e tio, o avô era comunista e eu não sabia. Apenas ouvia as conversas quando pequeno. Mas cresci entre livros sobre assunto, talvez venha daí a vocação para o jornalismo.

A militância foi tão forte no PCB, no início da década de 80, que fui presidente do grêmio da ETFSe por dois anos, fundando o jornal “A Voz do Estudante” e fundando a União Metropolitana dos Estudantes Secundaristas de Aracaju – Umesa, quando a USES estava dividida. Nos congressos nacionais da UBES, Sergipe era um dos poucos estados onde o PCB ganhava da hegemonia do PCdoB no movimento secundarista. A militância era tão forte e já repercutia em todo Nordeste com encontros, reuniões e tudo mais. Desse período ficou o nome “Cláudio Campos”, quando alguém me chama assim.  E como militante do PCB,  em 1986, “rodamos”, todo o Estado, para eleger Valadares governador. Os deputados eram Bosco Mendonça (constituinte federal) e Wellington Mangueira (estadual), que ficaram como suplentes.

Desculpe o leitor pela pequena história da minha vida, mas é para dizer que amo Sergipe. Pequeno, ainda fui na Yara, ia para o senadinho com meu avô, tomava sorvete na Cinelândia (onde sempre via o famoso Tô de Ajeitando). Passava em Pedro Guerra, onde ouvia as histórias da política. Ou seja, fui feliz em acompanhar mesmo pequeno uma parte da história de Sergipe. E como todo jovem freqüentou o calçadão antigo da praia de Atalaia, que tinha como point da juventude o “Manequito”, bar onde só se servia batidas de todos os tipos e todos os gostos.

E tenho orgulho de dizer que sou sergipano de fato. Apenas nasci na Bahia por uma força do destino. Aqui nasceram meus dois filhos, Célio Netto e Caíque e minha esposa Silvânia.

Sergipe é belo. E muitos sergipanos não lhe dão o valor devido. Sergipe tem um povo trabalhador em todos os cantos: da Ilha do Ouro, da Ilha de São Pedro em Porto da Folha, passando por cânion de Canindé, pela serra de Itabaiana, pelo sertão e chegando a Aracaju.

Gosto de viajar, mas o meu lugar é aqui. Na beira do mar, comendo caranguejo, comendo uma rabada no bar Confraria Cajueiro (Inácio Barbosa), uma galinha ao molho pardo no bar Pantanal (mosqueiro) e se deliciando em vários outros bares. Sem falar na reunião com os amigos em casa, para assistir o jogo do Flamengo e degustando um pernil de cordeiro maturado, feito pelo mestre cuca aqui.

Há alguns anos, quando trabalhei na Assembleia e depois na Câmara de Aracaju, dois parlamentares pediram meu “currículo” porque queriam apresentar propostas para me conceder os títulos de cidadão aracajuano e cidadão sergipano.  Não disse não, mas deixei cair no esquecimento.

Não preciso de um papel para ter cidadania sergipana ou aracajuana. Já usurpei estas duas cidadanias com força, fé e o trabalho que desenvolvo. Acho que como sergipano de verdade faço minha parte diariamente para ajudar no crescimento do meu Estado.

Por isso posso dizer tranquilamente no dia que Sergipe completa  191 anos de Emancipação Política: sou sergipano, amo essa terra e esse povo.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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