Um carnaval para não esquecer

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Se os festejos de Momo de 2014 chegam ao final com os conhecidos discursos de gestores públicos de “sucesso das festas pelo estado” e o desejo de “quero mais” de parte da população, um outro carnaval, 38 anos depois, insiste em contrariar a música que diz “todo carnaval tem seu fim” e continua presente para os que defendem o direito irrestrito à memória e à verdade.

Refiro-me ao carnaval de 1976. Não às festividades em si, mas ao carnaval de torturas que teve início uma semana antes da folia e se prolongou, em meio a um silêncio ensurdecedor dos meios de comunicação sergipanos, durante semanas. Uma das várias ações orquestradas pela Ditadura Militar, a Operação Cajueiro – como ficou conhecido o episódio – prendeu e torturou, física e psicologicamente, estudantes e trabalhadores de Sergipe que resistiam ao governo militar.

Quem se propõe a pesquisar e conhecer mais a fundo o regime militar no Brasil não se espanta com o silêncio imposto pelos donos dos veículos de comunicação de Sergipe sobre a Operação Cajueiro. Essa foi uma tendência nacional, já que boa parte dos barões da mídia se aliou até os dentes com os militares e, ainda hoje, acredita, como explicitou a Folha de São Paulo, que no Brasil houve na verdade uma “ditabranda”.

O que espanta, por essas terras, é o silêncio de muitos outros, inclusive de alguns que foram perseguidos pelo regime militar. Quais foram os personagens e órgãos que colaboraram com a Operação Cajueiro e as demais ações da Ditadura em Sergipe? Que setores do empresariado apoiaram as ações de tortura? Quais políticos, realmente, apoiaram e quais, realmente, combateram o regime? Qual foi a postura do conjunto da imprensa? Houve resistência dentro dos jornais? E a mídia alternativa? Qual o papel desempenhado pela Igreja Católica nos anos de chumbo em Sergipe? Como os órgãos da Ditadura atuaram nas escolas públicas sergipanas e nos cursos universitários? E a nossa cultura, como foi tratada pelo regime? Artistas foram perseguidos? Quais?

Essas são apenas algumas perguntas que permanecem sem respostas concretas, oficias, já que, vergonhosamente, Sergipe é um dos poucos estados que resistiram à criação de uma Comissão da Memória e Verdade.

Para ficar apenas na região Nordeste, Alagoas, Bahia, Paraíba, Pernambuco, Maranhão e Piauí têm Comissões Estaduais em funcionamento. Na região, além de Sergipe, apenas Ceará e Rio Grande do Norte não possuem o órgão. Porém, nesses estados, as universidades públicas instalaram Comissões com papel semelhante. Por aqui, nem uma coisa nem outra.

A omissão do Governo de Sergipe em buscar revelar as verdades sobre a Operação Cajueiro e sobre toda a Ditadura no estado constrangeu até mesmo a Comissão Nacional da Verdade, que virá a Aracaju no dia 30 de abril para ouvir depoimentos de vítimas dos crimes de tortura da Ditadura Militar. A Comissão também solicitou ao Tribunal de Justiça cópias dos processos referentes a violações de direitos humanos que tramitaram no Judiciário sergipano entre 1946 e 1988.

Se os poderes constituídos de Sergipe pouco fazem para trazer à tona as verdades sobre as atrocidades do regime militar, alguns ousados e resistentes tentam quebrar o silêncio geral. É assim com o documentário “Operação Cajueiro: um carnaval de torturas”, contribuição fundamental que os realizadores Fábio Rogério, Vaneide Dias e Werden Tavares dão à memória e à história de Sergipe, e que será lançado no dia 24 de abril. Na página oficial do documentário em uma rede social está descrito: “o documentário existe para fazer um registro histórico da resistência ao regime da Ditadura Militar brasileira, para que a luta jamais seja esquecida”.

Que o documentário, assim como a presença da Comissão Nacional da Verdade em Aracaju, sirva também para constranger o Governo de Sergipe, que ficará marcado pela sua opção em preservar o silêncio sobre aquele carnaval de 1976 e sobre toda a Ditadura Militar.

p.s.: A expressão “carnaval de torturas”, utilizada no segundo parágrafo deste texto, foi tomada por empréstimo do título do documentário.

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