Um Levita do Senhor

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Diante das dúvidas existenciais do ser, uns homens são tocados pela fé, outros ficam indiferentes perdidos nos afazeres da vida, enquanto alguns, norteados por um racionalismo de causas e efeitos imediatos, crêem no nada como estuário terminal de todas as coisas.

Se aos primeiros pode se insinuar um misto da ingenuidade dos simples, aos segundos, objetivos e práticos, diz-se viver cada dia como último, cientes do prosseguimento sem termo ou de uma não renovação sem fim. Aos últimos resta apenas o caráter estéril das certezas do nada.

Se nos ingênuos vige a quimera infantil do sonho entremeado em oração e até medos, dos práticos dir-se-á uma caminhada juvenil despreocupada e sempre progressiva sem retornos e freios, enquanto no descrente o algoritmo científico de postulados e demonstrações se revela como mais um alucinógeno também, e mais terrível, porque uma droga que evidencie a certeza de evolução para o nada é encarar o senil e o descaimento do ser, como um supremo gozo equivocado. Neste particular, utilizemos as noções matemáticas de limites de funções temporais, porque há funções que crescem infinitamente com o tempo, algumas que decrescem e vão ao nada, enquanto que existem outras, cujo caráter mais específico, no decorrer do tempo assume valores ditos indeterminados. E a indeterminação nunca representa uma solução satisfatória. Daí usarmos modos e maneiras para levantar esta indeterminação. E uma delas é justamente analisar a convergência ditada pela história destas funções. Ora, se levantarmos a indeterminação da vida como o fazemos com as funções, a morte seria um fim decadente, extensão da velhice e da senilidade. No entanto, a vida sempre se renova em mutações impensáveis. Que o digam os pesquisadores de hoje e para além.

Enfim, o problema existencial do ser está a questionar teístas e descrentes de todos os naipes. Cada um ao seu modo suscitando respostas várias num oceano de dúvidas e questionamentos.

Felizes, porém, são aqueles cujas respostas lhes satisfazem e preenchem as suas angústias. E é destes que pretendo falar, com a pretensão apenas de louvar a perseverança de sua missão, muito árdua e necessária, sobretudo neste mundo de tantos relativismos e incertezas. Refiro-me a um Sacerdote: Claudionor Brito Fontes. Um Padre, um Levita do Senhor que está a completar cinqüenta anos de vida sacerdotal. Digo Levita do Senhor, porque, por destinação de Moisés, os descendentes de Levi, terceiro filho de Jacó, deveriam pôr seus deveres sacerdotais, acima do amor de suas famílias. Moisés fora “aquele que havia se relacionado com Deus, ‘face a face’; como o amigo fala com o amigo”, segundo o Papa Bento XVI, no seu recente livro Jesus de Nazaré, recém publicado. E Moisés, estabelecendo a comum união das doze tribos de Israel, destinara aos Levitas esta missão sacerdotal de cuidar das coisas sagradas. Missão de apascentar o rebanho do Senhor, conduzi-lo por caminhos norteados pela aceitação do outro e pela convivência fraterna, pregando o perdão e a caridade. Assim, o Sacerdote é um dos ungidos pelo Pai para desempenhar esta missão profética e salvífica no mundo. Ele é o enviado pelo Filho para dar continuidade ao seu múnus de salvação. Alguém que recebeu o Sacramento de curar as almas enfermas e perdoar as faltas do homem, pregando a construção do Reino de Deus. Alguém que não pode arrefecer no caminho, nem fraquejar na fé. Alguém que tem o compromisso com Cristo e sua Igreja. Igreja que somos todos; povo reunido, povo pecador, povo errante nos descaminhos que a vida impõe e degrada. Igreja consciente de sua imperfeição, mas que busca claudicante a santidade. Igreja de homens e mulheres piedosos que rezam, que suplicam, que invocam as bênçãos celestes. Igreja pecadora e penitente que caminha pelas veredas da vida lembrando e invocando seus santos individuais e familiares. Igreja de papas e encíclicas, de bispos e prelados, de padres de capelanias humildes e teólogos de grandes estudos, de monges penitentes e freiras orantes, de religiosos e leigos; todo o povo de Deus, num mundo que se afasta de Deus.

Igreja que não existe sem a figura do Sacerdote e sem a sua autoridade para a pregação do Evangelho. Igreja sem a qual não há salvação.

Igreja que vem louvar a figura do Padre Claudionor Brito Fontes, o menino nascido em Tobias Barreto, em 14 de junho de 1930, um dos treze filhos de José Martins Fontes e de Afra Brito Fontes, que junto a Nossa Senhora Imperatriz dos Campos do Rio Real iniciou sua vocação sacerdotal como acólito de Monsenhor Basilício Raposo. Que ingressou no Seminário Coração de Jesus em 1945, então sob o reitorado do Monsenhor Olívio Teixeira, sendo colega de vários Levitas do Senhor como Monsenhor José Carvalho de Souza, do Bispo D. Hildebrando Mendes Costa, do Dr. Paulo Almeida Machado, entre outros. Que após o Seminário Menor vai para São Paulo cursar três anos de filosofia no Seminário Maior daquela Arquidiocese, oportunidade em que se torna colega do atual Cardeal da Bahia, D. Geraldo Majela, Arcebispo Primaz do Brasil. Que em seguida vai estudar teologia na Universidade Gregoriana de Roma de 1953 a 1957, onde é ordenado sacerdote pelo Cardeal Micara na Basílica dos Santos Doze Apóstolos, no dia 30 de junho de 1957. Que iniciou seu mister presbiteral em Roma, quando celebrou a sua primeira Missa em 1º de Julho de 1957, junto ao túmulo do Apóstolo Pedro, na Basílica de São Pedro.

Sacerdote fiel a Cristo e a Igreja, que a comunidade católica de Sergipe está a reverenciar nas suas Bodas de Ouro Sacerdotais, já que foi entre nós que exerceu seu apostolado de oração.

Uma vida de dedicação à causa do Evangelho em Sergipe, de modo particular Aracaju, cidade em que exerce sua missão sacerdotal dede jovem, quando do seu retorno, recém ordenado ao Brasil.

No início, o Padre Claudionor foi nomeado Reitor do Santuário Nossa Senhora Menina pelo Bispo D. José Vicente Távora, homem de alma pura e espírito conciliador, que o colocou também como Diretor Espiritual do Seminário Diocesano e Assistente Espiritual da Juventude Estudantil Católica (JEC). Em seguida, nomeou-o em 1961, Pároco da Catedral Metropolitana de Aracaju, onde permaneceu por 35 anos.

Foi na Catedral Metropolitana que o Cônego e depois Monsenhor Claudionor Brito Fontes desempenhou seu maior trabalho, junto a diversos movimentos religiosos, dinamizando a atividade Paroquial com os Movimentos de Casais com Cristo, Cursilhos de Cristandade, Movimento Familiar Cristão, Pastoral das Secretárias do Lar, Vicentinos, Marianos, encetando atividades várias nos Centros Sociais por ele erguidos; um na Rua de Maroim, com uma escola paroquial, e outro na Rua do Alecrim. Também foi capelão do Reformatório Penal, Professor de Italiano da antiga Faculdade de Filosofia, membro do Conselho Estadual de Educação por 11 anos e Delegado do Ministério de Educação por sete anos.

É autor de dois livros: “Um ano sabático” e “A Pregação de um Pároco”, ambos tratando de suas experiências de vida sacerdotal junto à comunidade onde exerceu seu ministério, e da sua experiência enriquecedora testemunhando o cristianismo junto a outros povos e raças, quando se colocou como missionário nos diversos rincões do planeta, convivendo com religiosos de outros credos, e auxiliando na conversão cristã de outras almas.

Um homem de alma branda, espírito conciliador, aberto às duvidas e descrenças do ser, sem a agressividade dos sectários, nem a pusilanimidade dos acomodados. Um homem sintonizado com as tormentas e as calmarias do tempo. Um homem que Aracaju começou a admirar e reverenciar, por sua pertinácia e fidelidade.

E é por estes e tantos outros méritos, que a Comunidade Católica de Aracaju, louvando as Bodas de Ouro de Monsenhor Claudionor de Brito Fontes, está a erguer uma placa comemorativa que será descerrada no próximo domingo, oito de julho, às 10 Horas, em Missa Festiva no Santuário de Nossa Senhora Menina.

Trata-se de uma maneira singela de homenagear um Padre, um Levita do Senhor, que perseverou na sua fé, pregando sempre com alegria e com testemunho, um Evangelho sem restrições. Um homem sensível às coisas de Deus desde a infância. Um homem que compreende e não se assusta com os apressados que não têm tempo para Deus. Um homem que resolveu ser um Levita do Senhor para levar a Sua palavra aos que se debatem na incerteza e na dúvida, dizendo sem qualquer ingenuidade; “Eu sei em quem acredito”. Um Sacerdote que é motivo de bênçãos e aplausos de seus amigos e fiéis.

 

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