Um passeio por Nova York.

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Um pequeno estacionamento matricial de automóveis que visitei em Nova York, dotado de engrenagens elevatórias, transversais e longitudinais, o suficiente para estocagem de quase cem carros, podendo tal número ser expandido como os elementos de qualquer matriz tridimensional.

Estive nos Estados Unidos, mais precisamente em New York, a cidade que nunca dorme, segundo a música de John Kander e Fred Ebb, popularizada mundo afora pelas vozes de Liza Minelli  e Frank Sinatra.

Nada melhor para arejar a nossa  visão e conhecimento da vida do que viajar, conhecer novas terras, pessoas e costumes.

Se o homem é o mesmo quando volta do passeio, a contemplação de uma nova circunstância enseja um refletir, um ensimesmar distinto da mera contemplação do próprio umbigo.

Porque nada mais emasculador que a contemplação onanista da própria cicatriz umbilical.

Entendendo-se neste embigo, bem cerzido ou estufado, a própria ambiência, a província, o comezinho discutir paroquial, aí incluídos os mais destacados e reverenciados pensadores e formadores de opinião, tão eivados de mofo em prejulgados empedernidos, a serviço do modo míope e próprio de enxergar, só na cantilena velha, e quase sempre suja, por desuso da própria cicatriz umbilical.

Nese particular, nada mais tolo que o brasileiro se achar o melhor povo do mundo, logo ele, flor amorosa de três raças tristes, no versejar de Bilac, e tendo Macunaíma como molde de Mario de Andrade, um “modernista”, já em vésperas de completar cem anos.

Neste contexto, a contemplação bem além da Caverna de Platão, retira a remela da visão, e isso é um perigo, porque o status quo renitente e assaz resiliente do atraso consentido, tende a mutilar quem lhe denuncia o proto-anacronismo nunca aceito.

E assim, em meio a tantas comparações necessárias voltei empolgado dos Estados Unidos. E me diziam que ali vigia o caos; ausência de liberdade, caça às bruxas, o povo oprimido na rua pelo danoso desejo irrefreado de lucro, com o trabalhador sendo explorado pelo vil metal; um verdadeiro inferno!

Inferno sobremodo, porque diziam-me que aquele país estava a viver uma profunda crise de crescimento, com os corifeus estatistas a dissertar sobre a morte iminente do capitalismo.

Mas, o que vi já se prenunciava na fileira enfrentada em abril de 2012, na cidade do Recife, quando ali estive para renovar o meu visto de entrada na embaixada americana.

A fila na frente do casarão da Ilha do LEITE era enorme, quase igual à do antigo Cinema Pálace, do meu tempo de jovem nas matinês de domingo.

O mundo todo queria validar um visto de visita aos Estados Unidos.

Visto que saía muito caro porque era preciso apresentar uma vasta documentação, o pagamento de uma taxa elevada em espécie, providências variadas em papelada extensa, inclusive entrevista pessoal, a requerer despesas de viagem ao Recife, por consulado de maior proximidade, estada e alimentação, sem falar do universo paralelo surgido no entorno do escritório para suprir serviços não providenciados de atestação e fotografia.

E o mundo todo deste nordestão estava lá: na fila do visto de visita; quietinho, sem balbúrdia, nem reclames, muito menos espertezas de fura vaga.

E era só uma autorização de visita. Imaginem se fosse uma fila para a imigração!

Vistos a postos, deixemos a viagem, sem falar do desconforto em voo de doze horas ou quase isso, porque Nova York é uma beleza!

Interessante é, contudo, estabelecer algumas comparações com outros lugares que conheço, por gostar de mergulhar em outros ares, para descarrego dos maus olhares. Eu que costumo me banhar em todos os Oceanos: no Atlântico, por rotineiro, no Pacífico, por distante, e no Índico, por exótico; faltando-me alguns mares específicos e as termas glaciais.

Mas, deixando os mares e me prendendo aos continentes, só para estabelecer uma comparação com a grande nação norte americana; quem viaja à velha Europa começa a se decepcionar com a estagnação atual em todos os sentidos, do cultural ao econômico, sobretudo agora em desemprego crescente.

Por outro lado quem vai a Índia, de lá volta com a certeza de que o Brasil não é um país de terceiro mundo.

Já quem passeia por Lisboa, decepciona-se com o desemprego, sobretudo com a quantidade de luso-africanos desocupados no Chiado e na Baixa Pombalina.

O mesmo poder-se-á dizer de Paris, perdendo sua cultura e religião, com suas Igrejas e Catedrais memoráveis, cada vez mais cercadas de burcas e mesquitas, como se numa Cruzada definitiva, a Cruz estivesse sendo varrida pelo Crescente, por importação desvairada de despreparo, miséria e obscurantismo.

Já Nova York é vibrante. Ali tudo funciona com eficiência, regularidade e sem improvisação; o que é notável!

Não se vê em Nova York qualquer lixo na rua, mesmo que uma multidão caminhe por suas calçadas dia e noite.

Não se vê um flanelinha, um tomador de conta de carro, nem problema de estacionamento.

O trânsito de Manhattan não é caótico como o de Aracaju. Trafega-se pela 5ª Avenida numa lentidão de dar inveja aos nossos motoristas na Beira Mar.

Falar em Beira Mar, seria recomendável, até por inutilidade de letra morta, que fossem retiradas as placas de sinalização de velocidade máxima dessa nossa avenida. Porque por ali o céu é o limite, a evidenciar a conivência dos novos gestores com o caos do nosso trânsito.

Como Nova York ainda não evoluiu como Aracaju, os automóveis respeitam o pedestre. Se tal não acontece, é exceção.

Outra coisa que constatei; muitos sanitários públicos gratuitos e todos limpíssimos, diferente dos parisienses que são pagos e imundíssimos. E diferente dos daqui, onde o povo é livre e cordial, e deles não precisa por alívio poetar a céu aberto.

Outra coisa que vi pouco, muito pouco, foi esmoleres e pedintes; muito raro.

O que havia bastante era muitos indivíduos fantasiados de super-heróis que se deixavam fotografar mediante uma gorjeta; uma verdadeira delícia para a criançada de toda idade. Sem falar que muitas mulheres adoram ser fotografadas com guitarristas que se exibem em trajes menores, em plena rua, como se todos fossem personagens do show business, tudo na mais perfeita ordem e sem qualquer bagunça.

Para que isso seja possível, penso eu, há um policiamento ostensivo com a guarda munida de uma parafernália enorme em termos de armas e comunicadores; um vasto instrumental coercitivo e persuasório, a evidenciar que há uma tolerância zero com o erro.

Nota-se sobremodo, um sentido de obediência e autoridade que vale para todos na cadeia de disciplina; do motorista de ônibus ao cobrador, do caixa da loja ao vendedor na gôndola, do concierge do show a aquele que indica a poltrona numerada, de modo que o atendimento se faz com distinção e sem permitir atropelos, e quem assim não procede, recebe a admoestação precisa.

Terra onde o consumidor é respeitado. Onde a moeda de um “Cent”, o centavo de Dolar (o equivalente a dois centavos de Real), é requerida e devolvida no troco, como se fora uma gema indispensável. Muito diferente da nossa terra onde todos o somos ricos e perdulários, e sempre arredondamos o preço, para maior, dispensando por desapreço à moeda fragmentária.

Se o “Cent” é valorado, maior respeito se dá ao consumidor.

Eu mesmo tenho um testemunho que considero notável e que vale a pena relatar, afinal adquiri em duplicidade um equipamento na Apple Store da Fifth Avenue, uma loja que funciona 24 horas, ininterruptamente, todos os dias, e desejando trocá-lo foi só apresentar a nota fiscal para imediatamente receber o estorno do valor pago, incluído também o imposto, isso sem qualquer burocracia, em questão de segundos; por uma mera leitura ótica de barras.

Diga-se de passagem, que o meu espanto foi tamanho, que me derramei em elogios à vendedora: “You live in a great country! If it was in my country I would not receive a refund in cash. I would have to exchange it for other merchandise, and certainly in some stores the exchange is only possible in certain days or times”. (Você mora num grande país! Se fosse no meu país, eu não receberia a devolução em dinheiro. Eu teria que trocar por outra mercadoria, e em algumas lojas isso só seria possível em determinados dias e horários”.

Mas o americano bem o sabe, que um bom negócio é aquele que beneficia ambas as partes. E não sendo assim, o cliente não retorna.

Outra coisa que percebi em Nova York; ali não vale pechinchar, muito menos sonegar o imposto, mesmo numa coisa tola como a despesa de um café e um sanduiche. Tudo vem com nota fiscal, sendo explicitada a taxa cobrada, evidenciando que a sonegação não combina com a esperteza nossa de todos os dias.

Falando agora de lazer e meio ambiente, direi que no Central Park e na enormidade daquele jardim, gorjeiam crianças lactentes, nos seus carrinhos de bebês, sem medo de um trombadinha, tal a despreocupação por ausência de medos, tudo que fez lembrar a decepção como está o nosso Parque Teófilo Dantas, uma área dezena de vezes bem menor e mais fácil de cuidar que o Central Park, mas onde reina o lixo, a sujeira, a insegurança, a molecagem de uma crackolândia talvez, a tal ponto que  já está perigoso assistir até uma Missa na nossa Catedral, quanto mais ali passear.

E o mundo inteiro passeando pela Broadway, mais precisamente pela Times Square, onde a diversidade cultural e étnica ali apresenta o melhor extrato da humanidade reunida, num desfile contínuo de risos e gestos sendo fotografados e filmados pelo maior número de câmaras e binóculos, nunca visto, a evidenciar que não há medo de perde-los por roubo, quando por aqui é até perigoso andar com um aparelho celular.

Não!  Os Estados Unidos são um país diferente.  E ainda dizem que estaremos em pé de igualdade daqui a cem anos! Ledo engano de quem contempla o umbigo.

Por umbigueira própria, sou de uma geração tola que via os Estados Unidos como a razão de todos os males; os chamados vícios do capitalismo.

Poucos os de meu tempo de jovem que não exibiam sonhos socialistas, alguns em vezos totalitários.

Por causa destes, e só por causa deles, o país que vivia um raro período de democracia e liberdade, enveredou pela anarquia da desobediência civil, com os militares sendo acusados de gorilas e a insubordinação rondando os quartéis.

Dizia-se, que a Revolução Comunista, já estava consumada e só faltava um Lenin, um Mao Tsé-Tung ou um Fidel Castro que encarasse a tomada do poder.

E foi ai que aconteceu o contrário, com o povo na rua brandindo o Rosário.

Dizem, porém, que não foi assim.  “Foram os Estados Unidos!” – Ainda gritam alguns, mesmo sabendo, que naqueles idos de março, quando a tropa de Mourão Filho já cruzara o Rio Paraibuna, a frota americana estava bem distante rondando o Caribe. E mais: Cuba, tão pequenina, soube resistir ao grande poder americano e o Vietnã também.

Pensar como estes, é acreditar que só a presença de um navio marine no distante Caribe fora suficiente para, sem mesmo coçar o gatilho, botar a macacada pra correr.

Trata-se de uma maneira equivocada de recontar a história, que mesmo inverossímil precisa ser repetida a exaustão, por inspiração em Joseph Goebbels.

História que continua a ser recontada com os vencidos de ontem hoje no comando da nação, o herói sendo tratado como bandido, e este como o verdadeiro paladino da liberdade, mesmo perseguindo a abominada prática, sem trauma de vergonha; a cortejar o capital.

Eis, portanto, o fim da história como profetizara Fukuyama; o mundo optando pela democracia liberal, respeitando os contratos e sem hostilizar a livre iniciativa que deve ser plena.

Chame-se isso liberalismo ou liberismo, não há mais espaço para a pregação da luta de classes nem para qualquer ditadura, muito menos a do proletariado, que se dizia um paraíso.

Quanto ao proletariado de agora, o que ele deseja é ser empreendedor. Empreendedorismo é o seu sonho.

Se não há mais ninguém que saiba solfejar a Internacional Socialista, há ainda muito ranço contra a grande nação americana, embora o mundo todo queira se transferir pra lá.

Eu mesmo voltei de lá empolgado e recomendo como um bom passeio, com bons shows, boas livrarias, bons restaurantes, mesmo com excedente noticiário de ameaças terroristas e escutas telefônicas.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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