Um resto de tempo

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Uma foto sempre traz alguma nostalgia, porque é sempre um pedaço de um tempo que ficou pra trás. Coisa que se perdeu e se quer lembrar ainda. Quem era mesmo? Quando foi? Um resto de tempo, rastro de fantasma, caco de telha, cristal de vidro. Fotografia é uma memória de luz e sombra, que, na verdade, ninguém lembra mais, só o papel – ou os bits. Os velhos avós sorriem na foto, porém suas vozes se perderam. Como ela sorria mesmo? Como era o barulho de seus passos. Retrato não captura a alma, é um pedaço da morte de alguma coisa: uma paisagem que não se move, uma lembrança que não se lembra, uma pessoa que não conta a própria história.

As crianças que nós fomos, e nunca ouvimos nosso próprio choro-bebê. Nossos pais com nossas idades e outras modas, sendo pessoas comuns e vivendo vidas comuns, histórias que não se completam, não se fecham. Fotografias são sempre pedaço de um tempo. Um caco. Sem começo, sem meio, sem fim, um instantâneo. Um menino ali no canto que ninguém lembra mais quem é. Não é seu primo? Filho daquela outra tia, eu acho. Acho que era um coleguinha da escola. Mas desse sofá eu lembro, lembro do dia em que compramos, prestações no crediário, eram tempos de vacas magras. A memória caminha por estranhos caminhos e faz estranhas escolhas. O que será apagado para sempre e o que será lembrado até o fim de nossos dias. E em que gavetas mentais serão guardadas cada uma dessas recordações.

Enquanto isso, as fotografias vão amarelecendo nos álbuns, fantasmas sem dono, não assombram quem não mais se lembram deles. Montanhas e praias, viagens que se perderam, cidades inabitadas que já não existem. Uma casa que já não está mais lá, uma árvore que já virou móvel, um rio que já secou. Ou é talvez uma foto de hoje, já sem a árvore, a casa, o rio, uma foto do vazio, de uma ausência pressentida e meio inenarrável. O que falta mesmo aqui? Tinha mais alguma coisa… E não lembra mais o que era.

Vi esses dias uma foto da ATPN virando escombros. Nunca soube o significado da sigla, mas o decadente clube à beira mar foi o espaço de um movimento de roqueinrol aracajuano lá do início dos anos 2000 – esse outrora futuro tão distante que agora já passou. Fotografia é testemunho. Um tempo que virou escombros, memórias aos pedaços para quem viveu esse tempo entre embriaguez e sobriedade. As histórias vão se encaixando, pedaços, quebra-cabeças, nuvem alcóolica de lembranças incertas. Até que não haja mais quem lembre e vire só o vazio. Aqui, parece, teve alguma coisa antes. E não lembra o que era.

Quem subiu ao palco? Não tinha palco. Ele tocava em três ou quatro bandas. Era o único baterista na cidade, parece. A cerveja era Kaiser. Éramos quase crianças, um bando de adolescentes. Ou nem tanto. Já estávamos na faculdade, na verdade. Faz muito tempo. Foi outro dia. Demoliram o que mesmo? Foi só uma memória que virou escombro. Como toda memória, retornou ao seu estado inicial de lixo da história. Varrido para debaixo do tapete, não merece nem linha nos livros de história da cidade que se escreverão daqui a quarenta anos. É só lembrança borrada na memória esquecida dos tios do rock de daqui a uns anos. De daqui a pouco. Eu lembro, sim – mas a memória é mais invenção que lembrança. E assim vão-se construindo os passados. Quem conta, constrói.

Vi também uma foto bem bonita – acho que era de Victor Balde, mas essa memória também já estou construindo mais com o esquecer do que com a certeza – de dois rapazitos, bateria e guitarra, na frente de um letreiro azul bonito: The Baggios. Guardei a foto. E não duvido que, daqui uns anos, esteja eu lá, contando nostálgica que foi um lindo show, que foi um momento histórico, que isso e que aquilo. À parte, claro, o fato de eu não ter estado lá naquela noite: quilômetros e quilômetros me separavam do teatro lotado, da música que ressoou forte, da energia que varreu os corações felizes. Eu estava ouvindo aquelas músicas sim, mas bem longe, num celular, comendo macarrão e falando da vida com um amigo da infância – memórias compartilhadas. Mas, não, não vai ser essa a história que eu vou lembrar daqui a vinte ou trinta anos. E sabe lá qual a história que eu vou lembrar. Que vamos lembrar. Quem conta, constrói.

Sabe lá o que vai ser essa foto, esse pedaço de um tempo congelado, um pedaço de morte de uma história que não cessou de acontecer, que não cessará de ser contada, na informalidade das memórias falhas. Eu estava lá, eu lembro, eu vi. A emoção, me arrepiei, me arrepio até hoje. Você lembra, né?! E a memória vai sendo reconstruída nesse lembrar mambembe. Ainda que apoiada em fotografias, em recortes de jornal, em diários escritos com tinta verde: memórias precárias, como todas as memórias. E um dia, esquecimento. Os buracos serão maiores que o lençol puído, e a foto amarela, esvaziada de sentido, como as fotos de crianças do início do século XX de olhar vazio que se vendem nas feiras de antiguidades. Ninguém lembra mais delas, são só esquecimento.

Já pensou onde você estará daqui a cem anos? Tomara que em lugar nenhum. Que tudo um dia siga seu rumo e vire esquecimento. Até as histórias de tia do rock que um dia vou contar na mesa do jantar. Lembra, o show do Pearl Jam? E quando a gente finalmente viu o Roger Waters ao vivo? A gente chorou. Lembra daquele show naquele lugar que parecia um porão? Chamava Carverna, eu acho – e já é uma invenção, preenchendo o vazio. Lembra? E aponta a foto. E já é esquecimento. A foto nem amarelece mais, porque já é bit, que se perde no HD, na nuvem, se apaga sem querer. Como uma memória que se esquece sem querer.

PS: Victor Balde já mandou avisar que a foto não é dele. É do Marcelinho Hora. Mas como eu dizendo, quem conta, constrói a memória.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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