Um sergipano na Academia

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      A Academia Nacional de Medicina comemorou em 30 de junho último o seu 188º aniversário de fundação, uma instituição quase bicentenária

Participando do evento em Academia Nacional de Medicina em 2000

, fundada vinte e um anos depois da instalação no Brasil da Faculdade de Medicina da Bahia, primaz do Brasil, em 21 de fevereiro de 1808 e a do Rio de Janeiro, em 5 de novembro do mesmo ano.
      Fundada no reinado do Imperador Dom Pedro I sete anos depois da independência do Brasil de Portugal, recebe o nome de Sociedade de Medicina do Rio de Janeiro, sendo que, em 1835, por decreto imperial, passa a se chamar Academia Imperial de Medicina.
      Na primeira sessão após esse ato, esteve presente o então príncipe Dom Pedro II, na ocasião com apenas nove anos de idade. Com a maioridade, o Imperador Pedro II torna-se o maior patrono da casa, frequentando todas as suas sessões, chegando inclusive a presidir solenidades. Daí vem o seu vasto conhecimento em Medicina, que lhe deu condições, inclusive, de sabatinar alunos do curso de medicina das faculdades da Bahia e do Rio de Janeiro. Conta-se inclusive que ele chegou a interrogar  o primeiro sergipano a se formar em medicina, o Dr. Manoel Ladislau Aranha Dantas, quando de uma de suas visitas à Faculdade de Medicina da Bahia. Aranha, brilhante personalidade sergipana, que hoje ilustra uma das cadeiras da Academia Sergipana de Letras como patrono, foi aluno e depois professor dessa faculdade e obteve grande prestígio em terras baianas.
     Na sede atual da Academia Nacional de Medicina, localizada na Av. General Justo, centro do Rio de Janeiro, encontra-se ainda perfeitamente conservada a cadeira onde o imperador se sentava. Com enfermidade já avançada, ele preside, pela última vez,  em 30 de junho de 1889, a sessão de aniversário da Academia. Cinco meses depois cai a Monarquia e Dom Pedro parte para a Europa. Com o advento da República, instituie-se por decreto provisório do governo, o nome definitivo que perdura até os dias atuais.
    Portanto, não é impróprio dizer que a história da Academia Nacional de Medicina se confunde com a história do Brasil, contribuindo com destaque para o desenvolvimento da Medicina brasileira em todos os seus aspectos relevantes, realizando seminários, fóruns e outros eventos afins.
    Muito me orgulha a oportunidade única de ter participado, como debatedor, de um desses eventos, em outubro de 2000, a Conferência Internacional de Educação Médica, com o tema Mercado de Trabalho do Médico. A sessão, comandada pelo Dr. Edson Andrade, à época presidente do Conselho Federal de Medicina, contou ainda, como debatedores, com as presenças do professor Hiram Silveira Lucas, da Academia Nacional de Medicina, da professora Regina Celles de Rosa Stella, da Associação Brasileira de Educação Médica, da professora Maria Helena Machado, da Escola Nacional de Saúde Pública e do Prof. Eduardo Waldemar, do Chile. Na época eu presidia a Academia Sergipana de Medicina e era Diretor de Economia Médica da Associação Médica Brasileira e havíamos realizado, em Aracaju, no mês de maio desse mesmo ano, um encontro nacional de academias de Medicina, com a presença do Dr. Aloysio de Salles Fonseca, que presidia a Academia Nacional de Medicina,
     Nos 188 anos da Academia Nacional de Medicina, muitos sergipanos participaram da vida da instituição, como membros efetivos ou correspondentes. Estou no curso dessa pesquisa para um levantamento mais preciso dessa participação. Concentro-me agora, no entanto, na figura de um sergipano de Estância, que não só foi membro da Academia, a partir de 1885, como chegou à presidência, em 1895.
    Refiro-me ao Dr. José Lourenço de Magalhães, nascido em 11 de setembro de 1831. Em 1856, ele defende a tese de doutoramento “Como reconhecermos que o cadáver, que se nos apresenta, pertence a um indivíduo que morreu afogado?”, para obter o grau pela Faculdade de Medicina da Bahia. Faz cursos de especialização na França e na Alemanha,  aprofundando conhecimentos na área de oftalmologia. Graças aos seus estudos sobre a lepra, torna-se bastante conhecido no Brasil e no exterior.
     Durante a epidemia de cólera, em 1863, presta relevantes serviços, pelos quais recebe reconhecimento. Trabalha como oftalmologista nas cidades de Estância, Laranjeiras, Salvador, Rio de Janeiro e São Paulo. Sócio correspondente da Sociedade Médica de Emulação de Paris, torna-se colaborador de importante periódico de oftalmologia, editado nessa cidade e escreve importantes obras sobre o beribéri e o impaludismo. Dirige o Hospital Colônia de Guapira, primeiro asilo-colônia para leprosos de São Paulo, no bairro do Jaçanã, hoje Hospital São Luiz Gonzaga.
   Além das atividades médicas, o Dr. Lourenço atua como delegado de saúde em Estância, bem como delegado de polícia, tenente-coronel chefe do Estado Maior do Comando Superior da Guarda Nacional, deputado provincial (1862-1869) e presidente da Sociedade Fraternidade Sergipana na Bahia.
   José Lourenço de Magalhães morre na cidade de São Paulo, em 23 de novembro de 1905, deixando-nos importante legado. Dessa forma, tanto ele como a Academia Nacional de Medicina,  merecem esse justo reconhecimento.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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