Um tempo para chorar

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Ele tinha acabado de encontrar os irmãos, por parte de pai, mas a história toda começou há cerca de um ano e meio quando ele, pelo Facebook, conseguiu localizar cada um dos seis irmãos distantes. Entre programações e tentativas de enfim encontrar alguns destes, ele foi construindo em seu coração uma película para impedir o extravasar do choro, pois sabia que as emoções seriam grandes. Não queria aparecer de cara para os irmãos e já ir chorando e abraçando e beijando, naquele lance meio bicho selvagem que reconhece a família. Chegado o momento do encontro, ele sentiu uma pontada no meio do pescoço – aquele travar que antecede as lágrimas. Só quem já passou por isso, sabe o que significa esse desespero na traqueia, que sobe pra laringe é foda. Mas, meio controlado, ele segurou as rédeas do sentimento e se conteve (que receio bobo de chorar!).

Essa coisa de aeroporto é algo punk, pois ali só se passa gente emocionalmente desequilibrada, uma vez que nunca será normal subir tanto aos céus (sem estar morto), arrastar tanta mala, ficar atento aos detalhes da hora, data, portões de embarque e afins e depois ficar imune a tais descontroles físicos – quimicamente deve ter uma explicação para as reações do corpo pós passagem por num aeroporto. Não tem como alguém falar que desceu de um voo, por pequeno que seja o percurso, sem sentir nada no peito; pelo menos o medo de morrer numa queda aérea é, no mínimo, um fator a ser considerado.

Mas voltando ao primeiro encontro com os irmãos… os dias foram passando, e diversas vezes ele se deixou levar por uma emoção contida, mantendo o domínio, e às vezes dando vazão a um pequeno choro, em momentos mais discretos, porém, por dentro estava em combustão de tanta felicidade. Como foram poucos dias nesta primeira visita, manteve a linha bem, mas o medo de chorar na chegada aumentou mil por cento com a proximidade da despedida.

Ele nunca foi um cara que sai bem em despedidas. Lembro de um dia, ao levar ao aeroporto, uma amiga querida, que ia morar no estrangeiro, ele teve uma crise de choro histérica/homérica; tipo criança quando via a Xuxa pessoalmente (lá na década de 90). Aos berros, incontroláveis, ele foi assistido, pela família da amiga, sob olhares de estranheza. Vai saber o que se passa num nó na garganta de alguém. Assim, com medo de repetir a dose de descontrole no choro em aeroporto, foi cimentando os sentimentos para fazer bonito ao encontrar os irmãos até o ultimo segundo, quando teria que retornar para seu estado de origem.

Só que São Paulo, a cidade, não dá margem ao emocional. Tudo tem que ser vivido ali e agora, as pessoas não têm tempo pra sentimentalismo e se ele não chorou como devia ou queria, lá atrás, que engolisse suas lágrimas e tomasse um café servido pela aeromoça dentro do avião. A rapidez das situações, em São Paulo, gera um desconforto na alma, capaz de desestabilizar um monge centenário. Haja nervos. Ao chegar o momento da despedida, saiu de casa, levado pelos irmãos e cunhado, até o aeroporto com bastante antecedência. Só que antecedência em São Paulo também não existe. Até saindo um século antes, periga perder um voo, e ele chegou em cima da hora.

Ao chegar ao aeroporto, Guarulhos (que fica lá do outro lado do planeta), a busca desenfreada pra fazer check-in e encontrar a desgraça do portão de embarque acabou com um momento de despedido bonito. Ele que vinha segurando as lágrimas o quanto pode esse tempo todo, aproveitou o alvoroço dos protocolos da viagem para mais uma fez disfarçar. E assim se despediu dos irmãos, já com os óculos escuro na cara (achando esconder a já saudade existente ali), saiu correndo perguntando a um e a outro como chegar ao portão 225 – o mesmo ficava numa espécie de subsolo do aeroporto – coisa de louco. Conseguiu achar, e por frações de segundos até esqueceu das lagrimas presas nos cantos dos olhos.

“Uh-ru tinha crescido e vencido o chororó de aeroporto”, pensou ele (o coitado!).

Se ele soubesse que emoções são irrequietas, e quando menos imaginamos podemos desabar. Assim, assim que ele colocou a bagagem no local devido, pediu licença pra sentar em seu lugar, ao lado da janela. Sentiu o sol (milagre São Paulo com sol) bater em seu braço. Enquanto esperava a hora do avião decolar, com a cabeça encostada no buraco vedado da janela do avião, ele chorou. Compulsivamente (mas quieto).
Algumas coisas não mudarão nunca. E despedidas sempre o maltratarão!

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