Uma morte em vão?

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Eis que se vê ao vivo mais um flagrante das câmaras de vigilância. Trata-se de um assalto a mão armada.

Há tiros, mais uma morte, a notícia conclui precisa e a imagem narra o fato em concisa encenação, com o assassino fugindo lépido, carregando o seu butim.

O assalto foi um sucesso, poderá dize-lo despois. Quem assalta a mão armada, carrega a pistola azeitada e bem municiada. Está disposto a tudo; matar é apenas uma opção, que não enseja insucesso.

O malfeitor por certo dirá que a vítima provocara tudo.

Dirá também, como uma legítima ação que lhe restou a contento, muito bem executada.

Se restar aprisionado e processado, repetirá igual, agora já bem aconselhado por sua defesa, legitimada pelo Estado mais das vezes, que assim o acolhe, em demanda de uma ingênua ressocialização de feras.

Por outro lado, nesse mesma discussão feérica e bastante sinistra, dirão muitos inertes e acovardados, já justificando o feito, quase acolhendo o agir criminal: “A vítima já devia saber que o facínora está disposto, não a morrer, mas a matar; E matou!. Que o morto fique com o ônus, ora essa! Quem mandou resistir?”

Divergindo desta pusilânime interpretação de extensa maioria, não penso dessa maneira.

Dizer assim, seria afirmar que o assassinado de ontem, Nicanor Moura Neto, findou tolo, ao resistir, deixando-se matar!

Rejeito esse pensamento que se refaz aconselhador, sobretudo a nós todos enquanto circunstância e cenário carpidor, para acomodação e serenidade.

Entendo que reagir é altamente perigoso, mas não o fazer é acomodar-se ao descontrole terrível que nos assedia.

Não creio que a docilidade amaina o crime e a marginalidade.

Longe de qualquer ingenuidade que se acuse em Nicanor Moura Neto, contemplo-lhe uma essência heroica em suas convicções varonis; um lutador por ideias firmes, nestes tempos de permissivas pusilanimidades.

Mas, por que um cidadão comum, um trabalhador cumpridor das suas obrigações rotineiras, um pai de família igual a todos, alguém “amado pai e esposo”, como assim registrariam as lápides dos túmulos pranteados mundo a fora, por que alguém quis morrer herói, nestes tempos de tantos bandidos?

Charles de Péguy morto na Batalha do Marne 1914

E assim eu retomo um antigo texto repetindo-me, porque vale reproduzir os versos de Charles de Péguy (1873-1914), pelo conteúdo idealista e viril ali contido: “Felizes os que morreram pela terra carnal,… numa guerra justa, […] Felizes aqueles que morreram nas grandes batalhas, Adormecidos sobre a terra e à fronte de Deus […] Felizes as espigas maduras e os trigos colhidos”.

Foram versos em que Charles de Péguy falava de uma guerra justa em defesa de sua terra carnal, a França, que iria lutar contra um inimigo espoliador , cruel e bárbaro, que era a Alemanha de então.

Nesta guerra milhões de combatentes pereceram de ambos os lados. Uma luta inglória poder-se-á dizer agora, afinal os contendores, França e Alemanha estão hoje muito amigos e bem unidos.

Memorial em Villeroy-sur-Marne (O nome de Péguy se encontra no alto à direita).

Vale de Péguy, porém, o ideal desejo de servir às suas concepções e crenças, afinal como subtenente da reserva aos 41 anos, Charles de Péguy respondera a mobilização de sua pátria e partiu em campanha  para a frente do Marne, não para fazer versos. Partiu para defender as suas crenças e logo de véspera  recebeu um balaço que o atingiu de frente, evidenciando estar avançando e sem recuo.

Vejo na morte de Nicanor Moura Neto o mesmo exemplo de Péguy.

Enfrentou o criminoso usando as armas que possuía; o diálogo, a tentativa de convencimento e este o feriu covardemente.

– “Ah, mas não vale à pena tal heroísmo!”

Vale! Vale a pena morrer por uma boa causa.

O que não vale à pena é se escafeder na covardia.

Todos não iremos morrer um dia?

Ninguém deve é se deixar matar. Também não se deve deixar morrer, apenas. Passar pela vida sem se fazer exemplo, sem merecer lembrança.

É quando me vem a recordação pessoal de Nicanor.

Fora meu aluno nas aulas de Física destinada a Engenheiros, já se passaram longos anos.

Relembro-o estudante aplicado, sorridente e bastante correto. Uma alegria que ultrapassou os bancos universitários continuando a ser um bom amigo de seu antigo mestre.

Encontrávamos pouco, é verdade! Nossos caminhos eram diferentes…

Enquanto eu continuei formando jovens, Nicanor seguiu exercendo sua especialização na Engenharia, onde se destacou em ações da Defesa Civil. Um sucesso que alegrava o meu coração, afinal os professores sempre se sentem vitoriosos quando veem sua obra crescer, ampliando contornos; uma semente lançada que germinou e se plenificou.

Como me lisonjeava vê-lo sendo entrevistado pela TV nos momentos em que a cidade estava a necessitar providências da Defesa Civil, fazendo-o com simpatia e eficiência.

Agora sai a notícia de seu assassinato, covardemente, num assalto mostrado também pela TV.

Não quis ir ao velório. Poderia chorar, e eu não queria isso! Não me faria bem!

Direi apenas neste pranto enclausurado, que restei menor no meu entorno e circunstância.

Mas, por que dizer isso, se podia ser bem pior, comigo próprio, com alguém de uma proximidade maior, sobretudo porque cada um deve chorar seu pranto no seu canto?

Porque a morte de um homem leva consigo um pouco da nossa humanidade.

John Donne (1572-1631)

Dissera um dia o poeta inglês John Donne (1572-1631); “Nenhum homem é uma ilha, completo em si próprio; cada ser humano é uma parte do continente, uma parte de um todo, que se faz menor”.

E mais: “A morte de cada homem diminui-me, porque eu faço parte da humanidade; eis porque nunca pergunto por quem os sinos dobram: é por mim.”

Assim, que não se diga em vão da ação derradeira de Nicanor Moura Neto.

Ele já está no me panteão pessoal, no memorial onde cultivo os meus heróis.

Que isso ajude a secar um pouco as lágrimas de seus entes mais queridos.

E que Deus nos ajude a superar mais essa dor.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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