Uma sessão nervosa e tumultuada

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Desde 1958, quando aos 14 anos, fui contratado pelo jornal “Gazeta de Sergipe” para fazer a cobertura diária de duas casas legislativas – a Assembleia Legislativa e a Câmara de Vereadores da Capital que não assistia uma sessão do Legislativo Estadual de forma tao desobediente e tão tumultuada quanto a de ontem. O plenário estava tomado de servidores públicos que foram assistir a votação da PEC (Proposta de Emenda Constitucional) que propõe alterações na Previdência Social Estadual, projeto do governo Belivaldo Chagas que já estava há alguns dias na Casa mas só ontem foi apreciada pelas Comissões Temáticas. Convocada pelo deputado Zezinho Sobral, líder do Governo, a sessão da Comissão de Constituição e Justiça deveria ter começado as 9h da manhã, mas, de fato só começou as 10h30. Quando foi encerrada, já passavam das 11h30. Na CCJ os deputados chegaram a um consenso na concretização de apenas quatro emendas, que depois desceriam para o plenário para, na sessão ordinária, procederem a respectiva votação. Sob os gritos de protestos dos servidores públicos que ocupavam as galerias, o Presidente da Casa, deputado Luciano Bispo , abriu a sessão e pós em votação as emendas. Estas foram aprovadas por 20 votos a favor, dois contra (dos deputados Iran Barbosa e Gilmar Carvalho, este claramente jogando para a plateia) e duas ausências, a da deputada Kitty Lima (ainda sob os efeitos de uma operação a que se submeteu a semana passada) e Rodrigo Valadares. O placar permanecia imutável: 20 a dois. Durante a votação a cada voto sim (de aprovação à PEC) ouviam-se palavras de ordem, “traidor”. A gritaria e os achincalhes prosseguiam até que o Presidente deu por encerrada a votação e encerrou a sessão convocando uma outra para a próxima segunda-feira, as dez horas da manhã.

Servidores frustrados

Os servidores então se retiraram do plenário da Assembleia Legislativa sem poder esconder a frustração. Dirigiram-se ao carro de som que desde cedo estava estacionado em frente à Assembleia e muitos líderes sindicais passaram a lavrar seu protesto pelo resultado da votação. Convocavam os servidores a voltarem a Assembleia Legislativa na próxima segunda-feira, quando haverá a votação de novos projetos, e na próxima quinta-feira, ou seja, um dia depois do Natal. A classe tem que estar mobilizada para estas duas ultimas sessões do ano. Na sessão de quinta-feira irão ser votados todos os projetos polêmicos, como o Orçamento do Estado para o próximo ano e o Plano Pluri-Anual. No momento da votação, os servidores pareciam frustrados prá valer com os votos de Francisco Gualberto – o vice-presidente da Casa foi intensamente vaiado nesta ocasião – e George Passos. A votação das quatro emendas e depois a votação da mensagem original propondo a PEC não tomaram muito tempo. Se atraso houve foi por conta das manifestações dos servidores que, a cada voto sim, acusava o parlamentar de traidor. A gritaria foi maior quando a própria PEC foi submetida a votação. Os servidores públicos portavam pequenos cartazes com frases de efeito – alguns deles chegaram a darás costas ao plenário, numa manifestação de repúdio aos parlamentares. Líderes sindicais gritavam que não iriam esquecer aquela votação e que se preparassem para enfrentar os eleitores daqui a 3 anos.

Zezinho Guimarães impedido de discursar

O único parlamentar que tomou coragem para ir a tribuna e enfrentar as vaias foi o sr. Zezinho Guimarães. As vaias se intensificaram quando ele fazia mensão de abrir seu discurso naquela sessão. Terminou desistindo e saiu da tribuna sem poder falar. Alguns manifestantes diziam que era o troco que eles estavam dando ao deputado que a cada gesto de vaia fazia gozações com a plateia. O Presidente da sessão, deputado Luciano Bispo ainda tentou contemporizar pedindo calma aos manifestantes mas também desistiu. Um jornalista chegou a enviar um bilhetinho ao presidente da sessão para que ele mandasse a Polícia e a segurança da casa evacuar as galerias. Mas, o Chefe de Comunicação da Casa,radialista Marcos Aurélio, não chegou a passar a mensagem ao presidente Luciano Bispo. Embolsou-o sem ao menos passar para o Presidente ler. Deve-se destacar a paciência do Presidente da sessão: em nenhum momento ele se exasperou ou perdeu o controle da sessão. Mas, ao terminar a sessão deu um profundo suspiro como se dissesse: “pronto, acabou”. Houve vaias que surpreenderam, como aquelas endereçadas ao vice-presidente Francisco Gualberto, ex-líder do governo, e ao deputado Georgeo Passos, atual líder da Oposição. Mesmo os dois parlamentares que votaram contra a PEC foram aplaudido, mas sem muita intensidade. O policiamento na Assembleia foi reforçado no hall de entrada, onde chegou a haver um principio de tumulto, com os manifestantes vaiando os seguranças. Eles queriam entrar de qualquer maneira no plenário, mas eram impedidos pela segurança, porque não havia mesmo como acomodar mais gente nas galerias. Houve gritaria mas os manifestantes se acalmaram logo e muitos foram até embora. Não havia mesmo o que fazer mais ali na Assembleia naquele momento.

Uma observação: nem sequer jornalistas, ou homens e mulheres da televisão, recebiam autorização para entrar no plenário. Só parlamentares e assessores deles. Mas, a ex-deputada Ana Lúcia permaneceu lá por toda a sessão. Por vários momentos veio às proximidades da galeria do plenário para dar instruções a líderes sindicais.

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