Vende-se um lar

0

Vendo um lar, feito de concreto e memórias, com armários bonitos, vento sul e uma vista para o mar distante. Vendo o lar que abrigou alguns dos melhores anos da minha vida até aqui – e que foram gravados nestas paredes a lágrimas e gargalhadas. Garanto que neste chão só pisaram pessoas boas. As que visitaram, as que moraram, as que trabalharam, as que passaram uma chuva ou dormiram uma noite, foram todas pessoas trazidas por bons ventos.

A sala é ampla, iluminada e feliz, guarda em si a lembrança de muitas reuniões animadas, de gargalhadas de muitos amigos e amores, de jantares e almoços a dois ou a dez, festas impublicáveis, danças hilárias. Mas guarda também a memória de muitos cafés-da-manhã solitários, ouvindo o silêncio da manhã mal acordada ou o suave chiado de um vinil na vitrola despertando o dia, de alguns cafés-da-manhã em boa companhia enamorada ou fraterna. Guarda o silêncio de lágrimas compartilhadas, de sérias conversas filosóficas sobre a vida, planos para dominar o mundo, tardes de filmes bobos com pipoca ou filmes sérios acompanhados de infindáveis debates sobre a humanidade e baleias ou sementes. Guarda tardes inteiras de estudo, algumas aulas de yoga e profundas meditações, guarda lembranças penduradas nas paredes e plantas espalhadas pelos cantos.

Tem uma varanda com rede e brisa do mar, com plantas e um mensageiro do vento a contar doces novidades de além-mar. Uma varanda construída com cochilinhos aos domingos, muitos livros lidos no balanço da rede, algumas conversas de pé de ouvido, horas de silêncio e contemplação. Mas, principalmente, os primeiros aprendizados sobre a mágica de plantar coisas, vê-las brotar, cuidar, esperar flores, mexer a terra, colher os frutos.

A cozinha não é muito grande, mas é bem iluminada. Guarda o fogo e o alimento de anos de histórias. Foi nela que aprendi a cozinhar e aprendi que cozinhar é também um ato de devoção. Nela não tem muito espaço, mas tem incontáveis almoços e jantares feitos para alegrar os que preenchiam a casa. Tem comidas feitas com amor e devoção, ofertadas em altares, mesa ou no chão mesmo a toda sorte de gentes e espíritos. Porém, a bem da verdade, é bom que se diga que tem também umas gororobas de domingo, que nunca mataram ninguém!, mas alimentaram fomes preguiçosas. E um ou outro brigadeiro de panela pra curar um coração partido ou uma raiva magoada.

Tem uma biblioteca, que abrigou com carinho livros e livros de toda uma vida. Feita toda ela de dias e mais dias de estudo, noites insones de leituras, cacarecos escondidos em gavetas e portas de armário, horas e mais horas de conversas via internet com todos os txais distantes. Anos de madrugueiras conversas australianas, com risos ou lágrimas. Incontáveis conversas baianas e paulistanas, amontoando saudades embaixo do computador. Um cantinho feito de sonho realizado, de livro escrito e finalizado, depois de inumeráveis versões reescritas e infindáveis horas de desespero.

Tem um quarto de hóspedes, humanos e espirituais. Decorado com simplicidade, mas com a incrível capacidade de atrair boas companhias pra esse lar. Erigido com a alegria de receber os peregrinos que por ele passaram e deixaram de si ao menos um sorriso. Nele estão guardadas as lembranças de todos os amigos amados que buscaram abrigo, por horas, dias ou meses. De duas room mates incrivelmente doces, que espalharam açúcar e afeto por suas paredes, deixaram pra trás saudades e alegrias compartilhadas. E umas lágrimas de cura. Esse mesmo quarto também está impregnado da fé derramada de um pequeno altar, pleno de amor e devoção, e da disciplina de horas e horas de meditação e práticas de yoga, tudo plasmado em suas paredes verdes.

Por último, tem uma suíte iluminada por um sol matinal leve e uma eterna brisa. Suas irreais paredes foram construídas com noites de sono e noites insones, alguma preguiça, muitos livros lidos em noites sonolentas ou nas manhãs preguiçosas de domingo – que avançavam tarde a dentro –, algumas lágrimas escondidas embaixo do travesseiro, muitas e muitas páginas manuscritas e alguns amores que adormeceram ao meu lado e velaram meus sonhos, nenhum deles se demorando mais que o tempo necessário.

Vendo tudo isso que não se põe em anúncio de jornal. Favor vir ligeiro, antes que eu desista de me desfazer de tanta coisa.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
Comentários