Verdades e equívocos.

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Volto ao tema anterior, não para refletir sobre o Brasil e o mundo vistos de fora, mas para ficar um pouco mais aqui dentro em terras antropófagas caetés, tentando sair do botocudo lugar comum, enquanto caverna escura editorial dos nossos jornais.

 

Neste contexto, sirvo-me da lição dada por Hannah Arendt consignando o dano causado pelo poder político, ao qual insiro também o processo doutrinador produzido pela imprensa na distorção e falseamento da História.

 

Lembrava a filósofa que por longo tempo o jornal soviético “Izvestia”, ou Verdade em russo, retirara de seus editoriais qualquer linha que contivesse o pensamento de Leon Trotsky, “grande águia da revolução bolchevique”, segundo o pensar de John Head, em “Dez dias que abalaram o mundo” e Edmund Wilson em “Rumo a Estação Finlândia”, caminho seguido por Historiadores soviéticos, por décadas, que em tempos incipientes de PowerPoint conseguiam editorar imagens e feitos de muitos líderes caídos em desgraças.

 

Desgraçadamente são muito escassas as possibilidades de que uma verdade factual consiga sobreviver ao assédio do poder, e da mídia aí bem inserida, que lhe serve como pantanoso atoleiro deletério.

 

Dir-se-á, por lento cautério, que o tempo sempre corrige todos os erros e versões, mas demora muito.

 

E como demora!

 

Neste contexto é louvável o sucesso do escritor Olavo de Carvalho em suas demonizadas “lives”, só porque destoam do lugar comum em que imperavam formadores de opinião nestes amplos e moucos brasis, por mais de trinta anos.

 

Tais opinantes reinaram por tanto tempo que já se consideravam indiscutíveis senhores da verdade em suas versões destorcidas e agora se denunciam incomodados só porque uma voz distante, lá de Virgínia, nos Estados Unidos, está a lhes retirar leitores e seguidores.

 

Como tudo aquilo que não nos agrada melhor ofende, o polemista Olavo de Carvalho vem sendo desclassificado por tais formadores de opinião encastelados na grande mídia nacional,  como um “Filósofo falsificado, desprovido de título ou graduação”, alguém que argumenta com palavras mal polidas de baixo escalão.

 

É verdade!

 

Carvalho abusa e desabusa de ásperas palavras, fustigando adversários em suas contundentes revelações, o que vem incomodando polemistas que o desprezam sem conseguir silenciá-lo em melhor argumentação, levando-o a se firmar cada vez mais notável em arrebanho de leitores, que se deliciam com as suas tiradas notáveis.

 

Agora mesmo, está a incomodar muitos seguidores recentes do Presidente Jair Bolsonaro, sendo-lhes um crítico mordaz a tantos que passaram a cerca-lo, como asteroides sem brilho e luz, sobretudo no vasto segmento militar que ressurgiu, mas vivia acabrunhado nas casernas sendo caçado fisicamente e tendo cassadas quaisquer palavras que ousassem externar, até mesmo aquelas de longínquo reflexo de sua antiga Escola Superior de Guerra, a “Sorbonne” tão prestigiado de outrora.

 

Militares, sobretudo os Generais, que o filósofo vergasta com mangual saneador, por se exibirem excessivamente exultantes e falantes, com muitas estrelas serelepes, mas sem nunca terem comandado uma batalha sequer, ou uma “guerra de travesseiros”, talvez, que os possa enaltecer.

Comemoração da Revolução de 1964.

 

Neste particular, foi notável a sua posição face às comemorações dos 55 anos do “Movimento Cívico-Militar de 31 de março de 1964”, definição à qual não se afasta nem tergiversa, contrastando Historiadores, pensadores e pesquisadores, infindáveis detratores, destruidores incansáveis dos fatos, demolidores de uma ciência a ser ocultada em nome de uma versão desfocada, inverídica e excludente.

 

“Malfadado filósofo”.

 

À parte isso, enquanto o “malfadado filósofo” reúne milhares, ou milhões talvez ,de seguidores às suas teses, vimos também como se fora uma maré minguante as comemorações em contrário, contra a “ditadura militar”, acontecidas em auditórios vazios, só para declinantes convertidos

O sufocamento resiste.

 

Em tanto sufocamento de versão, já se vê em acrescência contínua e progressiva, uma repulsa a este funesto amordaçamento da opinião pública, vigente por décadas.

 

Parece que com o passar do tempo cumpre-se aquelas promessas emprestadas no Evangelho em Lucas 19:40 quando se referia a “boa nova”: “se estes se calarem, as pedras clamarão”.

 

Se as pedras não falam ainda, o noticiário está a descrever como se fora de real importância uma eventual discórdia entre o Presidente Bolsonaro e o Vice Mourão.

O “enfant gaté” e o “enfant terrible’”,

 

Para a imprensa, se Bolsonaro já era o intragável “enfant gaté”, tornou-se em cem dias de mandato o “insuportável  ‘enfant terrible’”, a demolir.

O garoto adorável

 

Já Mourão, o Vice, tornou-se um novo Dom Sebastião, “ansiosamente esperado”, enquanto “enfant adorable” a bem ninar, para sanear todos os males e náuseas advindas do último pleito presidencial.

 

Eduardo Prado e a Ilusão Americana.

 

Em verdade, no cerne da questão, estamos a contemplar um novo ato dos comuns entreatos da nossa República, um tema não percebido por Eduardo Prado em seu fundamental livro “A Ilusão Americana”, publicado em 1893, quatro anos depois da Proclamação da República, obra primeira a ser proibida e apreendida pela política republicana em São Paulo.

 

É sabido que Eduardo Prado, enquanto monarquista convicto, criticava a República Positivista de Deodoro, Benjamin Constant e Floriano Peixoto, apontando as diferenças abissais entre o Brasil e os Estados Unidos.

 

Para Eduardo Prado, a república proclamada numa quartelada pelo Marechal Deodoro fora um arremedo canhestro da norte  americana, a quem imitou em maneira servil e equivocada, opinião que lhe trouxe sérias perseguições e banimentos.

 

O Destino Manifesto.

 

Por conta disso, e já perdido no tempo em que se pintava o Brasil como uma terra assaz pacífica e jamais intolerante, Prado denunciava naqueles tempos longínquos, uma teoria nascente do imperialismo americano, denunciando as ações de vários de seus Presidentes como James Monroe, Andrew Jackson e James Polk, naquilo que viria a ser a Doutrina do Destino Manifesto de conquista de toda a América.

 

O que Eduardo Prado não dissertou em “A Ilusão Americana”, publicado em 1893, e que não viveu para constatar, afinal morreu em 1901, aos 41 anos, ainda no governo Deodoro, bem merece destacar em nossa História, até para assinalar outras discordâncias com a grande nação do Norte.

 

Vice-presidentes conspirando para derrubar Presidentes.

 

Refiro-me ao entrevero corriqueiro e continuado dos Vice-Presidentes da República brasileira sempre conspirarem contra o Presidente de plantão, para derrubá-lo do poder, sobretudo nas últimas décadas desse imenso Brasil.

 

Se na nação Yankee em 230 anos de República, 45 Presidentes se sucederam sem escaramuças e/ou golpes de Estado, nove não concluíram o mandato, quatro por assassinato (Abraham Lincoln, James Garfield, William McKinley, John Kennedy), substituídos por seus Vices (Andrew Johnson, Chester Arthur, Theodore Roosevelt e Lyndon Johnson), enquanto outros quatro faleceram de morte natural: Pneumonia – William Harrison; Gastroenterite – Zachary Taylor; Warren Harding – Ataque Cardíaco; Poliomielite – Franklin Roosevelt, todos substituídos por seus Vices sem maiores traumas institucionais: John Tiler, Milard Filmore, Calvin Coolidge e Theodore Roosevelt.

 

Nixon, a exceção.

 

Houve, todavia, um Presidente, Richard Nixon, que renunciou no seu segundo mandato, evitando um processo de impeachment, por conta do famoso escândalo Watergate, sendo substituído por Gerald Ford, um Vice, anteriormente nomeado pelo Congresso.

 

Afora improvável elucidação do assassinato de John Kennedy, em Dallas, no Texas, terra de Lyndon Johnson, não se conhece nestes 230 anos fatos notáveis que justifiquem uma eventual conspiração golpista dos Vices contra seus titulares, algo, senão vejamos, bem comum no Brasil.

 

No Brasil a conspiração é séria.

 

Com 100 anos a menos, a República brasileira já apresenta nos seus primórdios algo que bem cabe refletir: O Vice Floriano Peixoto, com 10 meses de mandato, comandou um golpe forçando a renúncia do titular, Deodoro, utilizando a Revolta da Armada, comandada por Custódio de Melo, assumindo o poder provisoriamente como Vice que se perpetuou como 2º Presidente, de 1891 a 1894.

 

Já o 3º Presidente eleito, Prudente Morais, afastado por quatro meses para tratamento de moléstia e substituído pelo Vice baiano Manoel Vitorino, quase não retorna.

 

Prudente de Morais quase naufraga.

 

Há quem diga, que alguns conspiradores jacobinos da linha florianista se utilizaram de Vitorino para apear Prudente via assassinato, utilizando-se de um Anspeçada, chamado Marcelino Bispo, veterano da Guerra Inglória dos Canudos.

 

No atentado, Prudente foi defendido pelo General Machado Bitencourt, que perdeu a vida, salvando a ordem na República.

 

Há, nesse sentido, uma charge notável mostrando as dificuldades de Prudente de Morais para se equilibrar na Presidência.

 

Outros Levantes e Tentativas.

 

Se na República Velha este foi o fato mais notável da instabilidade dos governos, outros Presidentes sofreram escaramuças golpistas, sobretudo aquelas advindas de setores do Exército, como o Levante dos “Dezoito do Forte de Copacabana”, o episódio das “Cartas Falsas” atribuídas a Artur Bernardes, a Revolução de 1930 que derrubou Washington Luís, a Coluna Prestes-Miguel Costa, o Plano Cohen, etc, etc, até derrubar Getúlio Vargas.

 

Quanto a Vices conspirando contra os titulares, o que dizer do suicídio de Getúlio Vargas, por conjuração de Café Filho e Carlos Luz, derrubados estes, via golpe pelo Marechal Lott, em nova “novembrada” para imposição da legalidade, com Nereu Ramos, forçando o respeito às urnas e a posse do eleito Juscelino Kubitschek?

 

Se o Vice cairia também nas tentativas frustradas de Aragarças e Jacareacanga para a derrubada do titular Kubitschek, o que dizer com a sucessão de golpes contra a posse de João Goulart, com a invenção de um Parlamentarismo de ocasião, e o próprio movimento militar de 31 de março de 1964?

 

E o regime militar?

 

E o próprio Regime Militar não impediu a posse do Vice Pedro Aleixo, só para dizer que enquanto “Ditadura Envergonhada”, pôde se afirmar quando quis e desejou uma  “Ditadura Escancarada”, banindo as lideranças civis sem pejo ou medo, afinal quem sempre pode o mais, o menos pode fazer, até mesmo se deixar “Encurralar” e “Derrotar”, findando como “Ditabranda”?

 

Ditadura e Ditabranda.

 

Mas, como ainda é bem melhor carpir insolência e verter “sofrência”, falar em “Ditabranda” é lento conceito que desperta em contraponto às Comissões de Verdade, cujos relatórios, à falta de cadáveres e mutilados à exaustão, não se sustentam, nem se respeitam, só convencendo os seus eventuais interessados e/ou beneficiários.

 

Volta Olavo de Carvalho.

 

Neste contexto, o polemista Olavo de Carvalho desfere suas críticas a tantos generais de parcas glórias desferindo verdades que incomodam, sobretudo agora que ressurgiram imponentes na nova república bolsonariana.

 

Gracejando corrige-se os costumes.

 

Talvez, utilizando o aforismo latino “Ridendo castigat mores“, ou gracejando castiga-se os costumes, o polemista Olavo de Carvalho esgrime inconteste o seu melhor florete: – “General para mim foi Alexandre Magno, Júlio César, Napoleão Bonaparte, Ulysses Grant, o General Lee, não estes que nunca comandaram nada, ou talvez uma guerra de travesseiro!. E quanto à cultura militar brasileira, a última grande obra foi escrita por Euclides da Cunha!”

 

Será tudo um simples equívoco?

 

Estará o polemista equivocado nas suas análises quando denuncia no General Mourão um germe golpista de insubordinação, alguém que conspira abertamente contra o governo do Capitão Bolsonaro?

 

Só o tempo dirá, porque na República do Brasil em fato não denunciado por Eduardo Prado, o comum é o Vice conspirar contra o titular. Que falem por mim os feitos de Michel Temer e Itamar Franco.

 

 

 

 

 

 

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