Viagem à Índia

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A viagem do Presidente Bolsonaro, recebido com flores na Índia me fez relembrar a visita que eu fiz àquele grande país do sudeste asiático no final de 1994 e início de 1995, quando liderei um Intercâmbio de Grupo de Estudos patrocinado pela Fundação Rotária do Rotary Internacional.

Deste grupo de estudos faziam parte quatro profissionais dos Estados de Sergipe, Bahia e Alagoas, liderados por um Rotariano pertencente ao Distrito 4390 de Rotary International, cuja abrangência se estendia aos Estados de Alagoas e Sergipe e todo o Norte da Bahia.

Com este Programa da Fundação Rotária, o Rotary International norteado na busca da compreensão e entendimento entre os povos, além de muitas bolsas de estudo oferecidas, promovia anualmente tais Intercâmbios entre Grupos de Estudo Distritais, sempre coordenados por um Rotariano, único membro ligado à instituição, sendo vedada a participação de seus familiares ou outras pessoas que possuíssem ligação com os clubes ou seus associados.

Chegada do GSE-Team, a Madras- Índia recebido com flores, em 14/12/1994.
Da esquerda para a direita: Eng. Agr. Carlos França. este articulista, o Geólogo Moacir Wanderley, o Empresário Carlos Hora e o Técnico em Informática Josué Amâncio.

Naquele ano de 1994 o Intercâmbio de Grupos de Estudos, o GSE-Team, como assim era conhecido enquanto sigla inglesa, foi constituído por mim, Odilon Cabral Machado, como Team-Leader, e então Docente da Universidade Federal de Sergipe, e os Profissionais Carlos França – Engenheiro Agrônomo; Moacyr de Lins Wanderley – Geólogo;  Carlos Hora – Professor de Idiomas e Josué Amâncio – Técnico em Informática Comercial.

 

Em reciprocidade o Distrito 4390, por seus Clubes em Sergipe, Alagoas e Bahia recebeu a visita de similar grupo indiano liderado por Surendra Singhvi – Team-Leader, constituído pelos profissionais Miss Anuradha Patil, Ph. D. C. Nagabhushan,  Murali Krishna e Syed Akran, todos do Distrito 3160 localizado nos Estado de Tamil Nadu, Andhra Pradesh e Karnataka na índia.

A nossa visita à Índia, foi uma longa maratona de viagens e encontros, que começou na cidade de Madras, hoje Chenai, no Estado de Tamil Nadu, daí seguindo por longas estradas, percorrendo cidades, vilarejos, propriedades rurais, indústrias, muitas escolas, algumas universidades, postos de saúde e puericultura, visitando in loco a realidade de um povo com muitas carências, a evidenciar o seu esforço denodado em alcançar o progresso em meio a uma população enorme, um verdadeiro formigueiro humano, uma multivariada formação cultural e religiosa, algo que não nos era comum, afinal no Brasil, a despeito das nossas diferenças regionais, somos um verdadeiro continente a professar o mesmo Deus e a se comunicar num mesmo, e único, idioma.

Relembrando a viagem, me vejo a percorrer estradas nunca dantes imaginadas, partindo de Madras, Capital do Estado de Tamil Nadu, enorme cidade, localizada no Golfo de Bengala, exibindo ainda antigos resquícios da Companhia Britânica das Índias Orientais, a região mais meridional do subcontinente asiático que visitamos, ainda não tão próxima da Taprobana de que nos falou Luiz Vaz de Camões no seu épico da lusa pátria.

Roteiro da viagem do GSE-Team de 14 de dezembro de 1994 a 12 de janeiro de 1995.

A exemplo do Presidente Bolsonaro que foi recebido com um colar de flores na sua visita à Índia, também nós, em 14 de dezembro de 1994, fomos recebidos com flores por um grupo de indianos, liderados pelo Rotariano Surendra Singhvi que nos aguardava no aeroporto de Madras.

Recebidos no aeroporto de Madras, ficamos hospedados num confortável Hotel, oportunidade em que travamos conhecimento com a comida indiana, num lauto jantar vegetariano oferecido, excessivamente condimentado para os nossos gostos e hábitos.

Tudo era novo para nós, desde o não uso de talheres, colher, faca e garfo, um luxo que nos seria desconhecido em lautas mesas ou modestas, por quase trinta dias, a etiqueta exigindo a ablução da mão direita, única a ser utilizada na alimentação, desde o servir-se no corte do chapati, o pão fino necessário para o preparo do bocado a ser encaminhado à boca.

Em prévias de viagem, achávamos que o não uso de papel higiênico seria mais uma piada que nos contavam sobre os indianos.

Não era! Foi preciso aprender como usar a indefectível canequinha presente sempre do lado esquerdo dos aparelhos sanitários que nos forçavam a esvaziar os intestinos acocorados.

Outro hábito que me foi difícil aprender era a necessidade de retirar os sapatos quando do ingresso a um templo ou residência.

Eu detesto andar descalço, e na Índia era um tal de tirar e depois calçar o sapato com o pé sujo, detestável; um hábito interminável, de manhã à noite, afinal tínhamos que realizar muitas, visitas, encontros, reuniões e solenidades, numa agenda bastante concorrida.

Os indianos são muito zelosos e disciplinados, diferente de nós, brasileiros, sempre dispostos à improvisação e impontualidade.

A viagem era de estudos, troca de conhecimento, um intercâmbio cultural e científico no contexto Rotário objetivando semear gestos de compreensão e permuta entre povos, etnias e relações comerciais, visando sobremodo a compreensão universal.

Poder-se-ia dizer que talvez fosse um utopia os rotarianos gastarem recursos financeiros e logísticos promovendo viagens sem objetivar retornos específicos, afinal de nenhum de nós foi solicitado, uma resposta, uma retribuição, senão a própria mudança como ser no contexto amplo de compreensão entre os povos.

Antes de iniciar o périplo indiano o nosso roteiro de viagem incluiu um estágio inicial de sete dias em Frankfurt, Alemanha, para participarmos de um pequeno curso de inglês no Instituto Berlitz, com ênfase em temas da viagem, uma tentativa de nos habilitar na comunicação difícil com as dezenas de idiomas oficiais que iríamos descobrir em vasto emaranhado de símbolos, letras, sons e dialetos.

Comprovaríamos posteriormente no exercício da missão de intercâmbio que a comunicação seria extremamente difícil, senão impossível  não fosse a língua inglesa, o idioma do colonizador, ser elo relacionador entre as diversas etnias distritais e municipais.

A Índia é algo impensável comparando-se com o Brasil, um nacional não conseguindo se comunicar com seu vizinho, sobretudo por barreiras idiomáticas, sem falar de outras de caracteres familiares e religiosas, as castas constituindo exemplo delimitador de separação entre os humanos.

Não creio que a Índia tenha mudado muito nesses quase vinte e cinco anos que nos separa daquela viagem.

De lá para cá, dois membros do “team”, o alagoano Carlos França e o baiano Carlos Hora estão falecidos, uma saudosa memória que restou.

Quanto a Índia, ah a Índia!, entre mortos e viventes, creio que dois ou três Brasis foram acrescidos à sua população, um desafio extremamente difícil de resolver em termos de alimentação, sobrevivência, educação e carências de tudo; e mais alguma coisa.

Uma fotografia impensável no Brasil.
O indiano em sua pobreza e carência de tudo, utiliza até o escremento do bovino, não como estrume, mas sendo jogado na parede de um muro, para que uma vez seco ao sol, possa servir de combustível. Um sinal de que toda a sua lenha já não está disponível.

Nossa caminhada, como foi dito, começou em Madras, seguindo ao Norte para Guddur, quase um vilarejo com poucos milhares de almas, quando Rotarianos nos acolheram em suas modestas habitações.

A estrada de Madras para Guddur, e isso seria comum em toda Índia visitada, possuía um capeamento único permitindo apenas a passagem de um veículo por vez, o que nos ensejava muito medo, afinal se houvesse o encontro de duas conduções em sentidos opostos, as duas disputavam o caminho, até que um, que terrível!, adquiria juízo e se desviava pela esquerda, em mão inglesa, evitando a colisão, em total falta de costume para nós.

As estradas que percorreríamos na Índia pareciam-nos verdadeiros roteiros dos filmes de Indiana Jones, então sucesso de bilheteria.

Chegando a Guddur, após três horas de viagem, visitamos um Colégio mantido pelo Rotary, tendo a meninada em festa nos recebido com alegria.

Depois conhecemos uma fazenda que cultivava arroz, cana de açúcar, manga e jasmim, irrigada por gravidade, utilizando uma pequena bomba diesel como complemento, local onde nos foi oferecido um lanche, em meio a sombra de arvores frondosas como se fora um verdadeiro piquenique cultural, desfrutando da natureza numa reunião que se estendeu ao anoitecer, sem iluminação elétrica, como bastante troca de dados e experiências agrícolas.

De Guddur partimos em destino oriental para Nelore, cidade que pensávamos encontrar um grande rebanho bovino, origem do gado leiteiro brasileiro.

Se em Guddur as minhas acomodações foram modestas, em Nelore fiquei hospedado numa confortável residência de um industrial fabricante de refrigerante, de nome B. Chithambaram e sua esposa, muito gentil e delicada.

Regra geral existia um desconforto na nossa hospedagem, afinal os cinco membros do Grupo sempre ficava disperso em habitações diferentes; uns em casas melhores, outras nem tanto, a ensejar alguma insatisfação, afinal muitas das vezes acontecia um desconforto, por habitações simples e modestas.

Em Nelore, nova visita a fazenda de arroz irrigado, depois algumas clínicas e postos de saúde, oportunidade em que constatamos carências de tudo, culminando com uma clínica organizada de propriedade de um médico, que adotara duas meninas acometidas com poliomielite.

O Rotary, naqueles anos, encetava uma campanha internacional de erradicação da paralisia infantil, via programa Pólio-Plus, e aquele médico era um benfeitor desse programa, contribuindo como eu próprio o fiz depois, ao conseguir liderar uma campanha de doações que em nível distrital reunira contribuições de alguns milhares de dólares, mediante concessão de Títulos Paul Harris.

Em Nelore aconteceu uma tempestade terrível, as ruas ficando alagadas, quase impedindo a nossa volta após uma reunião jantar no Clube anfitrião, seguido por uma apresentação humorística de um comediante que num idioma não identificado levara o auditório a imensas gargalhadas sem nos arrancar, um sorriso sequer, por reação.

De Nelore seguimos para Cuddapah numa viagem de cinco horas e meia, onde visitamos um projeto de assentamento de 350 famílias, inaugurando ali um posto de atendimento médico, que no meu entender era precaríssimo, a requerer ajuda da comunidade internacional.

Em Nelore a visita foi mais light, afinal conhecemos um antigo templo Hindu, sendo abençoado por um de seus líderes, com direito a receber na testa  um sinal avermelhado do que seria, salvo engano, “o terceiro olho de Shiva”, em oferta a partir de alguns cocos abertos num ritual cantado.

Se houve cantos no templo Hindu, à noite no meeting, após as apresentações e comunicações entre nós e os anfitriões, houve uma exibição de danças típicas de garotas e rapazes, que nos pareceu bastante interessante.

No dia seguinte visitamos uma escola de 800 crianças, que nos recebeu em desfile de pompa e circunstância, oportunidade em que falamos do Brasil, cantamos algumas das nossas músicas, fomos agraciados com medalhas comemorativas, terminando com os Hinos, brasileiro e indiano, sendo cantado por nós, em retribuição cívica aos estudantes e seus professores.

De Cuddapah, em nova viagem, desta vez para Proddatur, ficamos hospedados numa Fábrica de Laticínios, oportunidade em que vimos todo o processo da recepção da matéria prima, sua higienização e pasteurização.

Em Cuddapah novas visitas a hospitais e postos de urgência, inspeção a uma fábrica de extração e refino de óleo de amendoim que produzia alguns milhares de litros por dia, culminando com uma visita ao Convento Saint Joseph, entidade que mediante ajuda dos rotarianos belgas abrigava cerca de duas mil crianças órfãs.

Pernoitando em Cuddapah seguimos viagem para Anantapur, oportunidade em que nos levaram a conhecer a cidade do Saibaba que estava a receber uma multidão de visitantes do mundo inteiro, afinal aquele dia era 24 de dezembro, um dia muito caro aos ocidentais que estávamos a sofrer separados dos nossos familiares.

Depois a viagem prosseguiria de Anantapur a Adoni, dali para Gulbarga, onde conhecemos uma bem instalada Universidade, onde fizemos contato com professores e alunos, embora fosse um momento de descanso por ser um feriado.

Em Gulbarga tivemos uma noite feliz, afinal todo o grupo pode se hospedar no mesmo local, no Hotel Aditya, segundo as anotações de meu relatório de líder.

De Gulbarga fomos a Bidar, onde visitamos um enorme forte muçulmano, relíquia mal conservada da presença muçulmana, algumas mesquitas, templos hindus, outros sikhs  e vários túmulos de figuras heroicas daquele povo.

De Gulbarga seguimos para Hospet, onde conhecemos as ruinas de Hampi, magnífica lembrança do antigo império Karnataka, depois visitamos um mina de ferro, e à noite, por ser véspera de ano novo, participamos de uma festa surpresa na fazenda de Sumil Hospet,  com muita luz, fogos e música, o anfitrião que abrigou todo o grupo.

De Gulbarga, nova viagem, desta vez para Sandur, onde conhecemos uma fábrica de chips e componente eletrônicos, comprovando então avanço tecnológico na área de semicondutores.

De Sandur fomos a Davangere onde fui hóspede na residência de Narayama Swami, simpático empresário, sua esposa Vaidehi, seu filho Rakeshi e sua filha Nandini.

Em Davangere visitamos uma moderna faculdade de odontologia, o Banpuji Dental College Hospital, a Faculdade de Medicina, um Museu de Anatomia com vários espécimes exóticos em anomalias da natureza, uma vasta coleção de cactos, tendo o grupo sido homenageado numa exposição de Numismática que tive a honra de inaugurar, cortando a fita da exposição.

Ainda em Davangere visitamos uma fábrica de papel, momento em que tomei conhecimento do tratamento da lixívia negra e branca empregados, elementos altamente poluidores na produção do papel.

Da indústria de celulose fomos para a têxtil Davangere Cotton Hill, com mais de 3000 funcionários, culminando com uma visita noturna, em plena escuridão, a uma fábrica de açúcar bruto e rapadura. Era o contexto da modernidade frente o artesanal.

De Davangere fomos a Chitradurga onde o time foi arguido sobre o Brasil. Talvez tenha sido aí o encontro que me pareceu mais desagradável.

Se os Indianos do brasil só ouviam falar de Pelé, nessa mesa de debates fomos cobrados hostilmente pela conservação da Amazônia.

Este povo, que não sabe o que é, nem onde se encontra o Brasil, como a ambientalista adolescente sueca Greta Thunberg, e o Indiano não lhe era diferente, pensava talvez que a Amazônia ficasse pouco além do nosso quintal.

Ora, a julgar pelo roteiro de nossa viagem, em termos de distância percorrida, não sairíamos dos limites de Alagoas, Sergipe e norte da Bahia, quanto mais chegar às matas virgens amazonenses. E agora, cobrados por indianos, com sua floresta raspada pelo formigueiro humano que a consumia como verdadeiros gafanhotos.

Como só se vê o que se quer, o desagrado passou com uma noite insone antes da sequência para Bellary, elegante cidade, onde ocorreria a Conferência Distrital e com ela a nossa apresentação final coroando o périplo do GSE -Team.

Interessante que numa da noites, o anfitrião da Conferência, o Governador do Distrito, M. Huq ,ofereceu um lauto jantar aos rotarianos destacados do Distrito 3160, primeira vez em que iriamos utilizar talheres em quase trinta dias. Foi a nossa desforra: auxiliar os indianos a utilizarem garfo e faca.

Voltando ainda à Amazônia enquanto bola da vez. Como falar com proficiência da nossa Amazônia de modo a desfazer equívocos e rejeitar acusações de elementos radicais conservacionistas que a querem para si?

Talvez tenha sido essa a tarefa mais difícil que enfrentei nos trinta dias de roteiro, afinal era muito traumático calar diante de tanta miserabilidade que constatáramos em  todo o tempo da viagem, sem poder externar, para não desagradar.

Curioso é que a Índia, a despeito de tanta miséria e desnível social apresentados, é um gigante no mundo cientificamente falando.

Na visita do Presidente Bolsonaro, o governo indiano tentou mostrou isso numa parada monumental de disciplina e aparato bélico.

Em contrapartida na Índia que visitei, nem os casamentos aconteciam com ampla escolha de parceiros, algo terrível em terras brasílicas, onde as raças se misturam em vasto gozo sem traumas.

Na nossa visita chegamos a constatar a separação de castas, como algo tão comum, que me pareceu ainda hoje um absurdo.

Na própria Conferência Distrital isso me pareceu insuportável.

Era inviável reunirmos alguns rotarianos conhecidos no caminho, uma vedação absurda de encontro entre amigos e companheiros, por constituírem grupos diferentes, castas distintas, como se fossem iguais à água e ao óleo, imiscíveis.

Nesse particular, Casa Grande e Senzala de Gilberto Freire, é um hino de amor à brasilidade, tudo aquilo que Portugal, por certo também plantou na Índia, mas não vingou; feneceu.

A nossa visita à Índia me deu uma certeza indiscutível: Saí do Brasil como se fora um habitante do 3º Mundo. Voltei sabendo que o Brasil não pertence ao 3º mundo, muito menos ao rol dos países que patinam em busca do desenvolvimento.

O Brasil, tenhamos certeza sem ufanismo, é uma grande nação.

O Brasil é cachorro grande, mesmo que ainda nos achemos um vira-lata complexado só valoroso na várzea do futebol.

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