Vida que segue

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A seca que castiga o sertão nordestino denuncia que o crescimento do Brasil e os avanços conquistados pelo brasileiro na última década passaram ao largo desse povo fadado a esperar que Deus e os céus mandem chuva. Enquanto o mundo inteiro se farta de futilidades eletrônicas, o sertanejo nordestino continua sonhando com a quantidade necessária do bem mais primário, a água que vai regar a horta e manter vivas as vaquinhas, garantia do pão na mesa da família.

Os sertanejos mais velhos, de tez crestada e acostumados com a vida em ciclos, já comparam a estiagem atual com a seca dos anos 1970, quando ocorreu um grande e dos últimos ciclos migratórios de nordestinos para a região Sudeste, principalmente. Entre as décadas de 1930 e 70, dos imigrantes que chegaram a São Paulo, 58% provinham do Nordeste, sendo que 15% desses diretamente da região do Polígono da Seca, garantindo a força de trabalho para a expansão da região metropolitana da capital paulista.

Os números atuais já são mesmo alarmantes: 750 municípios e 80% do semiárido nordestino atingidos, mais de 4 milhões de pessoas afetadas. Ou seja, duas vezes a população de Sergipe sofrendo diretamente com a falta d’água até para o consumo humano.  Em muitos municípios, nem deu para plantar, não há um grão de milho ou feijão para colher.

O êxodo rural caiu, mas continua não apenas no Nordeste. No entanto, hoje os sertanejos buscam as cidades ou as capitais das suas próprias regiões. De acordo com Censo 2010 do IBGE, a população rural no país perdeu 2 milhões de pessoas entre 2000 e 2010, o que representa metade dos 4 milhões que foram para as cidades na década anterior.

No início da segunda década do século 21, mais de 80% da população nordestina já vive em áreas urbanas, reflexo da maior quantidade de serviços ofertados, garantia de água e programas sociais mais presentes. Essa disparidade fica ainda mais evidente durante as secas. Por isso o permanente fluxo do campo para a cidade. Não há alternativa, porque, no fim das contas, persiste o crônico desinteresse numa política séria de fixação do homem no campo.

O doutor em economia popular e professor da Universidade Federal de Alagoas, Cícero Péricles, resume numa recente reportagem como a seca resulta em danos sociais e econômicos à população e à economia do semiárido. “O prejuízo é imediato pela impossibilidade do plantio decorrente da falta de água ou mesmo a perda total da colheita. Essas perdas familiares repercutem na vida comercial dessas cidades, reduzindo o vigor das feiras e das atividades na prestação de serviços. Como são localidades pobres, sem um tecido econômico dinâmico, as consequências imediatas desse fenômeno são vistas de maneira dramática, com relatos de perda de patrimônio e endividamento das famílias de agricultores e moradores da área rural e urbana”, finaliza.

A indústria da seca, o histórico uso político da água no Nordeste, perdeu força nos últimos anos, mas não acabou. Não se acaba uma prática secular em poucos anos. Num passado nem tão distante, quantos não se beneficiaram dos recursos físicos e financeiros da Sudene, do Dnocs e até do INPS para beneficiar as próprias fazendas ou, quando muito, dos cabos eleitorais?

Como poços, barragens, cisternas e adutoras não foram construídos quando e onde deveriam, restou a conveniente saída da política assistencialista. Porque sempre foi lucrativo para uma minoria deixar o sertanejo vulnerável, à espera das ações emergenciais. Até que venha o próximo ciclo da seca.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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