Visão do endocrinologista sobre o uso de esteroides anabolizantes

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Quantos “agoras” perdermos esquecendo que o risco pode ser a salvação de muitas alegrias de nossas vidas… O medo que nos impede de sermos ousados agora, também está nos impedindo de vermos a linda pessoa que podemos ser.( Clarice Lispector )

A necessidade de ter um corpo ideal ou um desempenho físico melhorado de forma rápida e prática leva o praticante de musculação ou atleta a usar algum tipo de esteróide anabolizante.

A maioria dos usuários, principalmente os iniciantes, sabe que corre algum risco ao usá-los, apesar de não saberem especificamente qual o risco potencial de sua utilização sem orientação médica adequada. O que assusta ao Endocrinologista é a atitude de achar que ‘vale a pena’ correr esse risco.

O que sabemos é que eles oferecem possibilidade de danos graves (muitas vezes irreversíveis) à saúde física e comportamental dos seus inconsequentes usuários.

As alterações fisiológicas causadas por eles vão de simples e leves cefaléias (dores de cabeça) até a tumores graves, além de abranger transtornos psíquicos irreversíveis.

A busca pelo corpo ideal está evidente na sociedade atual, a qual faz do corpo um objeto de possível modelagem. Diversas são as formas de se modelar, reparar, aumentar ou diminuir proporções, modificando-se a estética natural, e uma das mais usadas em nosso meio é o de se modelar utilizando esteroides anabolizantes, que podem ser considerados pela maioria como uma via de ‘efeito rápido’.

Os Esteróides Anabolizantes são hormônios sintéticos derivados da testosterona e são conhecidos como ‘bomba’ no meio de frequentadores de academias e fisiculturistas. Mas sabemos que, por sua vez, a testosterona é o hormônio responsável pelo desenvolvimento das características sexuais secundárias associados à masculinidade, e que os referidos hormônios apresentam formas farmacêuticas em comprimidos ou injetáveis.

Os usuários dessas sustâncias buscam pelos seus efeitos anabólicos, isto é, o efeito que aumenta a massa muscular e proporciona força física, no entanto sabemos que o seu uso não clínico, pode acarretar alterações fisiológicas reversíveis e irreversíveis e alterações psíquicas e comportamentais imensuráveis e de difícil controle, após a sua instalação.

Clinicamente, os endocrinologistas utilizam essas substâncias no sentido de tratar disfunções das glândulas que o produzem e na melhora da sobrevida de pacientes com doenças graves, ou seja, aquelas que afetam a parte física do indivíduo de forma consultiva, como os cânceres.

Testosterona

A testosterona é o principal esteroide circulante no homem e é sintetizada a partir da molécula de colesterol e secretado pelas células de Leydig no testículo e pelo córtex da glândula supra-renal, respondendo ao estímulo de hormônios produzidos pela hipófise; sendo que ele e seus derivados ativos

são quem promovem e mantêm as características sexuais masculinas e as condições anabólicas dos tecidos.

Ela exerce sua ação em diversos locais no organismo, ou removidas pela própria testosterona ou pelos seus metabólitos.

A sua metabolização pode gerar esteroides ativos como di-hidrotestosterona e o estradiol (que corresponde a 85% do estradiol circulante nos homens).

A testosterona ao ser metabolizada pelo fígado se divide em dois metabólitos ativos (di-hidrotestosterona e estradiol) e dois inativos (androsterona e etiocolanolona).

O efeito anabólico da Testosterona torna-se o grande desejo dos usuários não autorizados em consegui-lo de forma artificial, ou seja, proporciona aumento da massa muscular esquelética pela hipertrofia das fibras musculares, devido ao aumento da síntese protéica intracelular causada pelo balanço nitrogenado positivo, aliado ao aumento da fixação de nitrogênio.

Esses efeitos anabólicos também estimulam a eritropoese,facilitando a fixação do oxigênio na hemoglobina que é presente nas hemácias, pelo aumento na síntese de uma enzima que é a grande responsável pela fixação de O2 na hemoglobina.

O efeito androgênico dos esteróides anabolizantes é o de ser diretamente responsável pelas características sexuais masculinas, como por exemplo na maturação dos órgãos reprodutores, crescimento de pelos pelo corpo, mudança de voz, aumento da atividade de glândulas sebáceas e principalmente mudanças psicológicas e comportamentais.

Utilização terapêutica dos esteroides anabolizantes Eles são usados em deficiências androgênicas como o hipogonadismo,puberdade e crescimento atrasados, retardo no crescimento do pênis em neonatais, no tratamento da osteoporose, anemia causada por falha na medula óssea ou nos rins,

câncer de mama quando avançado e até mesmo em situações de obesidade. Os EA também são utilizados no tratamento de pessoas com câncer e AIDS em estágios avançados (condições crônicas e desgastantes), devido ao seu efeito anabólico.

Em questão de eficiência anabólica, a testosterona não é muito eficiente, quando ingerida ou mesmo injetada, pois a mesma é metabolizada rapidamente. Para se obter efeitos prolongados da testosterona, modificou-se sua estrutura química no sentido de obter uma ação mais efetiva de suas características

fisiológicas, ou seja, se reorganizou a molécula de tal forma que se conseguiu formar esteróides orais de catabolismo retardado, além de se obter esteroides anabolizantes injetáveis mais lipofílicos.

O que são esteroides anabolizantes?

São produtos naturais ou sintéticos, que visam apresentar o efeito anabólico da testosterona. Os mesmos são promotores e mantedores de características associadas à masculinidade, em geral derivados sintéticos da testosterona. Isso significa que todas essas substâncias apresentam efeitos anabólicos e androgênicos.

Os esteróides anabolizantes de última geração visam acabar com efeitos andrógenos, mas por enquanto os ‘novos’ conseguem apenas diminuir tais efeitos. Os mais citados nas academias de ginástica são: isocaproato de testosterona e cipionato de testosterona, decanoato de nandrolona e fenpropionato de nandrolona.

Convém salientar com bastante ênfase que, igualmente aos efeitos anabólicos e androgênicos, as reações adversas são diretamente proporcionais e dependentes da concentração, frequência e duração, o que nos dá o tom da gravidade do seu uso não terapêutico.

O uso indiscriminado dos Esteróides Anabolizantes podem ocasionar sérios efeitos lesivos ao organismo, que podem ser imediatos ou agudos e efeitos retardados ou de longo prazo,que em geral são os mais nocivos à saúde.

Alterações Comportamentais

Podem levar a irritabilidade, hostilidade e a atos de agressividade como brigas e crimes de vandalismo. Além disso, podem apresentar sintomas cognitivos como distração, esquecimento e confusão mental.

No caso dos efeitos psicológicos podemos segmentá-los em 3grupos.

No primeiro grupo, são descritos os efeitos imediatos (primeiras doses), como euforia, autoconfiança, autoestima e entusiasmo elevados, aumento de energia física e mental, e principalmente diminuição da fadiga, sono e dor.

No segundo, os efeitos decorrem do uso em altas doses e por longos períodos,e é aí que começa a existir o perigo, pois os usuários começam a apresentar perda da inibição e alteração no humor: irritabilidade, hostilidade e raiva excessiva.

E por fim vem o último e mais grave estágio, quando se descreve os efeitos mais deletérios do uso dessas ‘bombas’ eles acontecem quando esses sentimentos de agressividade se manifestam em atos de violência e ataques de fúria, que podem gerar abusos físicos e inclusive levar ao suicídio.

Complicações fisiológicas

A maioria dos efeitos considerados adversos provenientes do uso dessas substâncias decorrem da sua ação androgênica, portanto o seu uso não clínico, é tão somente com o objetivo de se obter efeitos anabólicos em escala hiper-fisiológica.

O seu uso contínuo causa alterações físicas como aumento da massa óssea, principalmente os ossos da face. Os ossos se tornam mais densos (largos), sem alteração de comprimento, tornando a face do usuário com aparência ‘quadrada’. Além disso, ocorre um aumento patológico da pressão arterial, dos níveis de LDL (colesterol ruim), reduzindo os níveis de HDL (colesterol bom), causando a longo prazo, doenças cardiovasculares.

Esses esteróides em altas doses podem elevar um metabólito da testosterona, a di-hidrotestosterona, ocasionando uma calvície precoce e acelerando o aparecimento ou mesmo causando o câncer de próstata; salientando que pode haver estímulo excessivo das glândulas sebáceas ocasionando uma profusão de acne cutânea.

Outra ação lesiva é sobre o fígado, podendo ocorrer desde simples hepatotoxidade até o desenvolvimento de câncer hepático (mais comuns nos esteroides usados por via oral).

Os anabolizantes podem modificar os níveis dos hormônios sexuais masculinos pela diminuição dos hormônios folicular (FSH) e luteinizante (LH) e por meio de seus vários efeitos sobre a testosterona e estrógeno. Em decorrência disso, os homens podem desenvolver a ginecomastia em decorrência dos altos níveis de estrogênio circulante, proveniente da conversão de testosterona em estradiol.

A disfunção erétil está relacionada ao uso abusivo e em longo prazo, isso é mais do que lógico, porque com o fornecimento artificial e supra-fisiológico de grande quantidade de testosterona ou derivados sintéticos, os testículos atrofiam e diminuem a produção fisiológica, comprometendo também a espermatogênese e prejudicando a fertilidade.

Em mulheres acontecem uma masculinização com aumento no crescimento de pelos pelo corpo, atrofia das mamas, a voz fica mais grave e há aumento do tamanho do clitóris, diminuição da libido além de alterações no ciclo menstrual (em geral com longos períodos de amenorréia/ausência de menstruação).

Um ponto muito importante é o seu uso por adolescentes, quando torna-se mais perigosa a sua utilização ,por que pode ocorrer maturação esquelética de forma precoce, que certamente irá interferir no crescimento normal do indivíduo, levando-o a ter uma menor estatura. A isso podemos acrescentar puberdade precoce, com um consequente crescimento raquítico, acne exagerada, calvície precoce e alterações no sono.

Curiosidade

O uso desses esteróides sintéticos teve início na década de 50. Os primeiros usuários foram os levantadores de peso e os fisiculturistas, com o objetivo de conseguir um aumento de massa muscular e peso corpóreo.

No entanto, o mundo se alertou logo sobres a sua ação lesiva e no ano de 1976, nas olimpíadas de Montreal, por razões éticas e devido a inúmeros efeitos nocivos, eles foram banidos do esporte e proibidos pelo Comitê Olímpico Internacional (COI). Em nosso país essa proibição só ocorreu a partir do dia 10 de julho de 1985, seguindo Portaria 531 do MEC, que por sua vez segue as diretrizes da legislação internacional.

Nos Estados Unidos cerca de três milhões e meio de homens e mulheres utilizam os EA para melhora de performance física, 69% dos atletas de elite fazem uso dessas drogas, já o uso de anabolizantes pelos atletas amadores está entre 2 e 8% da população, entre alunos do segundo grau, está entre 0,5% a 3% em garotas com idade entre 15 e 19 anos e 1 a 12% em homens com idade entre 15 e 19 anos.

Conclusão

O Endocrinologia, por formação e pelos conhecimentos inerentes à sua especialização, contra-indica formalmente o uso não clínico dos Esteródes Anabolizantes. É bom recordar que o seu uso pode significar uma forma fácil e rápida para se conseguir uma forma física aparentemente melhor, e é nas academias, onde a maioria dos frequentadores não são atletas, que se encontra com muita frequência a justificativa puramente do ponto de vista estético, ou seja, de querer se obter uma musculatura maior, ‘mais inchada’, quiçá ‘mais bonita’.

Em busca de um corpo ‘ideal’, muitos indivíduos, principalmente adolescentes e jovens, estão iniciando o uso dessas ‘bombas’ (de efeito retardado), se esquecendo de que a sua utilização precipita vários problemas de ordem metabólica, fisiológica e principalmente comportamental; e que quanto mais precoce for o seu uso, mais rápido será o desenvolvimento das complicações clínicas.

A maioria dos que fazem uso dos Esteroides Anabolizantes sabe que ao usá-los estarão correndo algum tipo de risco,porém não sabem da sua real dimensão. E é aí que mora o maior perigo, o do conhecimento inadequado ou parcial da substância que deseja utilizar.

A correta orientação na área de Saúde Esportiva deve ser obtida sempre em equilíbrio com um professor de educação física,um nutricionista, um fisioterapeuta, um endocrinologista, ou outro membro da equipe de saúde que se fizer necessário para completar o seu treinamento adequado. Procure se exercitar sempre em academias dirigidas por profissionais da área da Educação Física regulamentados, isso já lhe garante a certeza de uma conduta tecnicamente competente.

Lembre-se que hoje a saúde é um Bem Coletivo e exercido em sua plenitude por diversos e competentes profissionais dos mais diversos segmentos de atividades.

Uma Boa Semana com bastante Saúde, Atividade Física e adequada consciência esportiva.

MAKTUB…

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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