Djavan lança Ária

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Djavan lança um dos discos mais esperados do ano (Foto: Christian Gaul/Divulgação)

A ária é o momento mais esperado da ópera, o auge, o espaço privilegiado da sublime melodia. Ária, o novo CD de Djavan, é um dos discos mais esperados da música brasileira contemporânea, o momento em que uma das vozes mais bonitas do mundo dedica-se, pela primeira vez, exclusivamente a cantar, sem se preocupar com novas composições autorais. E é com esse belo espetáculo que Djavan se apresenta no dia 11 de junho, a partir das 21h, no Teatro Tobias Barreto.

Cada vez que ele gravava canções de outros autores, como Paulinho da Viola (Coração Leviano), Luiz Bonfá e Tom Jobim (Correnteza) ou mesmo um clássico universal como Smile, de Chaplin, era impossível não pensar na beleza que seria um disco inteiro de Djavan apenas com composições de outros. E Djavan pegou essa, digamos, obrigação histórica e, em vez do disco óbvio que todos esperávamos, cheio de belas canções levadas pela bela voz, fez um disco belo, sem dúvida, mas na mesma medida surpreendente, inusitado, inovador.

Surpreendente primeiro pela escolha do repertório, até com clássicos do porte de Palco (Gilberto Gil), Valsa Brasileira (Edu Lobo e Chico Buarque), Apoteose ao Samba (Silas de Oliveira e Mano Décio) e até a sinatriana Fly me to the Moon, mas totalmente guiado pela memória emocional do cantor, sem qualquer outro critério racional. Inusitado pela formação instrumental pequena e rigorosa, mas esteticamente libertadora: apenas o próprio violão, a guitarra de Torcuato Mariano, o baixo acústico de André Vasconcellos e a usina de percussão de Marcos Suzano. Inovador na medida em que Djavan pega composições populares, a maior parte delas muito conhecida e, sem perda de naturalidade, apresenta gravações formalmente jazzísticas, as melodias soltas, como que voando sobre as bases rítmicas e harmônicas. Um disco, sem dúvida, de um mestre na arte de cantar, tocar e arranjar: leve e rejuvenescido, as canções soando de fato como novas.

De um certo modo, Ária é uma volta ao começo da carreira de Djavan, início dos anos 1970, quando ele chegou de Alagoas ao Rio e, antes de se tornar compositor de prestígio com o estouro de Fato Consumado e Flor-de-Lis, vivia como crooner de boates históricas como Number One e 706. É desse tempo que ele pinçou uma das mais inusitadas faixas do disco, Brigas, Nunca Mais, originalmente um samba de Tom Jobim e Vinicius de Moraes aqui transformado em valsa, típica brincadeira de boate:

"Cansei de cantar essa música nas boates, ficava até irritado porque me pediam toda noite. Aí descobri maneiras novas de cantá-la", explica Djavan sua subversão do samba lançado por João Gilberto.

Assim, dessa maneira intuitiva e pessoal, Djavan foi escolhendo as árias de Ária.  De uma das mais belas letras e melodias do repertório de Cartola (em parceria com Dalmo Castelo), Djavan reinventa Disfarça e Chora apenas ao violão, e pelo prazer de remexer um clássico, revelando-lhe dissonâncias e acentuando sua beleza.  O mantra de Caetano Veloso Oração ao Tempo, outro clássico digamos intocável, também reaparece cheio de sutis invenções e um show de percussão de Suzano.

Fly me to the Moon e Palco, dois standards não menos inquestionáveis, também chegaram ao repertório pelo desejo puramente musical de lidar com músicas conhecidas demais. O primeiro, “o standard americano mais batido de todos”, como define Djavan, resultou em puro prazer musical, a mais propriamente jazzística das faixas, cheia de improvisos. Palco, não menos “batido” sucesso de Gil foi, também segundo Djavan, “um desafio maravilhoso”. O resultado é a faixa talvez mais pop do disco, numa suingueira totalmente à maneira de Djavan, completamente diferente do suingue de Gil, confiram.

Apoteose ao Samba chegou de uma vontade de falar de samba, homenageá-lo, vertente importante do trabalho autoral de Djavan. E não é que o samba de Silas e Mano Décio, a dupla mais tradicional do Império Serrano, ficou a cara de um daqueles sambas sincopados típicos do Djavan compositor.

Mas nem só de árias conhecidas vive Ária. Da mais remota memória afetiva do cantor emergiu Sabes Mentir, samba-canção abolerado de Othon Russo, do repertório de Angela Maria e que Djavan aprendeu ainda na infância, de tanto ouvir sua mãe cantar.

E a memória afetiva puxa, ainda da infância, a instrumental Treze de Dezembro, velho tema de Zé Dantas e Luiz Gonzaga, aqui reinventada de forma jazzística. E pula para a adolescência de Djavan, com a versão da bela  balada Nada a nos Separar, pinçada do repertório do Trio Esperança:

"Adorava o Trio Esperança e, especialmente, a voz de Evinha, que fazia discos poderosos antes de se mudar para Paris", revela Djavan.

Já músico de sucesso no Rio, Djavan encantou-se por seu colega de geração Beto Guedes, de quem interpreta (em parceria com Caetano), Luz e Mistério, pelo nítido prazer de cantar. Do parceiro Chico Buarque (com Edu Lobo), Djavan viaja pela Valsa Brasileira e encara sua complexidade em letra e melodia, demonstrando todo o seu potencial como cantor.

Atento ao que acontece na música mundial, Djavan pinçou La Noche, canção contemporânea espanhola, do repertório da cantora Montse Cortez, que lhe foi apresentada por seu filho Max Viana. Nitidamente, nesta faixa, Djavan aproxima sua escola pessoal de canto a uma das mais influentes na música pop internacional, a do flamenco.

"Nunca imaginei fazer um disco assim, porque o meu prazer sempre foi compor. Pensava: vou me divertir pouco. E pensava também: vai ser um disco fácil, já que não preciso compor. E me enganei: acabei me divertindo muito reinventando e pesquisando as canções dos outros, e foi um dos discos mais difíceis de fazer, sobretudo na hora de escolher o que cantar", sentencia Djavan.

Das reminiscências mais remotas à informação mais atual, e tendo o cancioneiro brasileiro como base, Djavan apresenta um disco de raro desprendimento estético. E de intenso compromisso com o que importa, a música. O resultado ouve-se com a alegria e a surpresa sempre renovada da ária mais aguardada.

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