Decisão corajosa – Cláudio Nunes

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O golpe militar de 64, além de tantos males que causou ao país e de um trauma profundo nas instituições brasileiras, cortou bruscamente a formação natural dos partidos e, 42 anos depois, a sociedade ainda convive com partidos sem autenticidade.  Se o governo militar dissolveu os partidos, que, bem ou mal, representavam os diversos interesses e pensamentos da sociedade, criando somente dois partidos por decreto, os  políticos não souberam, nem durante a ditadura nem tampouco depois da reconquista da democracia – quando tiveram toda liberdade para isso – continuarem a prática das vocações e afinidades partidárias. Se depois de 64, a maioria optou pelo conformismo e de se ajeitar conforme a música dos donos do Poder, na democracia, no início da década de 80, não souberam nem tiveram a competência e desenvoltura necessárias para a formação de um projeto político consentâneo com a nossa  realidade. Contemplando todas as tendências e idéias em partidos mais autênticos, inclusive com legislações claras.

 

Três décadas do fim da ditadura, legendas e políticos não se firmaram em partidos sólidos, sabendo-se, inclusive, que quase todos possuem programas semelhantes. Alianças e coligações estranhas são feitas, políticos pulam de um partido para outro, muitas vezes elege-se por um e quando tomam posse do mandato passam para outro e segue-se nessa ciranda promíscua e que confunde o eleitorado. Se não bastassem essas práticas, a disposição para a corrupção aumentou.

 

Dentro desse quadro, que já é confuso, para se distinguir quem é quem, vem, como um casuísmo, a chamada verticalização, obrigando os partidos, nos estados, a se unirem forçadamente conforme a coligação em nível de candidaturas a presidente. Como se os partidos, no Brasil, fossem sólidos e programáticos. A nossa realidade é outra. Nos estados reinam profundas divergências entre partidos que se unem nacionalmente e a verticalização, ao invés de representar um coroamento de um sistema natural, vem criar mais confusão.

 

Em Sergipe, pela verticalização, Albano Franco, do PSDB, teria que se unir ao seu mais ferrenho adversário, João  Alves Filho, do PFL. Embora sendo esdrúxula até que seria vantajoso para uma candidatura de Albano ao Senado com o apoio do  PFL local. Satisfazendo também seus correligionários da direção nacional do PSDB. Mas a realidade de Sergipe, não conta? Como explicar isso a tantos amigos incluindo os do interior, onde cada político participa de um grupo? Colocou-se para Albano Franco uma espécie de ultimatum quase oficial e sem volta: a união com João Alves, dando o seu apoio ao mesmo para governador e recebendo de volta o apoio para a candidatura ao Senado ou apenas indicando o candidato à vice. Não importando as vozes discordantes,  tanto no PSDB quanto no PFL.

 

E aí, Albano, que para alguns tem fama de indeciso, toma uma decisão corajosa. Não vai apoiar João Alves para governador que seria o caminho natural dele, tanto pela origem familiar, mas principalmente pela trajetória política. Ao contrário do que muitos pensavam – entre eles diversos alvistas – Albano  deve anunciar esta semana que se inicia um apoio à candidatura de Marcelo Deda ao governo estadual. Ele sabe que irá para uma disputa acirrada para o Senado Federal com a senadora Maria do Carmo. Porém, além de ouvir a maioria dos tucanos, Albano está balizado nas pesquisas eleitorais que não aceitam mais os chamados “acordões”. Ele próprio quase foi vitima de um deles em 1998, quando trouxe Jackson Barreto para seu lado e ganhou uma eleição apertada no 2° turno, além da derrota de JB para o Senado Federal.

 

A decisão corajosa de Albano Franco ficará na história política de Sergipe. Deixa de seguir o caminho natural com os pefelistas para seguir o caminho das chamadas esquerdas, onde até pouco tempo não havia espaço para membros da elite. Esse quadro mudou há muito tempo e o exemplo maior é o vice-presidente da República, José Alencar, um dos empresários mais ricos do Brasil ao lado de Lula. Aqui vizinho, em Alagoas, no início da década de 80, um político de origem conservadora e usineiro, como Albano, até então pouco conhecido no país, Teotônio Vilela, mudou radicalmente sendo um dos baluartes da campanha pelas “Diretas Já” e pela redemocratização do Brasil.

 

Por mais que alguns tentem passar que a decisão não influenciará a eleição deste ano, a classe política sergipana sabe que essa decisão  mudará todo quadro eleitoral, já que será feita a chamada “aliança branca” para apoiar a candidatura de Marcelo Deda. Como conseqüência natural, Sergipe terá uma batalha eleitoral das mais emocionante das últimos anos. Além do embate acirrado entre as duas candidaturas majoritárias para o governo do Estado de João e Deda, poderá surgir outra, para o Senado, entre Albano e  Maria do Carmo.

 

Com essa decisão, Albano Franco cria um grande problema para João, que não esperava por essa, tendo de concordar com a candidatura de Maria ou então lançar um nome mais fraco eleitoralmente entregando o Senado de bandeja aos adversários locais. Lançando Maria do Carmo, sua mulher, estreitaria o campo de manobras com relação a alianças e apoios. A partir desta semana, com a decisão que será anunciada pelo ex-governador Albano Franco a disputa eleitoral começa pra valer em Sergipe.

 

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