Homossexualidade na mídia: sociedade não está preparada

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Matéria faz parte da série especial produzida pelo Portal Infonet (Imagem: Portal Infonet)

Já não é de hoje que os meios de comunicação têm se dedicado a tratar o tema da homossexualidade. Seja na TV ou no cinema, personagens antes estereotipados, agora assumem papéis de destaque na grande mídia.

Um fator preponderante é que sob esta ótica é possível perceber uma maior abertura no que diz repeito a discussão dos direitos dos homossexuais, mas será que a sociedade está preparada para dialogar sobre o assunto?.

Para o mestre em comunicação e cultura da Universidade Tiradentes (UNIT), Gilton Kennedy, o tema sempre foi tratado de forma velada pela sociedade. “A ideia da homossexualidade sempre foi, de certa forma, escondida, recusada pela sociedade e, agora, na contemporaneidade, no final do século XX e início de XXI, a gente já vê um outro comportamento, uma aceitação maior. Nós não podemos falar que a aceitação vem só em relação à homossexualidade, mas em relação a vários tabus que nossa sociedade já tinha, com preconceitos que começaram a ser trabalhados nessa sociedade através das telenovelas, filmes, uma discussão muito ampla para que as pessoas possam observar e aceitar tais mudanças democraticamente”.

Para Gilton Kennedy, o tema sempre foi tratado de forma velada (Foto: Portal Infonet)

Uma sociedade que não está preparada

No entendimento de Gilton Kennedy, a sociedade nunca estará tão bem preparada para discutir o assunto. “A sociedade sempre recusou não só a questão do homossexualismo, mas outras questões. Toda mudança é impactante. Claro que hoje já discutimos mais democraticamente, temos cidades aqui em Sergipe as quais o preconceito é muito forte, chegando até mesmo a crimes bárbaros que resultam em mortes”.

Ainda segundo o professor, o preconceito impera na sociedade atual. “Às vezes muitas pessoas que se dizem esclarecidas com aceitação, mas dizem que não precisam encontrar você beijando em público, ver mulheres juntas por acharem que é falta de respeito e isso é um preconceito velado. Por que você vê uma mulher e um homem e não acha nada? E quando vê um homem, não pode? Porque você é preconceituosa, porque nossa sociedade é preconceituosa e não adianta negar, é algo forte. As pessoas ainda escondem, diz que aceita, mas não quer o filho assim. Quando o problema bate a sua porta, a coisa é diferente e você se porta diferente”.

Jailton Santos diz que a mídia tem o papel de desmistificar os preconceitos

Praia do Futuro: a polêmica

No meio audiovisual, uma produção que está causando polêmica em todo o país é o filme “Praia do Futuro”, que exibe cenas de sexo entre dois homens e tem como um dos protagonistas, o ator Wagner Moura [que protagonizou o capitão Nascimento do filme Tropa de Elite].

Ao assitir ao filme, o estudante homossexual Ricardo Sukerman tomou como surpresa a reação de um casal heterossexual. “Quando começaram as cenas de sexo, o marido da mulher disse: 'foi para isso que você me trouxe? Para assistir um filme e ver dois ‘viados’ fazendo sexo', e ele irritado, pegou ela e foi embora. Tomei como surpresa porque quanto mais se falar sobre o assunto, o preconceito da homossexualidade poderia ser menor. As pessoas deveriam entender que o ser humano já nasce gay e não se torna gay”.

Rosângela Rocha diz que é preciso respeito por parte do espectador que se propõe a ver um filme de cunho homossexual

Segundo a diretora do Núcleo de Produção Digital Orlando Vieira (NPDOV), Rosângela Rocha, mesmo para o espectador que não está habituado a tal filme, é preciso respeito. “Sobre o fenômeno dos espectadores se levantarem das salas revoltados, sejam eles do gênero masculino ou feminino, ao ver as cenas homoafetivas, como conceber ao espectador, a imagem viril de Wagner Moura (o Capitão Nascimento, praticamente o semi-deus que os espectadores escolheram como a solução definitiva para os problemas sociais, políticos e econômicos do Brasil), associada agora com a de um gay?. Reconhecer o que é e pra que serve um filme que se afasta de um modo de produção mais ou menos oficial e que transpareça essa condição em sua estética é difícil para o espectador que não se propõe a isso. A arte está além fronteira de uma único entendimento. É preciso respeitá-la, ainda que nosso ponto de vista seja qualquer outro”, finaliza.

Desmistificação dos preconceitos

Seja na TV ou no cinema, o tema da homossexualidade já é visto e debatido com mais aceitação, é o que afirma o mestre Gilton Kennedy. “Isso é positivo na medida em que tráz uma discussão para a sociedade, traz o diferente e não se vê isso como conceitos de marginalidade ou como conceitos de forma de discriminação, então a mídia é importante nesse processo de democratização. Quando vem muito carcado [rebaixado], cheio de trejeitos [gestos], vira-se uma piada e uma forma de chacota no conceito social, mas mesmo assim, há os seus lados positivos e o importante é entender que tal união é um relacionamento sério e que se deve ter respeito”, afirma.

De acordo com o presidente do Grupo Homossexual do Bugio (GHB), Jailton Santos, a mídia tem um papel fundamental na desmistificação dos preconceitos. “Graças a Deus, a mídia tem contribuído bastante, mostrando um pouco a realidade dos homossexuais, principalmente nas telenovelas e nos cinemas. Eu acredito que o respaldo venha a contribuir na aceitação e no respeito para com as famílias homoafetivas, pois a homossexualidade é um sentimento natural, não é questão de escolha, pois ninguém se torna gay nasce Gay. A homossexualidade está presente nas melhores famílias, assim como aconteceu na família do Felix personagem homossexual interpretado por Matheus Solano na novela Amor a Vida. De família rica, ele foi forçado a ter comportamento hetero, casar, ter filhos por “regras sociais” reprimindo seus verdadeiros sentimentos por uma pessoa do mesmo sexo, acontece que chega um momento na vida que se torna impossível domar a sua própria natureza”.

Por Aisla Vasconcelos

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