“Jozailto gravita entre o erótico, morte, o existencialismo, Deus, a ecologia”, por Ronaldson Souza

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A memória e a família são temas fortes no terceiro livro do poeta Poeta de talento, jornalista baiano radicado em Sergipe há quase duas décadas, Jozailto Lima lança seu terceiro livro, Retrato Diverso, obra ganhadora do 5º Prêmio Santo Souza, promovido pela Secretaria de Estado da Cultura. Valeu a premiação a junção de belos poemas, temas que retratam personagens do imaginário do autor, da infância, os parentes, a geografia física e psíquica, apanhados por uma habilidade que só os verdadeiros literatos têm. O livro é mais amadurecido que o último, Plenespanto, também ganhador do concurso anterior. O mais interessante do livro, e não deixa transparecer nisso uma busca de individuação poética, é o tom nordestino perpassado pelo eu-lírico, que ora transparece além de mero relatar de geografias e costumes, e está na escolha precisa dos vocábulos e suas simbioses, que torna o regional em universal, como tão bem exemplificou a maestria cabralina. O bom traquejo com a linguagem, escolhendo esses vocábulos precisos e particulares, a plasticidade das imagens e sons, as referências aos mestres, a natureza interiorana e frugal recuperadas pela força da dicção memorialista como o expressivo ‘Meu Ariri’ – ‘Quanta alegria subtraí aos arapuás/ Que te banqueteavam, meu ouricuri-mirim,/ Príncipe de toda uma flora ofendida’ -, fazem materializar uma das mais nobres funções da poesia, que é de acender valores inimaginados de onde menos se espera, das mínimas coisas, insuspeitas migalhas. Ou seja, tirar das insignificâncias o ouro. É com alegria que recebemos esta nova poética de Jozailto, genuína sim, quando tanta verborragia quer tomar pele de poema, quando se prestigia tanto falso versejar, tantas vaidades inóquas. Quando são poucos que retiram da mudez das coisas a expressão prima. Este poeta resgata, garimpa e esmerilha imagens submersas numa vivência nordestina de labuta e sonho. Em seu leque temático gravita o erótico, a morte, o existencialismo, Deus, a ecologia, o coloquialismo, a precariedade humana etc. É uma diversidade de flashs apanhados pelo apuro da linguagem, retratos amarelados pelo tempo, resgatados com angústia e alegria na memória. É uma voz sapiente e vivida, antiga mesmo, a que sopra nas páginas do livro. Mas tornada eterna e contemporânea pelo versejar superlativo, maduro. É um livro para ser lido e relido, como todo trabalho literário de valor. Com este Retrato Diverso, Jozailto Lima acrescenta entre seus companheiros de geração uma poesia que tende a crescer e sedimentar digitais que tecerão sua trajetória literária. Enfileiram-se ao rabo do olho, gemas preciosas como ‘Evocação às vacas’, ‘As cigarras’ ou tão humanamente comoventes como o ‘Tia Dadu e o olor da felicidade’ e ‘José em Sonho’: ‘Meu pai vence o chão e me visita/ Quase todas as noites./ É tão doce a sua presença/ -eu órfão neste pasto enorme!’. Por hora, é uma poesia que vem despertando admiradores não somente entre colegas locais, mas cativando nomes emergentes da MPB, como a cantora, e também poeta, Flávia Virgínia, para quem Jozailto é um grande poeta, não falta nada à sua expressão. Precisamos mais e mais de poetas melhores, e que se melhorem mais os poetas: em ofício e como pessoas humanas. Quando a poesia neste país, paradoxalmente rico e miserável, está tão desprestigiada pelas grandes editoras, pelo ibope, pelos Big Brothers. Enfim, não se investe em poesia. Quando o próprio cultor deste Retrato Diverso reafirma isso: ‘Neste ofício vão,/ A poesia gasta/ Teus melhores dias./ E teus dias gastos/ Não retornam não’. E ela, a boa poesia, continuará sendo taça de vinho nobre para paladar de poucos, quando bom se fosse, por fermentar matéria-prima da vida humana, gole feliz de muitos. * Ronaldson Souza é designer, poeta, autor de Questão de Íris e pós-graduado em Literatura Brasileira. TIA DADU E O OLOR DA FELICIDADE Tia Dadu era cega E fazia a vida menos amarga Mascando fumo Fabricando sabão Comendo saruês Tecendo esteiras da palha de licuri. Tia Dadu moqueava o marsupial – e sepultava-o no caixão de farinha – mexia tachos de sebo e soda cáustica macerava o fumo e cuspia longas esteiras de palhas de licuri sobre as tardes do arraial do Alto Alegre. E eu nem sabia que o olor daqueles dias Era o exato olor da felicidade e da alegria. Retrato Diverso foi o primeiro lugar no V Prêmio Santo Souza de Poesia, é editado pela Secretaria de Estado da Cultura e será lançado quarta-feira, dia 19, às 20 horas no Teatro Tobias Barreto, em um evento que conta ainda com a participação da Orquestra Sinfônica de Sergipe e do pianista Amaral Vieira. O livro tem 110 páginas, foi impresso pela Sercore e vai estar nas principais livrarias de Aracaju a partir do dia 20.

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