Lares sem formação tradicional são uma realidade

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O casal Wahsington e Fabien no dia do casamento (Foto: Arquivo Pessoal)

A mudança na legislação, a qual torna o divórcio algo possível, podendo ser feito de forma rápida no cartório, refletiu da mudança estrutural familiar, dando novas formas às famílias brasileiras. O mesmo acontece com o casamento de pessoas do mesmo sexo, que é também um reflexo das mudanças na lei que rege o casamento. É o que mostra o Censo 2010 do IBGE, que detalha esses novos modelos, trazendo o número de mais 144 mil novos casamentos de pessoas divorciadas no Brasil.

Em Sergipe, quando foram realizadas as pesquisas, 959 pessoas heterossexuais casaram novamente. As famílias homoafetivas fazem parte também desses novos modelos e já somam 60 mil em todo o Brasil, segundo o Censo. Os lares homoafetivos são exemplo desses novos arranjos familiares em Sergipe, que à época da pesquisa já somavam 440. As mulheres são maioria, com 275, ou seja, respondem

por 63,5% dos lares. As famílias formadas por casais do sexo masculino chegam a 165 no estado.

O juiz de Direito, Raphael Silva Reis, explica que a formação de outros tipos de família é uma realidade e ressalta que o judiciário teve que adaptar sua postura diante das mudanças na sociedade.  O juiz refere-se às uniões homoafetivas, que faz parte da garantia de direito à liberdade.

A família de Emirinalda. Na foto ela seu esposo e Sofia, sua neta (Foto: Arquivo Pessoal)

Ele completa – “Nossa legislação foi estabelecida para uma época em que havia muito tabu. Contudo, a constituição de 1988 trouxe várias garantias, como o direto à liberdade. Então, nosso código civil já previa o instituto do casamento e o que aconteceu foi uma nova interpretação, que estendeu aos casais homosexuais a possibilidade de formalizarem a sua união através do casamento civil. Isso foi regulamentado pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ)”, explica o juiz, ao ressaltar que todos os meses celebra casamentos homoafetivos.

Novas famílias

A família da aposentada Emirinalda Santos Lima, de 47 anos, é um exemplo de família reconstituída depois da separação. Mira, como gosta de ser chamada, conta que casou pela primeira vez aos 17 anos. Do casamento, teve dois filhos, que continuaram com ela após o divórcio. A aposentada relata que o momento foi doloroso, mas logo encontrou novamente a felicidade ao reencontrar um velho amigo da adolescência, com quem está casada há 18 anos.

juiz de Direito, Raphael Silva Reis "celebro casamentos homoafetivos todos os meses"

“Minha separação foi em comum acordo, ele continuou sendo pai cumprindo com as suas obrigações e nos damos muito bem. Dois anos após a separação reencontrei meu amigo de infância, que se declarou para mim antes do meu primeiro casamento, mas já não tinha jeito. Ele soube do meu divórcio e me procurou novamente. Então aquele antigo amor voltou à tona e estamos juntos há 18 anos”, relata a professora ao ressaltar que a aceitação dos filhos foi positiva e hoje formam uma família, a qual denomina como feliz.

Bárbara Teles e Alexandra Bezerra são publicitárias e após alguns anos de convívio decidiram formalizar a união. O casal já possuía bens e daí surgiu a preocupação para concretizar a relação. “Quando conheci Alexandra já éramos bem resolvidas. A aceitação por parte da família é sempre mais dramática, justamente por causa dessa intolerância. Já convivíamos antes do casamento e começamos a construir as coisas juntas. Por isso, surgiu a preocupação de casarmos para deixar as coisas em ordem”, conta.

Para compor a família, as publicitárias planejam ter filhos. Segundo Bárbara, a ideia é que uma delas forneça o óvulo já fecundado por um doador e que a outra tenha o bebê gerado em seu ventre. “Assim, nós duas teremos vínculo com a criança”, planeja.

Ivana e Rosa "Não foi fácil, mas hoje somos uma família feliz"

Sobre o convívio com filhos numa relação homoafetiva, o Portal Infonet ouviu a socióloga Josevânia Nunes, que vê esses novos modelos de família, incluindo a criação de uma criança, como um avanço social. Contudo, ressalta que toda normatização é demorada.

“Na minha percepção é claro que a sociedade irá ter que conviver e repensar sobre o assunto. Existe a lei e a possibilidade de estar dentro de um ciclo social como um casal, mas isso é gradativo. Essas permeabilidades, dentro de todos os vínculos sociais, observar com naturalidade, sem os pré-julgamentos e de colocá-los como indivíduos vistos com estranhezas, é uma normatização demorada.”, explica a socióloga.

Aceitação e desafios

As mudanças nas estruturas familiares ocorreram, mas a aceitação caminha a passos lentos. Para os que decidem dar

Primeira matéria da série

início a uma nova estrutura familiar os desafios são grandes. Para o casal Washington Araújo Broux e Fabien Broux, que vivem na cidade de Nice na França, além de enfrentarem a barreira da distância tiveram que esperar a liberação do casamento gay no país. Washington é brasileiro e Fabien Francês. Em 2013 eles conseguiram oficializar a união e hoje dividem um lar na cidade francesa.

“Nós enfrentamos alguns problemas até conseguirmos finalmente viver juntos. Hoje já temos o nosso lar e vamos aumentar a família no próximo ano. Nós queremos adotar um menino e já estamos caminhando para isso”, relata.

Para o casal Rosa Reis e Ivana Bispo, assumir a relação não foi uma decisão tão fácil. Rosa, que é mãe e avó, conheceu Ivana, que é também mãe e avó de três netos, há quatro anos e hoje vivem na mesma residência com os netos e filhos. O casamento não está ainda oficializado, mas os preparativos já começaram e o casal pretende casar ainda este ano.

Josevânia Nunes "normatização demorada"

“Minha esposa separou do marido e então começamos a ter um romance. No início não foi fácil, pois ainda há discriminação, mas essa barreira nós vencemos e conseguimos conviver em harmonia. Os filhos dela sentiam vergonha da situação, mas agora estão conformados”, relata Rosa Reis, que pretende adotar sua neta e aumentar a família.

Por Eliene Andrade

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