Sergipana lança obra inédita no Brasil

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Aracaju acaba de ganhar uma obra que pode ser considerada inédita, inclusive em nível nacional. O livro, intitulado “Pés de anjo e letreiros de neon – Ginasianos na Aracaju dos anos dourados”, tem como autora a professora Tereza Cristina Cerqueira da Graça, vice-presidente da Funcaju. A obra expõe um retrato fiel das relações entre as práticas culturais escolares e urbanas dos anos 50, contadas de forma fácil, dinâmica e até mesmo poética. Temas como os exames de admissão, fardamentos, preleções, relação professor-aluno, argüições, festas escolares, relações amorosas, iniciações sexuais, fugas e a prática de gazear aula são abordados em um cenário onde também se reconstitui os locais de lazer, a moda, a relação familiar, a música, os programas de rádio, fãs clubes, a leitura e troca de gibis nas portas de cinemas, são explorados pela autora. Em entrevista exclusiva ao Portal InfoNet, Tereza Cristina deu mais detalhes do que os sergipanos e os brasileiros podem esperar da obra. PORTAL INFONET – Como surgiu a idéia do livro? O que de fato é resgatado nele? TEREZA CRISTINA – Na verdade esse livro é uma dissertação de Mestrado. Eu entrei na universidade com um outro projeto, que era o de estudar o conflito escola pública x escola privada e comecei a entrar em contato com a literatura pedagógica, principalmente com os inscritos de história de divulgação que trazem essa perspectiva de estudar as relações entre práticas escolares e cultura urbana. Eu me lembrei das memórias de meus pais, que foram adolescentes nos anos 50. Quando minha mãe se casou, ela ia fazer 14 anos e meu pai tinha 16 anos. Eles eram adolescentes nessa época e me contavam muitas histórias e eu pensei em explorar este assunto. Como eu gosto de tratar muito do cotidiano, das coisas mais práticas, foi a sopa no mel. PI – Como foi o trabalho de coleta de dados? TC – Eu parti do estudo de três escolas públicas e três privadas. As mais famosas. Estudei o Colégio Atheneu, Escola Normal e Escola Industrial, como públicas. O Tobias Barreto, que na época era particular, o Nossa Senhora de Lourdes e o Jackson Figueiredo. Esses eram os ginásios mais famosos da época. Eu fui atrás dos ginasianos da década de 50. Encontrei pessoas que hoje já estão na faixa dos 60 anos que me deram os depoimentos. PI – O que você mais explorava nos depoimentos? Você havia falado em brincadeiras e outras coisas que aconteciam antigamente. O que você resgatou? TC – No livro, eu tento pegar esse cotidiano da escola, desde o primeiro dia de aula, aliás, desde o exame de admissão, que era o terror da época. Assim como hoje se tem o Vestibular, para o qual se paga curso preparatório, antes se tinha o exame de admissão e, para isso, também existiam exames de admissão. Então, eu começo do exame de admissão e vou até a formatura. Mas para isso, eu vou passando no contexto da escola e da cidade o tempo inteiro. Cito o que era necessário para o exame de admissão. O menino ia tirar os exames, ia ao Serigy, o lambe-lambe, onde era feita a foto 3×4 no famoso Foto Oiti, etc. Tudo isso eu resgato no livro. Eu tento buscar essa paisagem urbana, esse fazer do estudante dentro do livro. Depois eu passo para o primeiro dia de aula, trato das relações professor aluno, que eram bastante autoritárias na época, a cola, as argüições, que eram também de caráter punitivo, a imagem que os meninos tinham dos professores, as aulas de inglês, e essas coisas cotidianas que sempre existiram. Outra coisa abordada é a questão do gazear aula. O que eles faziam no recreio e quando gazeavam a aula, iam para onde – aí o cinema era o “tchan” da época. Elas iam também para os trampolins da Rua da Frente, para os sítios pegar mangas, etc. As formaturas, os namoros, a sexualidade. Eu recupero também os programas de rádio, como o “Escolha a sua Música”, que era muito famoso na década de 50. Os fãs-clubes que existiam aqui, como os de Emilinha Borba e Marlene, os gibis que os meninos liam, as revistas de moda, os concursos de Miss, que eram uma febre nos anos 50. PI – Qual era então a relação escola x cultura urbana? TC – Esse trabalho de resgate mostra como esses saberes escolares e urbanos se relacionavam e implicavam na própria formação do jovem. Essas práticas culturais urbanas são apropriadas pelas escolas, apesar da escola rejeitar. Muitas das práticas culturais urbanas eram punidas, por exemplo, se um menino fosse pego lendo um gibi ele era punido. Outro aspecto muito interessante foi a chegada do rock, que foi visto com pavor pelos adultos da época. A famosa juventude transviada, que aqui ainda nessa época era embrionária, se manifestando melhor nos anos 60. No Colégio Atheneu tinha um bedel – uma espécie de vigia da porta da frente – que segurava uma cola de ping-pong para colocar na calça dos meninos e, se a bola não passasse era porque estava apertada demais e o menino era mandado de volta para casa. A escola sempre, e até hoje, rejeita a moda da rua, rejeita os comportamentos juvenis, só que naquela época a coisa era muito mais séria. PI – Depois de concluído este trabalho, tem como se fazer uma comparação entre a juventude dos anos 50 e a de hoje em dia, que é muito bem servida pela tecnologia? TC – Do ponto de vista escola, é preciso avaliar muita coisa. Aracaju, em 1955, tinha pouco mais de cinco mil alunos em todo o Ensino Médio. A escola que eu trabalho tem três mil alunos. Então, Aracaju toda tinha pouco mais de cinco mil em todas as escolas e o Ensino Médio era o Ginásio e o Científico. A quantidade era muito menor. O exame de admissão era extremamente rigoroso. Em termos de aquisição de conhecimento, esse aluno tinha mais possibilidade, até porque ele passava por um filtro extremo, coisa que ele não passa hoje. E falando da relação professor aluno e a relação pai e filho, eu acredito que não se trata de dizer que a juventude dos anos 50 foi mais obediente ou menos rebelde em relação à de hoje. Acho que são momentos diferentes que os pais e professores tiveram uma forma de agir e hoje temos outra. Do meu ponto de vista, não se deve perder a autoridade em relação ao jovem e à criança. Nem os pais e nem os professores. Eu sou professora, sou mãe e primo muito pela questão da autoridade, só que hoje essa autoridade tem que ser conquistada pelo respeito e não pelo medo, fato que mudou muito da década de 50 para cá. PI – O seu livro já é considerado uma obra inédita aqui em Aracaju e, inclusive, em nível nacional. Como você vê isso? TC – Quem fez o prefácio da o meu livro foi a professora Clarice Nunes. Ela é do Rio de Janeiro e é uma das maiores autoridades desses estudos da relação entre escola e cultura. Ela faz um prefácio no meu livro que, segundo ela, é um trabalho um tanto quanto inédito até em nível de Brasil. Eu me sinto muito feliz em ter o prefácio de uma pessoa que é a maior autoridade do assunto no Brasil. Ela não prefaciaria se não tivesse qualidade. Além disso, ela já tinha divulgado o trabalho antes mesmo de ser publicado. “Pés de anjo e letreiros de neon – Ginasianos na Aracaju dos anos dourados” será lançado nessa terça-feira, dia 17, a partir das 18 horas, na galeria de Arte Álvaro Santos.

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